terça-feira, 14 de março de 2017

Sobre sorte e pessoas inúteis


Ele foi trabalhar assim como se aquele último dia nem estivesse ali. Olhou todo mundo na reunião como se aquilo tudo devesse realmente ser levado a sério. E respondeu e-mails com uma calma que as mensagem nem puderam desconfiar. Tomou um café sem açúcar e por um breve instante suas papilas sentiram aquele gosto de vida real. Dormiu e cagou no banheiro da firma com aquele espírito foda-se como se um estagiário fosse. Sua tela de computador era tão brilhante. Tão interessante. Tão cheia de informações inúteis pululantes. E saiu do trabalho sem despertar ofensas. Deixou sua mesa organizada. E pela primeira vez na vida não teve certeza de nada. Pensou em correr mas não quis despertar nenhuma desconfiança. Pensou em rir mas chorou escroto e sem ninguém ver, igual uma criança. Limpou seus olhos e olhando o céu, quase acertou a merda de uma pomba. Que sorte hein. Que sorte.

The greatest

Glorinha me mandou aquela entrevista da Chan Marshall pro Times depois de um daqueles almoços intermináveis de sexta feira na agência. Fiquei apaixonado pelas duas. Anos depois eu fiz questão de achar sem querer aquele video na tela de um cyber café em Berlin só pra ver ela assistindo. Ela ainda acredita que alguém deixou aberto na tela. Como eu acreditei quando ela finalmente me ligou quase meia noite e me fez despencar pra Botafogo só pra finalmente me dar aquela boceta. Eu duro, redundante, naquele ônibus velho, baratinhas passando debaixo dos meus pés, apaixonado. Mas ela me deu. Pediu pra beber um pouco antes. Foi a pior melhor foda da minha vida.

Glorinha me mandou tomar no cu outro dia. Disse que vai passar um tempo na França. Que precisa pensar. Que é uma grande oportunidade. Ela ainda acredita que eu acho que isso seria o melhor para ela. Parece que quando ela finalmente decidiu dar pra um australiano começou a chorar quando Cat Power surgiu na porra da playlist do cara. Eu ainda acredito que ela vai voltar. Como acreditei quando ela ligou de madrugada dizendo que me amava de um telefone público em Paris uns quatro meses atrás. Foi a pior melhor ligação da minha vida.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Supercílio


E o que será de mim se esse nós que ainda existe virar apenas eu. Se eu me arrepender e deixar a sós toda voz que ainda dá pra escutar. Lançar mão de tudo o que nunca escolhi me desapegar. Andar pronde o vento aponte, feito pássaro que voa longe. Paro. Me alastro. Me afasto pra te ver assim de um jeito que não seja escancaradamente só meu. Sinto falta de perder o tato, nesses segundos que andam correndo demais. Mas há mais do que isso e insisto. Não há cisco que impeça o que todo mundo pode ver a olho nu. Vestígios vestidos de toda essa história que parece fardo, parece sarro, parece sumir a cada vez que ela insiste em se abrir. E o que será de mim se eu me perder dentro de você? Submerso em versos, afogado em acasos cínicos, cego e cítrico, ácido, flácido. Desesperadamente mundano. Sem me atirar nunca vou saber se você me chamaria pra dançar. E o que seria de nós sem todas as minha dúvidas. Sem todas as minhas mudanças de opinião. Sem toda essa minha fraqueza que não deixa o meu peso desabar no chão.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Methamorphosis


"One morning , when I woke from troubled dreams , I found myself transformed in my bed into a horrible bug".
-This it 's not possible . It's worst then a joke , it's a plagiarism!
For someone who had always the dream to become a writer , it was the end . Worse than waking up as a cockroach, was the knowledge that it was already had been written decades ago by a renowned author.
It all started in my last English class when the teacher asked me what I was reading. After answering Kafka, he asked me to write a few lines about the book. Ok, homework. Because I had not finished the book yet , I passed the weekend immersed in its last pages like a cockroach in a sewer. When I finally finish it, I ended up falling asleep . Then I was there, a cockroach in person, late for class and the worst: no homework done. That was a really bad monday morning. Despite having a much better excuse than the classic “the dog ate my work” , I decided to face the challenge and cross the city center to go to school. My plan consisted in explaining in person why I didn't do the homework. I had evidence that something very serious had prevented me from doing that. Myself. On the streets, I began to suffer the symptoms of lack of originality in my story. Different from the Kafka’s cockroach, with human proportions , I was a small cockroach like any other. I had turned myself into something more invisible then an illegal immigrant. Luckily I managed to get hung ride on a dog's skin. The animal did not notice anything because was as stone as the Adidas Poster Guy which led him by the collar. The north side accent did not disappoint me and soon I could see the school walls. Few moments later, I was in front of my classroom closed door. It was late, but for the first time in life I had a good excuse. I heard some footsteps and then the door opened. Suddenly I was hit . My teacher stepped on me on the way to the Xerox. Neither noticed the crisp sound of my small bug body craked. "Then, without my willing it , my head sank down completely, and my last breath flowed weakly from my nostrils."
Apart from that , few minutes later only it was possible to hear the teacher asking "Homework? Homework? Anyone?".

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Fabulário sobre nuvem preta


É um trem lotado, uma fila imensa, um prazo estourado, uma crise de consciência. É um copo derramado, uma conta roubada, uma amizade desfeita, um coração estilhaçado. É um pouco a mais de sal, um pouco menos de tempo, uma saudade que não bateu, um emaranhado de frases começando com eu. É o breve que deveria durar, é a cor que não deveria sangrar, é o sorriso que não deveria transbordar, é o acaso que nunca aconteceu. É aquela carta que você nunca enviou, aquele sonho que você nunca sonhou, aquela porta que você nunca bateu, aquele e-mail que você nunca leu. É quando deveria não sei. Se quando deveria ser. Nós quando deveria eu. E tudo o mais que deixa o estômago assim embrulhado feito nuvem cheia de chuva. Feito católico querendo virar ateu.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

quotidianu


Dentro de seus olhos tristes em que cada segundo persiste e se permite ficar. Esperando o que já nem se sabe se poderá vir, nascer ou voltar. Sentado como um Rei que come e boceja e se masturba. Verá surgir um novo cenário de filme. Verá. Verá uma nova história. Um novo disco. Uma nova música velha ouvida pela primeira vez. Um novo espaço dentro de todo o cerco que o laço fechado desfaz, perspicaz. Desfilará toda a sorte de fotos e filtros e botões de compartilhar. Rasgará essa apostila escrota que te prende dentro do lugar que todos querem sair. Pra mergulhar no mar. E sair. Sair nadando em outro lugar.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Engano

-Alô? 
-Alô, Valente?
- ...não, Bento, quer falar com quem?
-Fala sério, é você Valente!
-Não. Meu nome é Bento.
-Ok...
-Ok.

Desligo o telefone. Mas logo aquela voz grave e feminina, de uma desconhecida, volta a ligar.

