segunda-feira, 3 de junho de 2013
Fabulário sobre nuvem preta
segunda-feira, 27 de maio de 2013
quotidianu
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Engano
-Alô, Valente?
- ...não, Bento, quer falar com quem?
-Fala sério, é você Valente!
-Não. Meu nome é Bento.
-Ok...
-Ok.
Desligo o telefone. Mas logo aquela voz grave e feminina, de uma desconhecida, volta a ligar.
-Oi, Alô? Por favor o Valente?
-Já disse que não mora nenhum Valente aqui...
-Sabia que você tem a maior voz de Valente?
- ...
-Sério. Ah...e adorei sua voz. Você pode ficar falando um pouco?
- ...
- ... Assim, qualquer coisa...só pra eu te ouvir...
Uma hora depois estava parado numa praça próxima esperando aquela ilustre desconhecida pra tomar um chope. Apesar da minha voz grave, não passava de um moleque de vinte e poucos anos excitado pelo encontro às escuras. Quando vi aquele vulto do outro lado da calçada tinha certeza que era ela. Andava meio se arrastando, meio que se controlando para não cair. Mas não parecia uma bêbada ou deficiente, era tudo muito sóbrio e natural. Ao chegar perto de mim, sua pele e algumas rugas denunciavam seus quarenta e poucos. Quanto mais deprimente, mais aquilo consumia a minha curiosidade. Ao beijar meu rosto, dizendo qualquer coisa, atacou minhas narinas com um moderado aroma de cigarro. Sem muito o que dizer, caminhamos para um bar de esquina. Após três diferentes assuntos já entendia completamente o sentido de toda a sua comiseração. Não foi difícil esquematizar aquela equação coroa-recem-separada-querendo-aventura na minha cabeça suja. Sua jaqueta preta, sua maquiagem mal feita, seu cheiro de cigarro e sua voz grave tinham lá qualquer coisa que me excitava. Aquilo tudo cheirava mal como nossos piores segredos. Todos os requisitos para uma grande catástrofe estavam presente naquela mesa: minha perdição, dois chopes mal tirados e um cinzeiro rachado e cheio. Balbuciei uma pergunta em tom de afirmação.
-Vamos fumar um na sua casa.
Ela sorriu e eu levantei a mão para pedir a conta. Fomos andando lentamente por ruas arborizadas e já escuras, encobertas por uma noite úmida e quente. Após alguns quarteirões entramos na sua rua. Era uma vila mal cuidada, sem nenhuma alma viva se esgueirando pelas janelas. Parecia uma cidade cenográfica vazia. Dentro de sua casa, um não comprometedor cheiro de mofo se embolava com o cheiro de seu novo cigarro. Enquanto eu passeava com meus olhos pelo ambiente tentando entender aquilo tudo, ela buscava duas cervejas na geladeira. Um mural de fotos chamou minha atenção. Afora alguns espaços em branco daqueles que deixam um desenho mais claro no formato de um retangulo, ilustrando algo que existiu ali até pouco tempo, todas as outras fotos tinham algo em comum: outra mulher. Uma amiga? Uma flatmate? Irmã talvez? Me abraçando por trás ela ofereceu uma cerveja com uma das mãos. Mesmo percebendo minha curiosidade, nada falou sobre as fotos. Eu não quis perguntar e me sentei numa mesinha pra apertar um cigarro enquanto ela pedia licença e entrava em seu quarto, deixando a porta aberta. Um antigo som rock-farofa-americano invadia a sala vindo de dentro do seu quarto, enquanto o fogo consumia a ponta do baseado. O set list trouxe com ele, ela, estranha e belamente feia dentro de uma camisola preta. Entramos em um consenso: eu, a música, seus lábios secos e a fumaça. Logo estávamos nus e deixamos o cigarro agonizando pela metade no cinzeiro hippie feito de durepox. Apesar de um sexozinho bem meia boca feito por nós, acabou me chamando atenção suas caras e caretas. Parecia fingir de forma quase verdadeira. Resgatei o beck, peguei novas cervejas e iniciamos um daqueles papos pós-foda na cama. Ela então falou sobre as fotos. Era sua ex-mulher. Apesar da cara de quarenta e poucos, tinha trinta e três anos. Só fizera sexo com um homem uma vez, seu primeiro namorado, treze anos atrás. Foi o suficiente para descobrir que não gostava da coisa e logo em seguida, conheceu Malu. Transamos novamente. Acendemos novos cigarros e ela levou seus cabelos sebosos até o banho. A casa agora cheirava a sexo e morte. Era a morte de Malu. E depois de me despedir dela e caminhar na chuva até o Metrô, morria também aquela história. Ao chegar em casa tomei outro banho. Tenho a mania de fazer isso quando volto de cemitérios ou hospitais. Ao deitar para dormir, lentamente retirei o telefone do gancho.