quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Croix Faubin
Na Croix Faubin, longe de tudo. Bebendo vinho como remédio. Certo de tudo que não quero mais. Salvo pelo jazz na sala. Salvo pela coragem vira-lata que corre em minhas veias. Já nem me importo mais. Se sei que sempre vou estragar tudo no final me concentro no começo de minhas verdades. E tenho grandes começos. Tenho alguns dignos de cadeado na ponte. Dignos de Paris. Dignos de meus melhores textos. Não preciso de ninguém pra colocar meus planos pra baixo porque já me basto. Fica difícil competir com quem se torna o próprio algoz e maior admirador.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Pronto pra morrer de novo
Toda nossa estupidez estava reunida ali. Em cima da mesa um pouco de pó, um cinzeiro lotado, uma Flaunt antiga, copos com bebidas coloridas, papéis rabiscados, minha fisheye e os lindos pés de Emanuelle. Falávamos como se fosse necessário essa exposição, como se fosse necessário retirar nossos intestinos cheios de merda e esticá-los como a rede da sala. Um protocolo era praticamente seguido por cada um: 1) uma história triste 2) uma aventura sexual 3) um desastre familiar 4) um plano alternativo. Pra onde corria nosso sangue morno e químico, após dar com a fuça no final de nossas extremidades, veias, pele, limites? Esta continuidade obssessiva nos levaria a algum lugar?
Alheia a tudo, alheia a sua vida, distraída de nascimento, Marie propôs um brinde. Me recusei e fui fumar um cigarro na cozinha. Chiara me beijou assim, sem motivo, com sua boca exalando novidade. Da pequena janela ao lado de um quadro espelhado antigo, rachado e cheio de rococós, pudemos assistir toda a bela covardia laranjoroseada do sol saindo de cena pelos fundos de um apartamento virado pra uma rua triste. Depois era domingo, depois seria terça e seria quarta e seria a chuva que traria nossa consagrada tristeza ao cair de um novo dia. Depois tudo ficaria a sorte do tédio e de nossa vontade contínua de deitar no colo de nossos pais. Mas quem nasceu com pés tão perfeitos como Emanuelle, com a distração tão inocente de Marie ou com a leveza de fazer qualquer chuva parar, como Chiara, jamais poderia chorar seus desesperos por assisistir o tempo passar tão rápido. Nossa estupidez estava reunida numa foto instantânea. Nossa estupidez era o que nos mantinha vivos, livre dos aparelhos. Celebrei minha fuga. Celebrei cada um de meus fracassos. Celebrei tudo isso colorindo o que me deram de presente sem prazo de validade. Meus valores eram ainda minha grande arma. Meus discos estavam a salvo. Minha poesia carregava aquele ridículo gostoso, aquela vergonha alheia que enrubesce a face, aquela preguiça de sair pra comprar gelo.
Bebi um pouco de água e levei meu corpo rabiscado pra caminhar. Era preciso um pouco de fôlego para continuar perdendo o ar. Chiara soava perfeita ao meu lado. Bastava me olhar pro mundo aceitar esperar um pouco mais. Resolvi sem pensar muito dedicar tudo o que havia escrito até hoje, pra ela, com Third do Portishead como testemunha, no máximo. Mais uma prova de superação. Era possível avançar em nossa própria estupidez todos os dias. Éramos eu e meu sorriso mais apaixonado, ali, prontos pra morrer um pouquinho de novo.
Alheia a tudo, alheia a sua vida, distraída de nascimento, Marie propôs um brinde. Me recusei e fui fumar um cigarro na cozinha. Chiara me beijou assim, sem motivo, com sua boca exalando novidade. Da pequena janela ao lado de um quadro espelhado antigo, rachado e cheio de rococós, pudemos assistir toda a bela covardia laranjoroseada do sol saindo de cena pelos fundos de um apartamento virado pra uma rua triste. Depois era domingo, depois seria terça e seria quarta e seria a chuva que traria nossa consagrada tristeza ao cair de um novo dia. Depois tudo ficaria a sorte do tédio e de nossa vontade contínua de deitar no colo de nossos pais. Mas quem nasceu com pés tão perfeitos como Emanuelle, com a distração tão inocente de Marie ou com a leveza de fazer qualquer chuva parar, como Chiara, jamais poderia chorar seus desesperos por assisistir o tempo passar tão rápido. Nossa estupidez estava reunida numa foto instantânea. Nossa estupidez era o que nos mantinha vivos, livre dos aparelhos. Celebrei minha fuga. Celebrei cada um de meus fracassos. Celebrei tudo isso colorindo o que me deram de presente sem prazo de validade. Meus valores eram ainda minha grande arma. Meus discos estavam a salvo. Minha poesia carregava aquele ridículo gostoso, aquela vergonha alheia que enrubesce a face, aquela preguiça de sair pra comprar gelo.