-Oi, Alô? Por favor o Valente?
-Já disse que não mora nenhum Valente aqui...
-Sabia que você tem a maior voz de Valente?
- ...
-Sério. Ah...e adorei sua voz. Você pode ficar falando um pouco? 
- ...
- ... Assim, qualquer coisa...só pra eu te ouvir...

Uma hora depois estava parado numa praça próxima esperando aquela ilustre desconhecida pra tomar um chope. Apesar da minha voz grave, não passava de um moleque de vinte e poucos anos excitado pelo encontro às escuras. Quando vi aquele vulto do outro lado da calçada tinha certeza que era ela. Andava meio se arrastando, meio que se controlando para não cair. Mas não parecia uma bêbada ou deficiente, era tudo muito sóbrio e natural. Ao chegar perto de mim, sua pele e algumas rugas denunciavam seus quarenta e poucos. Quanto mais deprimente, mais aquilo consumia a minha curiosidade. Ao beijar meu rosto, dizendo qualquer coisa, atacou minhas narinas com um moderado aroma de cigarro. Sem muito o que dizer, caminhamos para um bar de esquina. Após três diferentes assuntos já entendia completamente o sentido de toda a sua comiseração. Não foi difícil esquematizar aquela equação coroa-recem-separada-querendo-aventura na minha cabeça suja. Sua jaqueta preta, sua maquiagem mal feita, seu cheiro de cigarro e sua voz grave tinham lá qualquer coisa que me excitava. Aquilo tudo cheirava mal como nossos piores segredos. Todos os requisitos para uma grande catástrofe estavam presente naquela mesa: minha perdição, dois chopes mal tirados e um cinzeiro rachado e cheio. Balbuciei uma pergunta em tom de afirmação.

-Vamos fumar um na sua casa.

Ela sorriu e eu levantei a mão para pedir a conta. Fomos andando lentamente por ruas arborizadas e já escuras, encobertas por uma noite úmida e quente. Após alguns quarteirões entramos na sua rua. Era uma vila mal cuidada, sem nenhuma alma viva se esgueirando pelas janelas. Parecia uma cidade cenográfica vazia. Dentro de sua casa, um não comprometedor cheiro de mofo se embolava com o cheiro de seu novo cigarro. Enquanto eu passeava com meus olhos pelo ambiente tentando entender aquilo tudo, ela buscava duas cervejas na geladeira. Um mural de fotos chamou minha atenção. Afora alguns espaços em branco daqueles que deixam um desenho mais claro no formato de um retangulo, ilustrando algo que existiu ali até pouco tempo, todas as outras fotos tinham algo em comum: outra mulher. Uma amiga? Uma flatmate? Irmã talvez? Me abraçando por trás ela ofereceu uma cerveja com uma das mãos. Mesmo percebendo minha curiosidade, nada falou sobre as fotos. Eu não quis perguntar e me sentei numa mesinha pra apertar um cigarro enquanto ela pedia licença e entrava em seu quarto, deixando a porta aberta. Um antigo som rock-farofa-americano invadia a sala vindo de dentro do seu quarto, enquanto o fogo consumia a ponta do baseado. O set list trouxe com ele, ela, estranha e belamente feia dentro de uma camisola preta. Entramos em um consenso: eu, a música, seus lábios secos e a fumaça. Logo estávamos nus e deixamos o cigarro agonizando pela metade no cinzeiro hippie feito de durepox. Apesar de um sexozinho bem meia boca feito por nós, acabou me chamando atenção suas caras e caretas. Parecia fingir de forma quase verdadeira. Resgatei o beck, peguei novas cervejas e iniciamos um daqueles papos pós-foda na cama. Ela então falou sobre as fotos. Era sua ex-mulher. Apesar da cara de quarenta e poucos, tinha trinta e três anos. Só fizera sexo com um homem uma vez, seu primeiro namorado, treze anos atrás. Foi o suficiente para descobrir que não gostava da coisa e logo em seguida, conheceu Malu. Transamos novamente. Acendemos novos cigarros e ela levou seus cabelos sebosos até o banho. A casa agora cheirava a sexo e morte. Era a morte de Malu. E depois de me despedir dela e caminhar na chuva até o Metrô, morria também aquela história. Ao chegar em casa tomei outro banho. Tenho a mania de fazer isso quando volto de cemitérios ou hospitais. Ao deitar para dormir, lentamente retirei o telefone do gancho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sobre fezes, poesia e contas a pagar.

Mais uma música de mentira é escrita e penso em estourar os meus miolos. São todos tão criativos hoje em dia. Ando por ruas onde mendigos recusam comida fresca e gênios nascem em escala industrial. Qualquer um pode ser artista enquanto existir um filtro pra melhorar qualquer merda que sair da nossa bunda. Ninguém sofre mais por amor. Agora escolhe-se um canvas e vomita-se alguma coisa pasteurizada que faz brilhar os olhos de meia dúzia de neo-hippies. Acabaram-se as brigas de bar, ninguém mais bate em mulher, joga prato na parede, lincha alguém na praça. Até os ditadores mais cruéis andam morrendo de velhice. Sem cólera a poesia é moribunda. Sem fel a arte passeia cheirosinha demais e passa vergonha sempre que aparece muito lá em cima do pódio. Salvem as derrotas incomensuráveis. Salvem os pulhas de plantão. Salvem os doentes patológicos que nunca sentaram-se num divã. Salvem os heróis de verdade. Sem dor não existiria literatura. Sem esgoto não nos embebedaríamos com as paixões. Quando vão entender que é preciso parar de escrever, pintar ou se expressar por nada. Cambada de chatos. Há sempre um clássico dando sopa em alguma biblioteca pública imunda. Vá ler, vá se arriscar, vá tomar um banho. Mergulhe na imensidão proletariada que é trabalhar por horas e se espremer num transporte público pra chegar em casa. Compre algo e sofra pra pagar em mil vezes. Busque a beleza na quitação de um carnê. A vida de verdade, meu caro, é muito feia pra bombar no instagram.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Por toda coragem que o medo dá


Escrevo músicas que jamais vou tocar. Continuo começando as mesmas coisas que eu nunca vou terminar. Enquanto bebo outra cerveja, reencontro todas aquelas respostas que já sei que não vão durar. Já desisti das minhas certezas mais profundas por você. E agora que a gente sabe que o mundo muda enquanto a gente muda com ele, ficou mais fácil ser doce. Enquanto outro idiota voa por cima do balcão, eu vejo poesia numa janela quebrada. Eu vejo poesia nas situações mais ridículas. E com a minha barba ensopada de sangue, começo a acordar de todos os meus pesadelos bruscos. Por que nos meus sonhos a vida é sempre esse entra e sai constrangedor? Essa fissura de acender um cigarro quando a gente não conhece ninguém? Eu sei do que sofro. Conheço essa doença. Sei muito bem como é essa vontade de encontrar alguém que nos faça sentir bem, quando a gente quer ficar junto assim, sem fazer nada. Minha sala precisa de uma mesa há tempos. Minha sala precisa de você dormindo no sofá. Minha casa precisa parar de ser o meu corpo aonde quer que eu vá. Porque quando existe um motivo pra voltar, a gente sabe que tudo começou a valer a pena. E quando a gente volta a sentir esse medo, dá uma coragem danada pra levantar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ouro no teto