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Sobre fezes, poesia e contas a pagar.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Por toda coragem que o medo dá
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Ouro no teto
sexta-feira, 23 de março de 2012
O soco
terça-feira, 20 de março de 2012
Notas de um mesmo assunto nº37
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Infinítu
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Por tudo aquilo que nos tira o ar
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Faisandé
terça-feira, 26 de julho de 2011
For Jade
terça-feira, 12 de julho de 2011
Sete motivos
terça-feira, 5 de julho de 2011
Já foi
sem prêmio.
as criaturas que podem,
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Mais amor por favor
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Quando você passar
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Saudade
A gente sabe que todos os outros foram uns babacas, figurantes, uns otários de porte, que jamais compreenderiam essa sensibilidade com cheiro, meu norte, que mora em seu olhar. Em olhos, seus olhos, meus melhores amigos, meus únicos amigos. Incansáveis, eles sentem minha falta e sofrem. Fazem você andar por aí cabisbaixa, moribunda, sem vida, sem combinar com seus falsos sorrisos, seus falsos beijos e seus falsos arrepios de desejo. Porque tudo isso agora é mentira. Porque depois de mim é puro blefe. Você sabe disso. E a cada madrugada se toca e pensa em mim olhando pro teto do quarto ou pro teto do céu, negro, feito de estrelas que não conseguem fazê-la dormir como meu corpo quente e calmo faria.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Vendi sua Kombi por uns litros de uísque
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Enquanto não estamos nus
domingo, 19 de dezembro de 2010
O casamento
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Aclive
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Poema rouco
domingo, 7 de novembro de 2010
Nós
domingo, 24 de outubro de 2010
Duas frases num esparadrapo preso no espelho
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Degustação
Acordei com frio. Corpo tenso, dentro da geladeira, num copo de uísque vazio. “Meu Deus, como vim parar aqui?”. Tentei não entrar em desespero. Desci pro andar de baixo, outra prateleira, até conseguir alcançar a porta. Fiquei por quase duas horas ali, enrolado num pedaço de plástico de embalagem de pão, tentando me aquecer. Alternava momentos sonolentos e certa vertigem, torcia pra tudo não passar de um sonho. De repente um estampido. Uma luz branca atingiu-me como uma bomba. Mesmo com pálpebras fechadas jamais sentira algo igual. Uma tentativa frustrada de avistar algo cegou-me completamente. Senti-me indefeso, vulnerável, pulei e corri trôpego como um rato bêbado por entre as pernas de um insone ladrão de geladeira, o salvador de minha existência. Reconheci a sala do meu próprio apartamento. Duas mulheres gigantes dormiam nuas como anjos enroscados no sofá. Pelo chão cheio de revistas espalhadas, uma mancha gigantesca de vinho desenhava-se como uma lagoa. Sua fonte era uma taça caída, virada em cima de um jornal. Abaixei-me com sede como quem bebe num espelho d'agua e logo estava entorpecido. Deitado e misturado, mexia e brincava infantilmente com meus pés e braços