Bebi um pouco de água e levei meu corpo rabiscado pra caminhar. Era preciso um pouco de fôlego para continuar perdendo o ar. Chiara soava perfeita ao meu lado. Bastava me olhar pro mundo aceitar esperar um pouco mais. Resolvi sem pensar muito dedicar tudo o que havia escrito até hoje, pra ela, com Third do Portishead como testemunha, no máximo. Mais uma prova de superação. Era possível avançar em nossa própria estupidez todos os dias. Éramos eu e meu sorriso mais apaixonado, ali, prontos pra morrer um pouquinho de novo.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Um buraco no teto
I.Ficávamos a tarde inteira naquele sofá. O cheiro das mangueiras entrava adocicando o quarto por uma grande janela que vivia aberta na varanda, com cadeiras antigas e confortáveis. Com o rifle apontado para cima, nos divertíamos mirando a lâmpada apagada. Nossos rostos chegavam muito mais perto do que poderíamos em qualquer outra situação. Acho que isso criava inocentemente uma atmosfera proibida, que transformava minha testa em uma espécie de caminho para gotas rolantes de suor. Em certos dias sentia-me tão excitada que a vontade era de apertar aquele gatilho e atirar. Atirar pro alto, no teto, em um galho ou até em algum pequeno animal. Sentia-me bandida ao seu lado. Sentia-me nua perto de seu corpo coberto de tatuagens.
II.Aquela garota era realmente especial. Não tinha medo de mim, de meu sobrenome raso e de meus poucos dias fora da prisão. Gostava realmente de ficar comigo naquele sofá velho aprendendo a montar e desmontar aquele antigo rifle. Enquanto mirávamos para alvos inventados por nosso tédio, seu cheiro de sabão e leve colônia elevavam meu espírito e transformavam minhas narinas em dois escravos daquela menina. Meus pensamentos vagueavam entre o sacro e o profano com ela ao meu lado. Sentia-me puro ao seu lado. Sentia-me puro e longe de meus infernos perto de sua pele rosada em inocência.
III.Um tiro é disparado e um pouco de reboco cai do buraco feito no teto da antiga casa. Um cachorro late ao longe até o forte calor convencer sua cabeça animal que não vale a pena tanto esforço. Um rádio gorduroso toca uma música espanhola cheia de ritmo e cordas, enquanto duas pessoas transformam seus corpos em alguma coisa parecida com a Disneylândia. O rifle assiste tudo ainda quente, largado ao chão, exalando cheiro de pólvora e munição velha.
II.Aquela garota era realmente especial. Não tinha medo de mim, de meu sobrenome raso e de meus poucos dias fora da prisão. Gostava realmente de ficar comigo naquele sofá velho aprendendo a montar e desmontar aquele antigo rifle. Enquanto mirávamos para alvos inventados por nosso tédio, seu cheiro de sabão e leve colônia elevavam meu espírito e transformavam minhas narinas em dois escravos daquela menina. Meus pensamentos vagueavam entre o sacro e o profano com ela ao meu lado. Sentia-me puro ao seu lado. Sentia-me puro e longe de meus infernos perto de sua pele rosada em inocência.