Não vá se perder por aí entre suas poesias de merda cheias de açúcar. Entre seus lamentos adolescentes cheios de teorias distorcidas pela sua mimadice. Não vá entrar num cinema atirando, mesmo que seja apenas sua risada cheia de cuspe e pipoca a preço de ouro. Não tenha dó de si mesmo. E tenha pena, muita pena de quem ainda lhe dá atenção. Corte esse cabelo que nem homem, faça essa barba e arrume um emprego. Pare de desperdiçar lágrimas com piranhas egoístas. Pare de ficar desesperada por um vestido cujo preço daria pra alimentar refugiados em algum canto do mundo por um século. Tente não sentir tanta vergonha de si mesmo. Corra. Beba uma cerveja decente. Desvie seus caminhos de toda violência gratuita que essa sua personalidade pasteurizada merece tombar. Não vá espalhar por aí toda essa sua comiseração, essa auto-piedade e essa falta do que fazer. Sua bunda vai ficar a salvo se você pelo menos aprender a não se tornar uma presa tão fácil em frente a tevê. Relaxe. Se esse monte de merda que você diz ser sua meta de vida apenas envolve grana, de repente tá na hora de dar um passo pra trás. Num abismo. E cair em si. E desviar dos outros. Não vá se perder por aí cagando regras. Não contamine o caminho e saia da frente. Sai porquê eu passando.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O soco

Um soco. E lábios comprimidos, quase indecisos, contra meia dúzia de dentes submissos, até se romperem. E sangue. Ossos curvados dentro da espuma, em um quase transe de dedos longos fissurados. E suor. Adrenalina encharcando seu queixo de vidro, quebrando-se como porcelana. Prévia do seu corpo caindo em torso nu. Desabando com a leveza sutil, levemente desesperada, de quem flutua de forma quase orquestrada. São séculos até chegar ao chão. Que quase como labuta, delimita seu espaço de forma bruta, o mais distante possível daquele mergulho na cama da mamãe. E feito um prelúdio em som seco, afável e grave, ele explode como uma onda sonora. O bafo quente de ar varre insetos como um bêbado cospe fumaça, coreografando milhões de partículas de poeira. Ao seu redor tudo dança, tudo gira distante da tranqüilidade proporcionada pela lona. Um silêncio do tamanho do mundo se agita. O sangue estica suas mãos e une-se ao chão. Vermelho, ele abraça uma logomarca esquisita, colorindo aquele monótono desfile cinza com sua mancha disforme. Seu coração oco vibra, contrariado, contagiado pelo hemisfério sul daquele soco.

terça-feira, 20 de março de 2012

Notas de um mesmo assunto nº37

Toda minha lógica grita, dizendo pra não chegar mais tão perto assim. Meu saco dói, minha cabeça dói, no meu peito é possível escutar os ecos do seu vazio. Minha pele feita de couro, parece se transformar em plástico vagabundo. Qualquer coisa me corta. Quase tudo me entorta. E vem de você, tudo o que me dobra e me afasta das coisas que mais acredito. Não preciso nem que me coloque em seu bolso pra dizer que tá tudo escuro. Tá tudo vazio, apertado. Minha garganta seca, já não pode mais falar. E se o que pode me salvar é tudo o que tenho a dizer, já não digo. Porque já não sinto. Porque o que sinto é diferente de tudo o que um dia já foi dito. E dentro desse lago gelado nado. Bato forte meus pés e vejo a terra firme cada vez mais distante. E me afogo. Me afogo de várias maneiras. Dentro de um copo, dentro de uma boceta, dentro de mais uma noite cheia de avisos. E vejo a terra firme cada vez mais distante. Só não perdi ainda minha capacidade de sorrir. E sorrindo, vou acreditando nessa agonia de achar que além de nós dois, ninguém mais vai sair daqui imune ao perigo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Infinítu


Ele bebeu e girou e caiu e tombou e andou e dançou e sem querer morrer, a beijou. E viveu e sentiu e brilhou e cheirou e feliz se lançou e abusou de morrer de rir. Mas brigou e chorou e feriu e sangrou e partiu sem deixar uma pista do fim. E bebeu e girou e caiu e tombou e andou e dançou e sem querer morrer, a beijou.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Por tudo aquilo que nos tira o ar


E de repente tudo fez-se novo. Abriu-se um novo começo. Permitiu-se um novo caminho. E foram libertados os medos antigos, os engodos, os velhos dogmas presos ao pé da mesa. Desse movimento foi lançada uma batalha onde a vitória sangrou por um novo olhar. E tudo fez-se amargo. E tudo fez-se inocente. Com o medo jogado fora, fez-se crente quem não via mais luz. E da claridade abriu-se uma nova paleta de cores. Fez-se mistura. E dessa fina fossa veio força. Que como doença contagiosa cutucou todos os nossos braços em um breve respiro. E fez-se o sorriso. De brilho nos olhos, de trigo, de abrigo, de mergulho no rio. E fez-se o mar. E de braços abertos e olhos fechados, corremos. Navegamos. Corremos e choramos e voltamos a ser crianças. E fez-se luz. Foi então que só assim, com a fragilidade do “sim”, pudemos voltar a sentir aquele belo medo. Aquele medo que diz pra perna “anda!”. Que não impede de tentar. Como todo amor que a gente sente pelo que nos faz respirar. Mas principalmente, por tudo aquilo que nos tira o ar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Faisandé

Resolvi te ajudar e lhe dando as mãos, estendi uma chance pra tudo o que me faz melhor. Descobrindo atalhos pra sair da escuridão, caminho firme. Meus ouvidos escutam alto e claro todos os barulhos que meus pés produzem no chão. Descrente de pessimistas e toda a sorte de covardes, artistas sem alma, piadistas. Sinto cheiro de verdade, aquele choque cultural pós túnel, aquele frio na barriga de saudades do meu pai. Me fez bem envelhecer e me faz bem te querer desse jeito novo que descobri que pode ser. Ainda penso em não levantar da cama umas duzentas noites por ano. Mas hoje um banho frio me veste uma armadura que consegue trazer um pouco do humor que preciso pra encarar o dia. Desconfio dos bonzinhos apenas quando não tenho algo melhor pra fazer. Porque perder tempo com quem não consegue ser de verdade nem quando respira? Resolvi te ajudar e te dando as mãos fui mais feliz. Por isso hoje meu arroz e meu feijão são meus livros. Meus vinis são minhas poesias e minha cara lavada pela manhã, é quase o ponto alto do meu dia.