dentro daquela piscina rasa etílica. Masturbei-me fitando o par de bundas imóveis. Eram grandiosas e perfeitas, voluptuosas, do tamanho de um prédio de quatro andares. Sequei meu corpo roxo num pedaço de guardanapo sujo e continuei andando pelo apê. Ao chegar a meu quarto estranhei minha própria versão em grande escala dormindo, só e de cuecas. O ambiente carregava a mistura de um cheiro enjoado e agridoce de álcool, cigarros e suor, que inundava meu pequeno nariz. Fiquei olhando aquele corpo grotesco, confuso, tentando entender tudo aquilo, tentando entender como poderia ter ido parar na geladeira dentro de um copo vazio. Pela primeira vez senti medo, uma espécie de solidão e algum calafrio. Imaginava como agir se topasse com algum inseto. Tentei fazer algumas flexões, cantei desafinado, corri de um lado pro outro e mijei no canto da cama, pra matar o tempo. De repente meu eu gigante acordou, coçou os olhos, esticou as mãos como quem se espreguiça e sem piscar, veio diretamente em minha busca. Paralizado, apenas assisti. Meus dedos gigantes seguravam-me com cuidado, levantaram-me até a altura dos meus olhos e logo um som ensurdecedor tentou dizer algo sem sucesso. Era uma pressão sonora densa, tão alta como graves estourando as caixas de um soundsystem jamaicano. Gritei, tentei conversar, mas nada adiantou, minha voz provavelmente valia menos que os decibéis de um zunido de mosquito. De carona na palma de minha própria mão fui levado até a sala e depositado com cuidado dentro da taça de vinho vazia que estava largada pelo chão. Observei enquanto meu Big-me acordava as duas moças com cuidado, beijo nas testas, gesticulando e apontando pra mim. Lá estava eu como uma atração freak de circo: nu, do tamanho de um cigarro, vulnerável e preso numa vitrine. As duas gostosas sorriam enquanto andavam lentamente em minha direção. Meu corpo arrepiava-se. Pensei em alertá-las sobre a minha porra no chão da sala, mas desisti. Olharam-me como duas gatas fitam um peixe dando sopa. Confabularam por instantes e com um ar sexy e malicioso, abraçaram com seus dedos finos uma garrafa ao meu lado, apontando seu gargalo pra mim. Era uma sensação indescritível tomar uma ducha de Rivalta, que despejado, lambia meu corpo até o nível do vinho ultrapassar minha cabeça. Poderia partir assim, pensei, num mar tinto, sob o poder de duas lindas mulheres nuas. Todos os meus dias de sofrimento, minhas desilusões, empregos de merda, desamores, originais rejeitados, derrotas...tudo isso teria valido mais a pena. De repente a taça começou a rodar. Estava realmente feliz. Em instantes seria degustado por uma puta sem nome, ávida por sentir o gosto do meu corpo em sua língua feminina.
sábado, 2 de outubro de 2010
Mulheres que escrevem
Elas têm uma segurança que ameaça. Uma inteligência que intimida. Geralmente sabem se vestir muito bem de um jeito que não acompanha a moda cafona das vitrines. Esse alvoroço não combina com elas. Confesso que todas mexem comigo. Sinto-me indefeso, meio deslumbrado, acho que vou ser desmascarado a qualquer minuto. Minhas convicções em sentir-me uma farsa são baseadas integralmente nelas. As danadas me emocionam. Esse lado quase negro da vida surge como um segredo entre nós. Não acreditamos no mundinho perfeito, nas famílias da TV com casais de filhos e suas medalhas de judô. A gente até quer acreditar nisso (elas um pouco mais). A gente até pode acabar assim. Mas é mais divertido e lógico esse nosso costume de enxergar a beleza da vida sem filtros. A gente curte essa escrotidão. Mesmo porque achamos o belo em si realisticamente encantador. Os desvios de caráter, as atitudes intempestivas ou movidas pela pressão, as maldições do amor, a marginalidade intelectual. Tudo isso é real, é visceral, é dia a dia, e em alguns casos, pasmem, até status quo. Acredito nesse clichê bunda-mole que prega não