III.Um tiro é disparado e um pouco de reboco cai do buraco feito no teto da antiga casa. Um cachorro late ao longe até o forte calor convencer sua cabeça animal que não vale a pena tanto esforço. Um rádio gorduroso toca uma música espanhola cheia de ritmo e cordas, enquanto duas pessoas transformam seus corpos em alguma coisa parecida com a Disneylândia. O rifle assiste tudo ainda quente, largado ao chão, exalando cheiro de pólvora e munição velha.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Poltrona 56
Entrando no trem atrasado, a cada passo reto em direção ao fundo daquela caixa uma pessoa diferente encarava-me com a mesma idéia original: rosnar em olhares de reprovação. Eram boas vindas que me deixavam a vontade para seguir avançando pelo corredor estreito, cabeça baixa, analisando o carpete sujo, chutando guimbas e pedaços de bilhetes velhos até encontrar minha cabine. Quanto mais me arrastava dentro daquele monte de ferrugem, a distância me fazia crer efusivamente nas letras garrafais que meu bilhete sustentava como sobrenome: classe econômica.
Há quase um ano sem ver minha mulher, ficava imaginando se ainda existiria uma quando chegasse em casa. Em minhas piores noites de bebedeira sempre tinha o mesmo sonho: estava lá eu, de pé, mas apesar do mesmo recinto, invisível para as outras pessoas. Num quarto decorado com papel de parede mofado, apenas um pôster com aquela língua dos Stones existia, preso com fita crepe próximo a um sofá velho. Nele uma ex de pernas abertas e sempre um cara diferente sem rosto, comendo a vadia com uma bestialidade dantesca. Eu disfarçava meu desespero contando a quantidade de espinhas na bunda dos caras. Nunca conseguia terminar de contar, acordando sempre empapado em suor, com a respiração ofegante e olhos vidrados. Era um sonho bem escroto.
Com a proximidade da cabine, minhas mãos começavam a derreter em um nervosismo não declarado, vergonhoso e infantil. Torcia para não me deparar com um obeso mórbido na poltrona 56. Também não agüentaria mais o cheiro de um representante daquele país colorido e me pegava, pasmem, rezando por um gringo ao meu lado ou um ser humano com higiene básica ocidental. Sentia-me podre, carcamano, moralista, quase um rato fascista. Foi então que me deparei com aquele par de olhos cor de piscina. Uma dona de coxas grossas com dentes tão brancos e alinhados, que cada divisão daquele sorriso lindo parecia contar com uma letra formando a frase bem-vindo-a-boceta-mais-rosa-de-sua-vida.
Tempos depois me divertiria respondendo as cartas de seu marido. Ela era casada com um pintor americano gordo e sensível, de nome havaiano, que, não me pergunte como nem por que, descobrira nosso rápido caso no banheiro daquele trem imundo. Durante meses ele seguiria me escrevendo ressentido, com um discurso afetado em moralismo, clamando por uma ética tão inocente quanto sua retórica. Esse cara não imagina como enriqueceu minhas noites de chuva com sua visão bebê-chorão da vida. É preciso sufocar a pena quando tratamos com sofredores convictos. São como baratas. Difíceis de morrer eles rodeiam os cantos de nossa existência, em busca de restos, assustando moças bonitas que só querem homens de verdade e um pouco de diversão enquanto não acham o amor de suas vidas.
Há quase um ano sem ver minha mulher, ficava imaginando se ainda existiria uma quando chegasse em casa. Em minhas piores noites de bebedeira sempre tinha o mesmo sonho: estava lá eu, de pé, mas apesar do mesmo recinto, invisível para as outras pessoas. Num quarto decorado com papel de parede mofado, apenas um pôster com aquela língua dos Stones existia, preso com fita crepe próximo a um sofá velho. Nele uma ex de pernas abertas e sempre um cara diferente sem rosto, comendo a vadia com uma bestialidade dantesca. Eu disfarçava meu desespero contando a quantidade de espinhas na bunda dos caras. Nunca conseguia terminar de contar, acordando sempre empapado em suor, com a respiração ofegante e olhos vidrados. Era um sonho bem escroto.