terça-feira, 26 de julho de 2011

For Jade

Cambaleante como as linhas nada simétricas de sua maquiagem borrada, abriu a porta do bar. Trajava uma coleção de motivos pra ser expulsa dali, todos mais ou menos aparentes. O céu nublado em suas narinas contrastava com pupilas dilatadas como dois astros, obstinados em fazer do chão seu mapa para uma última e curta caminhada até o balcão. Enquanto ela pedia uma dose de gim e uma cerveja, eu só conseguia fechar os olhos de todos os meus planos de constituir família, como se eles fossem uma criança impedida de ver algo. E minha tristeza me trouxe beleza e sua voz me trouxe soul e nossas coincidências não fizeram o menor sentido. Dividimos um pouco de pó e logo estávamos numa espécie de mezanino, num bar de apenas um único andar. Lá de cima assistimos a noite virar dia e por ela, juro, não me importaria em perder a noção do tempo. Desenhei com uma faca seu nome em minha mão e, ferido, fiz pouco caso do meu corpo por sua causa. Mas o tempo passa e a morte invade nossa festa como um vizinho pedante. E dessa linha não posso ultrapassar, não dá pra pular como numa área interditada pela polícia. E fico te olhando daqui, baby. Fico olhando tudo o que estão fazendo contigo sem poder fazer nada. Meu anjo se foi e até hoje olho minha mão sã, procurando toda insanidade e todo o sangue daquela noite. Agora meus planos podem enxergar novamente. Talvez até ganhe um bom dinheiro e complete algumas maratonas por ano. Mas sem você ficou sem graça deixar essa cambada de imbecis atônitos toda vez que ultrapasso meus limites.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sete motivos

E se cada passo hoje me enche de alegria, corro. Com essa luz que envolve seus cabelos em nova cor, brilho. Pra cada dúvida, tenho sete certezas, sete lugares pra ir e sete motivos pra te fazer sorrir. Porque ninguém tira isso de nós. Estamos de Ás, largamos a pós e hoje não tem lei seca que tire meu pé desse acelerador. Vem junto, porque sozinho não faz o menor sentido criar esse filme. Revela essas fotos e nos revele por dentro. Deixa eu morar dentro do seu peito por uns dias. Porque o pra sempre é leve pra gente que não tem medo de fazer planos. Vamos adiando nossa derrota ano após ano. Vamos andando. E te beijo com meu olhar de garoto. E me ensino mais uma nova idéia em declínio. Recrio você todos os dias como uma nova mulher. Com todos os seus defeitinhos lindos, seus enredinhos cínicos e manias de circo. Recrio você com todos os meus cacarecos e folhas e livros antigos. Com minhas músicas de acordar e signos e restinhos de trigo nos dedos. Porque se cada passo hoje for um caminho de volta ao nosso ponto de partida, prefiro ir em frente. Não quero o que passou se o que sei que posso ser é melhor. Me dê a mão. Não precisa confiar cegamente em mim porque confio mesmo é em nosso calor. Em tudo isso que a gente sente e se não for loucura, pode ainda acreditar que seja amor.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Já foi

E o que de belo difere o tempo
tudo que escrevi sem anotar
que ficou pro vento
sem baú, sem história
sem documento de memória.
E se fosse isso a arte
se justamente o que não veio
o que não late.
Todos os papéis amassados
sem alarde,
sem prêmio.
Seus fogos de artifício
são os bares, os sorrisos,
os amores e todas as testemunhas,
as criaturas que podem,
que fodem,
que sabem que isso jamais seria escrito.
Porque dito.
Porque vivido.
Não morre,
nem ficará velho nunca,
pois não tem autor.
Têm nós dois,
têm você,
e já foi.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mais amor por favor

Enquanto todos caminham rápido, os passos, com fome, se alimentam do chão sujo. Estão todos buscando suas vidas de volta. Inevitavelmente achando melhor o que já se foi porque foram criados pra pensar assim. Não dá pra descrever o quanto se perde, quando ganha-se tempo sem buscar um novo jeito de errar. Nem quanto se erra ao assistir a vida com olhos de filme, cegos a tudo o que não parece ter final feliz. Enquanto todos dormem e fazem cara feia pro trabalho. Enquanto estão nos escritórios, mas nem ao menos acordam depois de bater o cartão na saída. Cadê aquela sede de amar que implode o peito e nos faz correr sem garantia de pódio? Cadê aquele seu caderno de anotações, visões e respostas pra todos os porquês da fase dos porquês? Enquanto todos se escondem, aparecendo cada vez mais em papéis que não foram feitos pra si. Enquanto recuso esse conforto de achar que cheguei a algum lugar porque, porra, a vida não é um táxi. Enquanto recuso seu valor. E recuso ser feliz. E peço mais um chope. Enquanto isso, mais amor por favor.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quando você passar

Quando você passar por mim vou tirá-la pra dançar, moça. E vou tratá-la bem. Escolherei a dedo os amigos que vou apresentá-la, moça. E vou explicar à eles todos os seus pequenos defeitos bobos, pra ninguém ousar magoar você. Eles vão entender, vão saber o quanto me importo contigo. Quando você chegar vou fazer festa, moça. Vou acender uma vela, colocar um vinil pra tocar e, quem sabe, construir aquele meu mojito cubano. Vou revelar nossas fotos e criar um monte de albuns coloridos com nossos melhores momentos, moça. Vamos trocar a minha cortina da sala e manter a tampa da privada abaixada. Quando você acordar seu nariz vai despertar com o cheiro do meu café forte. E vou comê-la como se você jamais tivesse tido tanta sorte. Nossas discussões, breves, vão ser intensas como devem ser as brigas de quem se ama. E os nossos sonhos, altos, vão ser impossíveis como cada utopia de quem sempre prefere ir além. Porque quando você acordar, moça, vai saber que eu não existo. Vai saber que sou humano e minha merda fede e no meu peito, tem um coração quente. E vai saber que minha pele rabiscada é pura obra de arte. Pelo menos pra mim, moça. Pois pelo menos assim a gente vai perceber que quando você passar por mim, não vou fazer mais nada. E como anjo que sou, não existo, sou incolor, não tenho mais cheiro. Nem vou estar mais ali, como deveria, pra trocar segredos com seus ouvidos enquanto danço contigo, sorrindo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Saudade


Quando me faltam motivos é que me invade toda certeza de quanto ainda preciso de você. Vejo toda essa chuva, toda essa morte, todo esse estrago, essa falta de sorte, esse enfado, todo esse nosso desatino dormindo em quartos separados. Se tudo aquilo que construímos desabou, ainda temos nossa derrota como trunfo, pois dela, já não podemos passar do fundo. E esse pessimismo vira como o tempo, na frente de nós. Quem sabe não é uma nova chance de resgatar o que um dia já pudemos chamar, pasmem, de amor.
Entro dentro de outras mulheres úmidas, louco, e não vejo nada, apenas sinto você. Gozo em você, gargalho e sorrio pra você e quando meu pau, brincalhão, resolve se omitir, é fato, tudo isso é por causa de você. Sua cintura é meu caminho de volta ao mundo, em lugares com meu nome, que inventei pra te levar pra passear.
A gente sabe que todos os outros foram uns babacas, figurantes, uns otários de porte, que jamais compreenderiam essa sensibilidade com cheiro, meu norte, que mora em seu olhar. Em olhos, seus olhos, meus melhores amigos, meus únicos amigos. Incansáveis, eles sentem minha falta e sofrem. Fazem você andar por aí cabisbaixa, moribunda, sem vida, sem combinar com seus falsos sorrisos, seus falsos beijos e seus falsos arrepios de desejo. Porque tudo isso agora é mentira. Porque depois de mim é puro blefe. Você sabe disso. E a cada madrugada se toca e pensa em mim olhando pro teto do quarto ou pro teto do céu, negro, feito de estrelas que não conseguem fazê-la dormir como meu corpo quente e calmo faria.
Quando me faltam certezas é que me invadem os melhores motivos pra escrever minhas palavras mais bonitas. Porque não quero mais estar errado quando sei que tudo o que mais preciso é de você ao meu lado, agora, me devorando, com seu corpo submisso, abdicando do seu chão. Sou tolo. Tão tolo. E meus gritos e minhas flores e minha poesia vão andando por aí em mãos erradas. E meus pés, sem chão, já não querem correr. E pra morrer, já basta meu peito que inventou meus pecados. E pra morrer, ao te ver, tão linda, já bastam todos esses nossos sambas que se bastam.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Vendi sua Kombi por uns litros de uísque