existir personagens de papel único por aí. Seria tedioso demais. É de uma inocência grotesca achar que as pessoas podem fazer parte de algum script. Por isso em nosso sangue corre essa coragem besta que nos afasta do medo. Por isso elas me conquistam como um manifesto mal escrito, como jovens seios duros, como dezenas de primeiros discos, como um corpo nu nos segundos que precedem um esporro. Prefiro as sarcásticas, as despudoradas, as loucas, as de passado duvidoso. Prefiro as putas, as neuróticas, as mimadas, as que já não têm esperança. São somente elas que podem me divertir enquanto sigo deixando claro pro mundo o quanto posso fazê-lo sorrir. São elas que me deixam de pau duro, cabelos arrepiados e mudos, com a boca seca de tanto querer. Elas são toda essa lama viva que invade minha cabeça quando busco alguma compreensão. Elas são a mãe que nunca tive e a família perfeita que o mundo inteiro jamais vai ter. São minha fonte, meu desejo, toda essa nossa vontade de foder. São elas, malditas, as mulheres que escrevem. Responsáveis pelo pouco sentido que os bares têm, em motivar conversas ridículas, aos doces momentos que, pródigos, podem bicar pra longe o infame medo de errar. Nosso hábito de discordar em conluio me liberta. E elas seguem tolerando minha farsa por acreditar que todos os meus eu te amo etílicos, nasceram sonhando em ser ditos no altar.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Sem título II
Vem chegando a manhã em que vamos pagar todos os nossos pecados. Doando brinquedos, rasgando trapos em pensamentos vazios e sem direção. Foi anunciada sua derrota e o poder vai trocar finalmente de mãos. E ele está comigo, nos balcões de bar, nos poetas magros, nos andrógenos e bizarros. Agora é hora de rasgar todas as suas telas presunçosas com paisagens perfeitas, cuspir em quem anda dizendo por aí que a arte é uma grife, como tudo que leva assinatura fácil. Dá pra escutar seus gritos, seus pedidos de perdão e clemência. Mas eles vêm vindo. Eles estão determinados. São como caçadores, justiceiros, mercenários. Em nada absurda ternura carregam flores, palavras de amor, garrafas de vodka, bandeiras sem brasão e induzem quem passa ao ópio que vai inverter suas formas de pensar. Os de alma pequena, os embustes, as prostitutas intelectuais, os calhamaços falastrões, aqueles que sabem que sua farsa será descoberta. Todos estes choram, correm pros seus ursos de pelúcia, pra sua infância perfeita, pra suas lembranças da Disney. Agora não temos mais tempo pra temer as rédeas. Elas simplesmente não existem mais. Não, não fuja. Não seja ridículo, sua depressão faz parte dessa história. Seu trunfo pode ser justamente saber que também pode estar errado. Seu trunfo é rir de toda essa sua insegurança patológica, de todos esses seus remédios incríveis. Suas partes mais sujas foram abençoadas e transformaram seu mundo injusto em realidade divina. Você está livre, não tenha pena de si, ninguém vai te odiar nem cobrar nada. Mas ninguém o perdoará se continuar agindo como um peão sem direção aparente. Pode sorrir, eles estão por vir. Será fácil reconhecê-los. E suas mãos estarão sempre extendidas a quem nunca entendeu muito bem como ainda se pode cair na armadilha de preferir uma vida medíocre.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
De mãos dadas ninguém pensa em morrer
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
De tudo
De tudo o que foi feito
só pra mim,
você passou e resisti.
Ficou o gosto, seu corpo
todo se escreveu
de novo em mim.
Estendeu-se em novo
um abraço,
um novo jeito meu
meio nosso jeito de criar
um velho jeito de lembrar
de tudo.
Se o que foi feito já acabou
fica assim
fica bem
vá andando
tô te olhando
não vou deixar você cair.
De tudo o que prometo
sei menos hoje
sou menos hoje
sei mais de mim.
Assim disfarço em riso.
Sorrindo
de todo grande defeito.