Com a proximidade da cabine, minhas mãos começavam a derreter em um nervosismo não declarado, vergonhoso e infantil. Torcia para não me deparar com um obeso mórbido na poltrona 56. Também não agüentaria mais o cheiro de um representante daquele país colorido e me pegava, pasmem, rezando por um gringo ao meu lado ou um ser humano com higiene básica ocidental. Sentia-me podre, carcamano, moralista, quase um rato fascista. Foi então que me deparei com aquele par de olhos cor de piscina. Uma dona de coxas grossas com dentes tão brancos e alinhados, que cada divisão daquele sorriso lindo parecia contar com uma letra formando a frase bem-vindo-a-boceta-mais-rosa-de-sua-vida.
Tempos depois me divertiria respondendo as cartas de seu marido. Ela era casada com um pintor americano gordo e sensível, de nome havaiano, que, não me pergunte como nem por que, descobrira nosso rápido caso no banheiro daquele trem imundo. Durante meses ele seguiria me escrevendo ressentido, com um discurso afetado em moralismo, clamando por uma ética tão inocente quanto sua retórica. Esse cara não imagina como enriqueceu minhas noites de chuva com sua visão bebê-chorão da vida. É preciso sufocar a pena quando tratamos com sofredores convictos. São como baratas. Difíceis de morrer eles rodeiam os cantos de nossa existência, em busca de restos, assustando moças bonitas que só querem homens de verdade e um pouco de diversão enquanto não acham o amor de suas vidas.
domingo, 11 de outubro de 2009
Lost in translation
Quando se está perdido pela Ásia bastam algumas noites seguidas de bebedeira para que o calendário deixe de existir. Perco compromissos, dinheiro e razão. Em compensação são histórias e mais histórias. Muito mais das do tipo que envergonham e nenhuma sequer, que me proporcione um cheque ao fim do mês, isso eu posso garantir. Se já não tenho como escolher o que dizer, o que pensar, nem o que olhar, sigo atento. Meu lucro é não deixar que minha mente apague as partes mais escatológicas, razoáveis ou que elas pelo menos se comportem bem num pedaço de papel. Já não tenho norte, perdi minha bússola, mapas, referências. Deixei minha dignidade perdida em algum cofre pela cidade, com uma senha que jamais cogitei memorizar. Aquela bela garota já não sabe quem eu sou, esqueceu meu rosto e agora oferece seu sorriso raro, tão precioso, de graça, apenas pra melhorar sua baixa auto estima. Posso escutar as ligações histéricas que precedem os bares. Vejo os piores tipos dando em cima dela, observo-a selecionando qual dos otários merece 10 minutos de conversa e enfim, cogitando fazer o que um dia já foi impossível sequer pensar em pensar. Acordo cada dia com um par de coxas diferente ao meu lado e já não sei o que devo fazer. Procuro-a em todas. Não consigo entender o que essas vadias apreciam em mim. Sinto-me desprezível, despreparado e perdido. Meu olhar, que já fora tão obstinado, há tempos não se encanta. Tomo um banho quente e demorado, mas a sujeira que sai de mim, de tão turva, desce bela e deplorável como uma punk sebenta e cambaleante, até o ralo. É como se minha pele fosse feita de lama. Desisto de me limpar, soaria como uma piada achar que isso é possível. Por enquanto me contento em fumar outro cigarro amassado na janela. Uma das poucas coisas que me acalma e força os espíritos que rondam minha cabeça, a partilharem um breve e curto acordo de paz. Ali estou puro. Agora sou puro. Bebo um pouco d’água num copo sujo e sento-me pra escrever um pouco mais. Quando quero afastar os pensamentos ruins, isso dá de dez a zero no Rivotril. Em instantes meu avião vai partir. Nenhuma comissária de bordo está preocupada com o fato de que não vou estar lá ouvindo aquelas instruções repetitivas. Com suas calcinhas compradas em Miami, enfiadas no rabo, elas não estão dando a mínima pra isso, afinal.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Boa noite