Ela tinha uma Kombi, um violão e muita vontade de viajar por aí. Ela tinha uma linda voz, um céu azul sem nuvens em seu peito e duas belas coxas que acabavam com todas as nossas discussões. Eu tinha um dente de ouro, alguns fios brancos e todas as minhas derrotas escancaradas na língua. Uma vez um troglodita me acertou na saída de um bar. Foi um baita golpe de barra de ferro na cara. Ela cuidou de tudo. Fiquei inchado, bem feio depois do bisturi, depois de colocar todo aquele titânio na fuça. Ela molhava uma toalha branca num pote com água gelada e ficava massageando as maçãs do meu rosto como uma diva. Ficávamos ouvindo Jerry LaCroix a tarde inteira. Depois ela chupava meu pau com sua fúria doce e molhada e me pedia uns tapas na cara. Vendi sua Kombi por uns litros de uísque do bom pra um carinha da praia. Soube que ele fez um rolo com um artista plástico e hoje a máquina tá quase irreconhecível, sem rodas, cheia de desenhos num desses picos meio new hippies. Nunca confiei muito em hippies. Tenho vontade de socá-los com esse papinho infanto-pederasta. Pior que os hippies, apenas os poetas. Uma vez sonhei que tinha que escolher entre deixar que matassem um ou fazê-lo servir gelo em meu uísque para sempre. Até hoje chamo o desgraçado pelo nome quando estou muito bêbado e meu copo está vazio. Malditas lembranças. Como quando ela dirigia a Kombi enquanto eu dormia de bruços, quase em coma, na parte de trás. A gostosa fazia questão de acelerar nos quebra molas. Pelo menos hoje, quando penso nisso, acho que ela gostaria de ver sua caranga longe de mim. Não queria aquele carro em minhas mãos, atropelando bichos de canto de estrada. O que eu podia fazer se os danados me procuravam? Deviam ser uns animais com tendências suicidas. Deviam passar o Natal sozinhos em algum bar, ouvindo blues, enquanto famílias felizes jantavam nas mesas ao lado. Com seus barulhos de risadas e talheres e crianças correndo. Como os sons dessa minha maldita depressão. Que fica me abraçando, acariciando meus pensamentos, aguando meu uísque. Ainda consigo lembrar dos seus seios e as vezes isso realmente anima o meu dia. Mas é verão e meu suor me deixa macambúzio, nostálgico. É tão quente aí fora e no meu peito esse buraco imenso deixa tudo tão frio. Ela tinha uma Kombi, um violão e muita vontade de viajar por aí. E sempre leva embora, desgraçada, minha alma, toda vez que penso nela entrando na frente daquele rifle.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Enquanto não estamos nus


Tira logo essa roupa pra gente ficar séculos dentro desse quarto. Você sabe bem que depois vamos parar em algum canto arriscado do país, em alguma praça, só pra dar chance ao flagra em pleno surto. Olha pro espelho, olha pra mim, me dá sua calcinha. Olha o que a gente já aprontou só por essa noite. Seu corpo é a coisa mais importante da minha vida, até a gente gozar. Nossas fotos, nossos livros, nossos vídeos comprometedores, tudo deveria ser cuidadosamente envelopado e deixado no capacho de algum museu fodón metido a besta. Você topa? Vamos entronizar todo esse nosso talento (??) sob os lençóis aos cadernos de história. Criar uma nova seita que dure apenas uma única sexta. Encher a casa de mamíferos. Compartilhar manifestos ridículos como afirmar que desajustados de merda com suas carreiras brilhantes e seus terminhos em inglês deveriam deixar seus celulares caríssimos despencar no fundo de vasos sanitários todo final de semana. Ou que todos os branquelos com narrativa de comerciais de varejo na tevê por lei tivessem que tatuar alguma-coisa-vírgula-99 na bunda. Quem os levaria a sério? Quem nos levaria a sério? Quem se leva a sério? Monte esse quebra cabeça com peças como o meu nariz que, de tão branco, respira aliviado. É momento de ser franco. Pare de gritar. Porque enquanto seu choque é apaziguante, meu discurso segue eficientemente anafilático. Ignoro qualquer uma das metáforas bordadas ou coloridas ou pacifistas e trocaria todas as últimas frases desse tipo de discurso utópico por uma cerveja gelada. Tô com paciência pra regionalismos não. Você tá cansada de saber que as meninas malvadas são como anjos pra mim. Sacras. Meu porto seguro é saber que terei sempre uma manhã inteira pela frente pra acabar com a minha vida e o resto da minha biografia pra te fazer o bem. Quero um sítio onde o cheiro de chuva me ligue e o gelo jamais ouse acabar. Quero me livrar desse bando de verdades particulares que parecem ter vindo de um caderno sem linhas. Vem. Deixa eu embrulhar sua boceta para presente com a minha língua e, quem sabe, te explicar um pouco sobre o amor enquanto não estamos nus.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O casamento