Se de todo jeito
de tudo o que foi feito
o que se fez
bem feito,
ficou.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Noites tropicais
Ficava sentada em cima da mesa da cozinha, pernas cruzadas, cigarro na boca e queixo quase apontando pro teto. Aquele seu mesmo jeito estranho e sexy de me desafiar. Queria porque queria tatuar logo a perna direita, adorava aqueles desenhos old school. Mas mal tinha terminado de cicatrizar o último, já reclamava sem parar daquele peso assimétrico atrás de si. Sua boca dançava entre palavras vulgares, entre fortes e densas baforadas pra baixo. Concentrava-me no barulho alto da geladeira ligada. Funcionava como um mantra. Com a temperatura quente e úmida, tornava-me burro, lento e defensivo. Era como vertigem sua voz misturada ao zunido do motor, fumaça, luzes fortes refletidas desenhando um rastro pelo azulejo e cerâmica. Apesar de rara, acidentalmente surgia uma brisa, circulando por entre nossos corpos como um espírito amigo refrescando alguns instantes de pensamentos vazios. Ficava ali deitado no chão com pena do mundo, no mesmo lugar de sempre, estupidamente distraído. Solenemente despreocupado com sua voz aguda após a quinta ou sexta palavra mais alta. Deixava a doida ferver como uma panela prestes a explodir, para levantar de repente e, sem avisar, levá-la pelo colo até nossa banheira. Depositava seu corpo escultural e nu em água quase fria, que se comportava como peixe voltando ao rio. Ensaiava protestos em sussurros, em palavrões, antes de refugar, trôpega e sem relutar, seguir minhas ordens como uma cadelinha. Meus passos molhados riscavam um mapa de volta à cozinha. Agora sozinho preparava como um rei sob um chão de tabuleiro outra dose generosa de uísque com bastante gelo. Não precisaria nem tornar a pisar no tapete surrado do banheiro para prever o futuro. O castanho dos meus olhos veria suas mãos em sexo, seu rosto perdido e suas pernas balançando em gotas, como um convite de dedo indicador. Hora de jogar minhas roupas longe e reescrever outra noite como se fosse a última vez que faríamos amor.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Interlúdio
O sol na cara cria um filtro meio Grains de beauté nos primeiros segundos do dia. Seu sorriso sincero afasta as nuvens do corredor. Afasta o mal. Afasta a dor. Passo a reconhecer os feirantes. Dou bom dia com os olhos, caminhando por um asfalto cheio de aromas. Já não brigo mais com meu despertador. De repente você me traz essa vontade de cuidar da minha saúde. Absurdo. Acho graça dos tapas que recebo na pele rabiscada. Acho graça da nossa vida. Nos meus braços, sem espaço, a tinta fica mais forte. Minha cor torna-se rubra e invade meu branco de sangue. Minha língua invade e traduz-se dentro de seu corpo. Ela fala sozinha. Você geme. O tempo corre lento: anda zombando da gente. E me pego falando sozinho. Desenhando corpos nus. Eles correm, tatuados, debochados. Sigo escrevendo. Protestando. Deixando meus livros caídos pelo quarto. Deixando a janela aberta. Tudo com esse filtro meio Grains de beauté. Tudo com essa música tocando pela milésima vez. Respiro forte. Fica fácil fazer poesia assim, com sua perna em cima da minha, louça suja na pia e aquele quadro triste e inacabado, pedindo atenção no outro canto do nosso quarto.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Um catarro na poltrona da sala ou Johnny Rotten crisis parte II