Casamento marcado, festa paga, convites entregues, tensão e nervosismo. Na véspera Rogério falava pelos cantos para quem quisesse ouvir, em tom de confidência pública, que a cerimônia reservaria uma grande surpresa. Falava e sorria com seu olhar claudicante. O emaranhado de tias suadas vacilava entre fofocas e otimismo desenfreado. Casar é como um batismo onde uma nova vida apaga seus pecados e transforma um menino, num homem e uma menina, numa respeitada senhora. Casar é um corredor da morte disfarçado de inebriante caminho dos sonhos. Casar é o maior ato revolucionário que alguém pode se autocometer.
Sob as veias inchadas de um retumbante sol nordestino em plena primavera, os convidados seguiam seus destinos de testemunha. Amaciavam suas bundas chatas em madeira nobre, numa simpática igreja católica degustada pelas intempéries desse senhor canalha chamado tempo. Senhoras gordas com seus braços de merendeira seguravam terços e lenços, apoiando-se sobre os bancos da frente. Uma quantidade avassaladora de pele e gordura pendia por baixo de seus ossos e balançava num ritmo próprio e frenético. Senhores com antitranspirantes vencidos e olhares de lobo, observavam pedófilicamente curvas de sobrinhas de pouca idade que corriam como gazelas, além de ancas de balzaquianas que, ano após ano, confirmavam seus desígnios de titias.
Foi apenas o padre terminar seu protocolo para o noivo retirar o trabuco de dentro de seu paletó. O calor estapafúrdio, o ineditismo daquela cena, o olhar incrédulo do chefe e padrinho do casamento de Rogério, a doce e calma certeza de que tudo terminaria ali da noiva. Tudo foi cenário. Tudo foi lampejo. Tudo foi pouco, muito pouco pra conter a fúria daquele homem em desonra que, sem vacilar, lascou chumbo no próprio chefe, em sua agora mulher e em sua própria têmpora. Os três caíram inertes ali mesmo. O corno ainda resistiria até o dia seguinte, indo ter com o diabo somente no hospital. Seu casamento não teve chuva de arroz. Não deu nem tempo de beijar a mulher que, impassível, morreu sorrindo deitada no chão e assim ficou até a perícia chegar, observada pela imagem de um santo. Seu sonho sempre fora casar-se na igreja. Ao seu lado, o marido e seu chefe, sua grande paixão, jaziam com ela. Seus fluídos uniam-se numa grande poça de sangue que, lentamente misturada, era quase um deboche a tudo que nunca poderia ter ficado junto.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Aclive


Dançou em si,
feito valsa só,
que de lá sorri.
Parei pra ver enfim,
seu colo marfim,
seu desejo de querer
ser em mim.
Pronto,
somos todos pranto,
pontos.
Correndo e querendo
mais velocidade.
Mais alarde.
Mais partes
que sejam assim.
Que pulsem vida,
que liguem o foda-se
e salvem meu dia
como você,
tão tola,
sabe direitinho
como fazer.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Poema rouco

Tô aqui livre
com tudo que ser livre
quer dizer.
Tô aqui solto
e Santo
como sei que posso
ser.
Tudo que nem sempre
pode ser visto de perto
é tudo o que preciso
fazer.
São mais claras
as idéias raras,
as pessoas que de cara
são tão fodidas como antes
ninguém parecia
ser.
Assim posso
sentir meu trajeto
mais real,
sem essa
falsa espiral
que me afogava em vergonha
por ser tão louco
quanto pareço
ser.
Minhas idéias
valem muito mais
do que você pode
pagar.
Sua angústia é saber
que sou uma doce bomba
prestes a explodir esse seu mundo
cheio de paz e ordem.
Quem te ensinou a ser assim
não te ensinou a ser são.
Quem nos ensinou isso?
Pode chorar,
porque faz parte
da minha loucura
comemorar
minhas derrotas
como as maiores vitórias
desse mundo.
Cheira um pouco
de mim,
mas não suga
meu pescoço.
Essas cervejas geladas,
já sabem bem,
no mangue,
são tudo o que se pode querer
antes do almoço.
Se ainda te quero
bem.

domingo, 7 de novembro de 2010

Nós

Minhas palavras saindo feito vento pra dentro de seus ouvidos. Sorrisos. Éramos nós, sós, no meio de milhares de pessoas banais. Ninguém mais faria sentido, ninguém ousaria nos atrapalhar, ninguém poderia. Seu rosto secando meu suor, encostando-se em mim de um jeito tão suave. Minha conexão, meu presente tão presente, tão vivo, tudo fazendo tanto sentido. E a música alta trazendo sua boca até meus ouvidos de bandeja, meus sentidos todos vestidos em sua alma, tirando sua roupa, deixando-a nua. Éramos nós, sós, no meio de milhares de pessoas banais. Sua emoção trazendo nosso futuro pra perto, abraçando aquela espécie de brincadeira, respondendo ironicamente todas as minhas expectativas. Sua pele morena tranquila, agindo como a moldura perfeita para seus dois olhos elétricos, cheios de sede e intenso brilho d’água. Olhos de saias que dançavam enquanto minha boca falava, falava e falava, tentando não beijá-la. Pelo menos agora, não agora. Porque àquela hora, tão nova, consumia-me de motivos para ouvir sua voz. Porque logo mais estaríamos a sós. E pela primeira vez seríamos nós, enfim, no meio de milhares de sonhos a mais.

domingo, 24 de outubro de 2010

Duas frases num esparadrapo preso no espelho

Libertário ou indecente? Libertário ou indecente? Minha cabeça insiste em pensar sozinha, engasgada, enquanto meus olhos vidram o chão que treme em movimento. Estou meio adormecido, numa cadeira de rodas, com um esparadrapo no antebraço que delata a recente volta de um coma alcoólico e tento em vão, classificar meus originais enquanto um enfermeiro guia aquele veículo tosco de metal pra fora da festa de uma gravadora. Não consigo ficar de pé. Apago novamente.
. . .
Acordo com alguém batendo na porta. Já é dia. Estou num sofá, sem camisa e com a parte superior da calça jeans úmida. Não sinto cheiro de urina. Relembro flashes de uma bolsa de gelo sendo aplicada na região da minha barriga. Encontro uma luva cirúrgica dentro da minha cueca. Isso não pode ser coisa boa. Murmuro um palavrão e a escondo no bolso. Mais batidas na porta. Uma linda garota com maquiagem borrada surge coçando os olhos e me puxa pro quarto. Eu apago mais uma vez.
. . .
Desperto com uma voz grave, rouca e feminina, saindo por uma fresta da porta. Acho que estou sonhando. Sinto frio. Puxo um lençol amarrotado no pé da cama e cubro metade do meu corpo. A voz continua a vir da porta. Tento fazer aquele barulho parar com o poder da mente. Sou ridículo. Não consigo. Puxo o lençol até o pescoço pra não assustar quem quer que seja com minhas tatuagens. É a faxineira. Deve trabalhar pro meu anjo da guarda. A senhora pergunta se eu estou morto e diz que o quarto está fedendo. Digo que estou vivo e peço pra ela me deixar ali. Escuto algo incompreensível e ela vai embora do apartamento. Volto a dormir.
. . .
Acordo com beijos em minhas pálpebras. Reconheço o disco de Claudia Dorei tocando suave, vindo da sala. Meu corpo dói. Ela beija minhas orelhas, meu pescoço e começa a dar mordidas em meu peito. Meu Deus, um homem deveria ser acordado assim todos os dias. Ela deixa um copo de Club Soda no criado mudo e vai andando pra porta. Some. Olho a marca de agulha em meu braço. É indecente. Alcanço uma caneta e escrevo duas frases no esparadrapo que acabei de arrancar do meu corpo. Aproveito sua cola pra prendê-lo num espelho, tiro minha calça e lembro-me de alguém que preciso esquecer urgente. Enquanto dou um gole faminto no copo gelado, minhas urgências continuam querendo me sabotar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Degustação

Acordei com frio. Corpo tenso, dentro da geladeira, num copo de uísque vazio. “Meu Deus, como vim parar aqui?”. Tentei não entrar em desespero. Desci pro andar de baixo, outra prateleira, até conseguir alcançar a porta. Fiquei por quase duas horas ali, enrolado num pedaço de plástico de embalagem de pão, tentando me aquecer. Alternava momentos sonolentos e certa vertigem, torcia pra tudo não passar de um sonho. De repente um estampido. Uma luz branca atingiu-me como uma bomba. Mesmo com pálpebras fechadas jamais sentira algo igual. Uma tentativa frustrada de avistar algo cegou-me completamente. Senti-me indefeso, vulnerável, pulei e corri trôpego como um rato bêbado por entre as pernas de um insone ladrão de geladeira, o salvador de minha existência. Reconheci a sala do meu próprio apartamento. Duas mulheres gigantes dormiam nuas como anjos enroscados no sofá. Pelo chão cheio de revistas espalhadas, uma mancha gigantesca de vinho desenhava-se como uma lagoa. Sua fonte era uma taça caída, virada em cima de um jornal. Abaixei-me com sede como quem bebe num espelho d'agua e logo estava entorpecido. Deitado e misturado, mexia e brincava infantilmente com meus pés e braços dentro daquela piscina rasa etílica. Masturbei-me fitando o par de bundas imóveis. Eram grandiosas e perfeitas, voluptuosas, do tamanho de um prédio de quatro andares. Sequei meu corpo roxo num pedaço de guardanapo sujo e continuei andando pelo apê. Ao chegar a meu quarto estranhei minha própria versão em grande escala dormindo, só e de cuecas. O ambiente carregava a mistura de um cheiro enjoado e agridoce de álcool, cigarros e suor, que inundava meu pequeno nariz. Fiquei olhando aquele corpo grotesco, confuso, tentando entender tudo aquilo, tentando entender como poderia ter ido parar na geladeira dentro de um copo vazio. Pela primeira vez senti medo, uma espécie de solidão e algum calafrio. Imaginava como agir se topasse com algum inseto. Tentei fazer algumas flexões, cantei desafinado, corri de um lado pro outro e mijei no canto da cama, pra matar o tempo. De repente meu eu gigante acordou, coçou os olhos, esticou as mãos como quem se espreguiça e sem piscar, veio diretamente em minha busca. Paralizado, apenas assisti. Meus dedos gigantes seguravam-me com cuidado, levantaram-me até a altura dos meus olhos e logo um som ensurdecedor tentou dizer algo sem sucesso. Era uma pressão sonora densa, tão alta como graves estourando as caixas de um soundsystem jamaicano. Gritei, tentei conversar, mas nada adiantou, minha voz provavelmente valia menos que os decibéis de um zunido de mosquito. De carona na palma de minha própria mão fui levado até a sala e depositado com cuidado dentro da taça de vinho vazia que estava largada pelo chão. Observei enquanto meu Big-me acordava as duas moças com cuidado, beijo nas testas, gesticulando e apontando pra mim. Lá estava eu como uma atração freak de circo: nu, do tamanho de um cigarro, vulnerável e preso numa vitrine. As duas gostosas sorriam enquanto andavam lentamente em minha direção. Meu corpo arrepiava-se. Pensei em alertá-las sobre a minha porra no chão da sala, mas desisti. Olharam-me como duas gatas fitam um peixe dando sopa. Confabularam por instantes e com um ar sexy e malicioso, abraçaram com seus dedos finos uma garrafa ao meu lado, apontando seu gargalo pra mim. Era uma sensação indescritível tomar uma ducha de Rivalta, que despejado, lambia meu corpo até o nível do vinho ultrapassar minha cabeça. Poderia partir assim, pensei, num mar tinto, sob o poder de duas lindas mulheres nuas. Todos os meus dias de sofrimento, minhas desilusões, empregos de merda, desamores, originais rejeitados, derrotas...tudo isso teria valido mais a pena. De repente a taça começou a rodar. Estava realmente feliz. Em instantes seria degustado por uma puta sem nome, ávida por sentir o gosto do meu corpo em sua língua feminina.

sábado, 2 de outubro de 2010

Mulheres que escrevem

Elas têm uma segurança que ameaça. Uma inteligência que intimida. Geralmente sabem se vestir muito bem de um jeito que não acompanha a moda cafona das vitrines. Esse alvoroço não combina com elas. Confesso que todas mexem comigo. Sinto-me indefeso, meio deslumbrado, acho que vou ser desmascarado a qualquer minuto. Minhas convicções em sentir-me uma farsa são baseadas integralmente nelas. As danadas me emocionam. Esse lado quase negro da vida surge como um segredo entre nós. Não acreditamos no mundinho perfeito, nas famílias da TV com casais de filhos e suas medalhas de judô. A gente até quer acreditar nisso (elas um pouco mais). A gente até pode acabar assim. Mas é mais divertido e lógico esse nosso costume de enxergar a beleza da vida sem filtros. A gente curte essa escrotidão. Mesmo porque achamos o belo em si realisticamente encantador. Os desvios de caráter, as atitudes intempestivas ou movidas pela pressão, as maldições do amor, a marginalidade intelectual. Tudo isso é real, é visceral, é dia a dia, e em alguns casos, pasmem, até status quo. Acredito nesse clichê bunda-mole que prega não existir personagens de papel único por aí. Seria tedioso demais. É de uma inocência grotesca achar que as pessoas podem fazer parte de algum script. Por isso em nosso sangue corre essa coragem besta que nos afasta do medo. Por isso elas me conquistam como um manifesto mal escrito, como jovens seios duros, como dezenas de primeiros discos, como um corpo nu nos segundos que precedem um esporro. Prefiro as sarcásticas, as despudoradas, as loucas, as de passado duvidoso. Prefiro as putas, as neuróticas, as mimadas, as que já não têm esperança. São somente elas que podem me divertir enquanto sigo deixando claro pro mundo o quanto posso fazê-lo sorrir. São elas que me deixam de pau duro, cabelos arrepiados e mudos, com a boca seca de tanto querer. Elas são toda essa lama viva que invade minha cabeça quando busco alguma compreensão. Elas são a mãe que nunca tive e a família perfeita que o mundo inteiro jamais vai ter. São minha fonte, meu desejo, toda essa nossa vontade de foder. São elas, malditas, as mulheres que escrevem. Responsáveis pelo pouco sentido que os bares têm, em motivar conversas ridículas, aos doces momentos que, pródigos, podem bicar pra longe o infame medo de errar. Nosso hábito de discordar em conluio me liberta. E elas seguem tolerando minha farsa por acreditar que todos os meus eu te amo etílicos, nasceram sonhando em ser ditos no altar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sem título II