Não deu nem tempo de achar que foi um sonho. Foi só tomar coragem pra sair e jogar o lixo fora que aconteceu. Porta entreaberta, passos de bêbado que não quer acordar a mulher e voilá: meu cuspe sentado na poltrona da sala, impassível. Não sei se o álcool remanescente em meu sangue (ou vice versa) tranquilizou-me, mas agi com uma naturalidade quase blasé. Peguei o caderno de esportes do jornal, sentei no sofá bem a sua frente e dobrei calmamente o calhamaço de folhas em quatro, depois de acender um cigarro. Ameacei começar a ler a matéria sobre o jogo do dia anterior, mas achei demais iniciar um mise-en-scéne tosco. Porra, não dava pra negar a realidade: o caralho do meu catarro estava vivo, na minha frente, sentado na minha sala. O tipo de situação que me fazia repensar meu ateísmo. Queria pelo menos poder fechar os olhos e crer em alguma coisa, sei lá, pedir pra alguém vestido de branco resolver as coisas por mim. Mas não, nem isso. Pelo menos o infeliz viscoso parecia menor do que ontem. Pelo menos ele não falava encostando, mas que diabos, apesar de redundância, o infeliz cuspia. Um perdigoto por vogal. As vezes a cada consoante. Cuspia como um ator em sua primeira fila. Como um cachorro secando seus pêlos. Fazer o que. Já passei por coisas piores. Pelo menos não me pedia dinheiro emprestado. Ficamos conversando até a noite cair. Depois de algumas garrafas de vinho cheguei até a achar o cara legal. Não podia ser diferente. Impossível não cair nessa armadilha. Aquele troço tinha saído de mim. Talvez fosse meu lado punk. Meu lado mais primata, mais inadestrável. Suas palavras eram objetivas, sagazes, de uma personalidade dilacerante. Acordei no meio da madrugada, dentes roxos, mesma roupa de dois dias atrás, o catarro esparramado no corredor. Cheguei a confundi-lo com minha bile, mas o danado respirava: estava dormindo. Abri uma cerveja e me dei conta que tinha furado com Cíntia. No celular, três ligações perdidas. Orgulhosa, jamais ligaria trezentas vezes. Gosto de mulheres assim. Mas ela não gostaria de saber que furei porque fiquei bebâdo conversando com meu próprio catarro. Fazendo a barba com um cuidado adolescente, inventei umas cinco desculpas diferentes pra não ter atendido suas ligações. Mas já sabia: ela não acreditaria em nenhuma delas.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Duas ou três poesias e o vento
E bate a mesma sensação de tempo perdido. Macaco velho, fico dando voltas dentro de minha própria cabeça. Recuperando arquivos. Checando novas possibilidades para buscar algum sentido em todo esse nosso fracasso. Até derramar tudo. Até me sentir vazio. Aí bate a onda. Porque é estranho não me sentir leve desse jeito. Tá foda não admitir que tô feliz. Já não me assusto ao perceber as risadas que andam freqüentando a rádio do meu peito. Não tô mais pagando jabá pra entrar nessa vibe. Bate até uma pena por esquecer você tão rápido, mas esse papo de sofrer por sofrer ficou perdido entre os meus vinte e poucos anos. A boa do dia? Já não quero mais te mandar pro inferno. Porque minhas manhãs agora têm outros cheiros, outros ventos, outros planos. Tô legal de motivos. Deixo você colecionar sozinha todos os que te fizeram sentir raiva de mim. Se já não tenho a menor pretensão de achar que vou fazer falta na sua vida, é porque cansei de abdicar da minha.
. . .
Lindo, ela diz. A preguiça de falar me reduz a um aceno, contraindo meu rosto até formar uma espécie de agradecimento com minhas expressões. Mas acabo sussurrando algo. Digo que ainda o acho meio frágil. Que preciso pedalar um ou outro tom nesse novo texto. Ela caga um balde pra isso e pula em cima de mim. Começamos a nos beijar. Deixo meu caderno deslizar e cair como se naquele momento reduzisse nosso compromisso ao nada. O vento levanta duas ou três poesias inacabadas que, sortudas, testemunham um casal com vontade quase literal de se comer.