Vem chegando a manhã em que vamos pagar todos os nossos pecados. Doando brinquedos, rasgando trapos em pensamentos vazios e sem direção. Foi anunciada sua derrota e o poder vai trocar finalmente de mãos. E ele está comigo, nos balcões de bar, nos poetas magros, nos andrógenos e bizarros. Agora é hora de rasgar todas as suas telas presunçosas com paisagens perfeitas, cuspir em quem anda dizendo por aí que a arte é uma grife, como tudo que leva assinatura fácil. Dá pra escutar seus gritos, seus pedidos de perdão e clemência. Mas eles vêm vindo. Eles estão determinados. São como caçadores, justiceiros, mercenários. Em nada absurda ternura carregam flores, palavras de amor, garrafas de vodka, bandeiras sem brasão e induzem quem passa ao ópio que vai inverter suas formas de pensar. Os de alma pequena, os embustes, as prostitutas intelectuais, os calhamaços falastrões, aqueles que sabem que sua farsa será descoberta. Todos estes choram, correm pros seus ursos de pelúcia, pra sua infância perfeita, pra suas lembranças da Disney. Agora não temos mais tempo pra temer as rédeas. Elas simplesmente não existem mais. Não, não fuja. Não seja ridículo, sua depressão faz parte dessa história. Seu trunfo pode ser justamente saber que também pode estar errado. Seu trunfo é rir de toda essa sua insegurança patológica, de todos esses seus remédios incríveis. Suas partes mais sujas foram abençoadas e transformaram seu mundo injusto em realidade divina. Você está livre, não tenha pena de si, ninguém vai te odiar nem cobrar nada. Mas ninguém o perdoará se continuar agindo como um peão sem direção aparente. Pode sorrir, eles estão por vir. Será fácil reconhecê-los. E suas mãos estarão sempre extendidas a quem nunca entendeu muito bem como ainda se pode cair na armadilha de preferir uma vida medíocre.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

De mãos dadas ninguém pensa em morrer

Você enche meu copo e a gente descobre um jeito de ficar assim, sem fazer nada, mais tempo juntos. Sábado passa a ser nosso dia oficial de mandar o mundo inteiro tomar no cu. Um pouco de pó transforma seu desfile de calcinhas novas no evento mais importante de todos os tempos. A gente vai se matando aos poucos, sem glamour, mas sabe que morrer é apenas uma bela certeza que nos dá ainda mais vontade de fazer amor. Então a gente brinca com nossos corpos como dois adolescentes de trinta e troca nossa estrada asfaltada por um pouco mais de graça. Não é seguro, mas a noite passa e vira sol. Domingo é dia de caminhada, suco de frutas da praça, boca cheia, saúde e aquela deprê que não me larga. Nossas desgraças são absolvidas a cada nova boa notícia, a cada novo amigo de fé que se casa, faz um filho e feliz, fica menos babaca. Seu sorriso é raio de um brilho esguio que se espelha, se encaixa em nossa festa, disfarça em meu peito o que resta de nós, que só passa a ter graça em você. Parei de contar meu tempo livre desde tua ligação crua, voz madrugada nua, me chamando pra te assistir escrever. Seguimos brincando como dois são um, em caça níqueis, cheios de erros infalíveis. De saídas à francesa. Cheios de todo esse povo chato posto à mesa, que aponta demais porque não pode entender. Não quer perceber. Se já não temos rumo, abandonamos nossos planos, assuntos, andando por aí. E se a gente fica junto, é porque de mãos dadas ninguém pensa em morrer.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De tudo

De tudo o que foi feito

só pra mim,

você passou e resisti.

Ficou o gosto, seu corpo

todo se escreveu

de novo em mim.

Estendeu-se em novo

um abraço,

um novo jeito meu

meio nosso jeito de criar

um velho jeito de lembrar

de tudo.

Se o que foi feito já acabou

fica assim

fica bem

vá andando

tô te olhando

não vou deixar você cair.

De tudo o que prometo

sei menos hoje

sou menos hoje

sei mais de mim.

Assim disfarço em riso.

Sorrindo

de todo grande defeito.

Se de todo jeito

de tudo o que foi feito

o que se fez

bem feito,

ficou.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Noites tropicais

Ficava sentada em cima da mesa da cozinha, pernas cruzadas, cigarro na boca e queixo quase apontando pro teto. Aquele seu mesmo jeito estranho e sexy de me desafiar. Queria porque queria tatuar logo a perna direita, adorava aqueles desenhos old school. Mas mal tinha terminado de cicatrizar o último, já reclamava sem parar daquele peso assimétrico atrás de si. Sua boca dançava entre palavras vulgares, entre fortes e densas baforadas pra baixo. Concentrava-me no barulho alto da geladeira ligada. Funcionava como um mantra. Com a temperatura quente e úmida, tornava-me burro, lento e defensivo. Era como vertigem sua voz misturada ao zunido do motor, fumaça, luzes fortes refletidas desenhando um rastro pelo azulejo e cerâmica. Apesar de rara, acidentalmente surgia uma brisa, circulando por entre nossos corpos como um espírito amigo refrescando alguns instantes de pensamentos vazios. Ficava ali deitado no chão com pena do mundo, no mesmo lugar de sempre, estupidamente distraído. Solenemente despreocupado com sua voz aguda após a quinta ou sexta palavra mais alta. Deixava a doida ferver como uma panela prestes a explodir, para levantar de repente e, sem avisar, levá-la pelo colo até nossa banheira. Depositava seu corpo escultural e nu em água quase fria, que se comportava como peixe voltando ao rio. Ensaiava protestos em sussurros, em palavrões, antes de refugar, trôpega e sem relutar, seguir minhas ordens como uma cadelinha. Meus passos molhados riscavam um mapa de volta à cozinha. Agora sozinho preparava como um rei sob um chão de tabuleiro outra dose generosa de uísque com bastante gelo. Não precisaria nem tornar a pisar no tapete surrado do banheiro para prever o futuro. O castanho dos meus olhos veria suas mãos em sexo, seu rosto perdido e suas pernas balançando em gotas, como um convite de dedo indicador. Hora de jogar minhas roupas longe e reescrever outra noite como se fosse a última vez que faríamos amor.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Interlúdio

O sol na cara cria um filtro meio Grains de beauté nos primeiros segundos do dia. Seu sorriso sincero afasta as nuvens do corredor. Afasta o mal. Afasta a dor. Passo a reconhecer os feirantes. Dou bom dia com os olhos, caminhando por um asfalto cheio de aromas. Já não brigo mais com meu despertador. De repente você me traz essa vontade de cuidar da minha saúde. Absurdo. Acho graça dos tapas que recebo na pele rabiscada. Acho graça da nossa vida. Nos meus braços, sem espaço, a tinta fica mais forte. Minha cor torna-se rubra e invade meu branco de sangue. Minha língua invade e traduz-se dentro de seu corpo. Ela fala sozinha. Você geme. O tempo corre lento: anda zombando da gente. E me pego falando sozinho. Desenhando corpos nus. Eles correm, tatuados, debochados. Sigo escrevendo. Protestando. Deixando meus livros caídos pelo quarto. Deixando a janela aberta. Tudo com esse filtro meio Grains de beauté. Tudo com essa música tocando pela milésima vez. Respiro forte. Fica fácil fazer poesia assim, com sua perna em cima da minha, louça suja na pia e aquele quadro triste e inacabado, pedindo atenção no outro canto do nosso quarto.