sábado, 5 de junho de 2010
Três putinhas e uma Bic
Priscila era a mais porca das três. Só não a expulsava daquele chiqueiro porque a danada tinha uma dicção sensacional. Até hoje me pergunto como uma pessoa que sabe ler tão bem pode ter tido uma vida tão fracassada. Ela vivia em minha cozinha. Dormia por ali mesmo em cima dos restos, migalhas e jornais velhos. De vez em quando adorava sentar ao seu lado e observar a bagunça que as formigas faziam ao seu redor. Quando estava bêbado o bastante de gim ficava ali, rente a seu corpo morto e flácido, vendo a farra dos insetinhos insolentes. Acho que até essas criaturas ridículas tinham nojo dela. Passavam desenhando sua anatomia, como aquelas pinturas policiais de cadáveres no chão. Contornavam a puta, mas não encostavam nela. Jamais encostavam nela. Vivia com minha aposentadoria, mais uma gorda bufunfa recebida por um acidente sofrido numa loja de departamentos. Uma bela quantia acrescida de juros e correção monetária, por causa de uma bola perdida na sessão de caça e pesca. A bola, no caso, era uma de minhas duas mesmo. Tomei um tiro bem no meio do meu caralho. Não exatamente no centro a ponto desse texto ser assinado por um eunuco. Foi mais pra esquerda. Certeiro na minha bola esquerda. O filha da puta engomadinho do meu advogado era ganancioso e sabia das coisas. Me disse que aquele rifle jamais poderia estar carregado. Perdi uma bola, mas meu pau ainda podia levantar. Com o dinheiro que ganhei, pude viver por uns trinta anos tomando minha cerveja barata e comendo os cozidos que Karina preparava. Karina, Karina, a viciadinha. Ficava um porre quando a abstinência batia pesado. Uma vez bateu uma fissura daquelas na pobre coitada, no meio de uma final de campeonato. Lembro de seu corpo pesado, sua expressão como a de um gorila, espumando. Tive que trancá-la dentro de casa e assistir o jogo no boteco da rua. Foi quando conheci e tomei um porre com Laura. Nossa certidão de casamento foi feita em um pedaço do cardápio. Tudo muito romântico. Dali em diante, acabamos formando o que seria uma das famílias mais estranhas do apartamento 401 do 59: eu e minhas três putinhas. Pri, Karina e Laurinha não se importavam em me dividir. E eu não era lá o que se pode chamar de um ótimo partido. Mas deixava as três viverem ali sem pagar o aluguel, fazia vista grossa para as suas escapulidas e contentava-me com o que realmente me fazia feliz: ouvir meus textos lidos em voz alta. Sentia-me melhor que Bandini. Sentia-me vivo. Sentia-me lido. Todo escritor, do mais fajuto carinha que joga uma vergonha alheia num guardanapo e pede pro garçom entregar à uma bela senhorita no outro lado do bar, até o cara que recebe um pomposo cheque pelo adiantamento de um virtual novo best seller. Todo escritor, todos, sem a menor sombra de dúvidas: querem ser lidos. E ser lido em voz alta, meu camarada, não é ter o guardanapo dobrado e colocado no bolso ou um novo livro comprado e jogado na estante. Ser lido em voz alta é ter realmente seu texto saboreado, fodido, esquartejado, cagado, dispersado ou, quando se consegue chegar a mais suprema consagração: ser lido em voz alta para você, que o escreveu. É como o paraíso. O cumprimento de uma missão terrena. Os segundos após você tirar a calcinha da mulher de seus sonhos e que antecedem a melhor foda da sua vida. É mais ou menos isso.
Foi difícil deixar aquele lugar e ter que fugir da polícia depois dos sessenta. Sempre achei que essa idade me traria juízo. Que estaria na Itália criando cabras ou sei lá, com dígitos de sobra no banco, morrendo em alguma espelunca de overdose por misturar ecstasy, pó e remédio pra impotência. Mas encrenquei com um imbecil que deixava bilhetes anônimos por baixo da minha porta, falando mal dos textos que minhas putinhas liam em voz alta. No começo achei até simpático o cara me elogiar em meio a palavrões e xingamentos. Depois encheu o saco. Foi fácil demais achar o desgraçado, devia existir algum tipo de sadismo no cara pro otário deixar tantas pistas sobre como chegar até ele. Fora a ridícula idéia de ter ido pessoalmente deixar os bilhetes um a um debaixo de minha porta. Matei-o com uma caneta Bic no pescoço. Aprendi isso num daqueles filmes horríveis que passam de madrugada. É impressionante o que a televisão pode ensinar pras pessoas hoje em dia.