Até então são histórias repartidas. São momentos que um por um, vão brigando por atenção na hora dos sorrisos. E eles chegam. E você sente-se menos na merda. E um psicanalista tentaria demover a idéia do raso ou da presidência. E, mesmo estourando a cota da letra “e” em seu texto você diria que não. E diria que não sabe ainda se vai publicar isso. Que te dá certa excitação saber que esse texto não está pedindo pra aparecer. Daí rola. Daí, meu amigo, é só digitar. Só escrever. Só se queimar. Só vomitar em cima de tudo o que te atrapalha. Comprar aquele barulho que reverbera na calçada. Até aqui, meu amigo, eu vou pra casa, saborearei uma sopa. Imagino. E depois, mais tarde, cumprirei a promessa de contar aquela história. Até.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Saudade antecipada
Saudade antecipada é aquela que se cumpre quando o que era som se cala. Sentimento traiçoeiro, ri um riso triste e sem graça entre voltas do que era segurança e agora se apaga. É a vontade de ficar perto que não desapega, cheiro que o ar não deixa nem corrente segurar. Saudade antecipada quando vem, deixa a casa desarrumada. Lençol no chão, meia na sala. Peito reclama e mesmo vazio, com espaço, teima em não caber mais nada. Como pirraça o corpo dói e a cabeça, maltratada, pede papo, tempo, tudo, para não ficar parada. É o amor que quando se vai, aperta a liberdade e deixa tudo que era tempo livre, sem graça. Faz do papo de quem não se quer mais ouvir, puro tédio. Faz da música que bate e insiste sorrir, bobagem levada a sério. Faz que passa. Saudade antecipada é feita para quem espera alguém que longe, já não dá o ar de sua graça. Que aprende a contar centímetros, metros, milhas, quilometros. Valorizar instantes, décimos, segundos, passantes. Que não ousa desligar primeiro e não imaginaria nunca a falta danada que pode fazer esse cheiro. Saudade antecipada é aquela saudade ingrata, que zombe nos ouvidos, chata, sem deixar você dormir.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Réu de réis
E se o que era apreço vira moeda, já temos um preço. Não vendo minha alma por você, nem por ninguém. Daria ela a ti, daria ela e muito mais. Enquanto nossos riscos não dependiam da cotação do dólar, ficava mais fácil dividir meu coração em dois. Agora vamos multiplicando nossos erros, sem olhar direito para o problema que virou ficar assim sem pensar em algo além de nós. Prefiro rasgar meus bolsos e jogar fora minha roupa. Prefiro virar pedinte de rua, sem patrão, sem esfinge. Prefiro não ter família, nem nome, nem religião. Talvez só um cachorro bem bobo, que do meu lado, inseparável, possa dizer-me latindo o quanto tempo já perdi tentando fazer você entender o valor do dinheiro. Pra mim, já não custa nada deixar pra lá. Deixo o troco na mesa e jogo uma moeda pra cima. Minha sorte é de graça e nela vejo que sempre um lado vai existir. Então já posso ir.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
8 de setembro
Depois de beber meu vinho e comer da minha comida você se levanta. Observo seu corpo frágil tomar partido, num vestido que valoriza cada curva de sua geografia perfeita. Agora não temos mais segredos. Agora sabemos que somos feitos um para o outro. Procuro minhas chaves e observo meus pés em movimentos infantis como dois animais que se tocam, esperando o tempo voar. Você bate a porta e meu tédio começa. Passo meus dias sem tensão, sem brigas, sem discussões. Sinto falta de nossos destemperos, do ódio em seus olhos ao me fitar de forma convincente, no auge de nossa falta de paz. Quero uma mulher que possa me matar a qualquer instante. Quero esse perigo de vida me assombrando. Sua seiva me alimentando. Suas olheiras me fitando. Quero achar infantil todo texto de amor que não abra espaço pra espelhar nossa história. Você é minha bailarina que dança e convence com seus passos, sem medo, rodopiando em minha biografia. Espalhando papeis, trocando a ordem natural de minhas memórias, desarrumando tudo e criando um lugar próprio só seu, dentro desse filme. Faço cinema com você e representamos algo que nem existe. Seguimos repetindo de propósito todas as nossas cenas de amor. É tudo verdade pra gente. É tudo mais grave, mais simples e minha voz vai ser sempre aquela que te conforta. Te apoio e faço isso com naturalidade orgânica. Minhas entranhas estão vermelhas de raiva. Meu corpo marcado, quer ser levado de volta por todas as outras mulheres que jamais entenderão que fui feito assim, já nasci escrevendo o final feliz que quero viver. Escolhi você e isso é um ato de amor. Escolhi você e somos nós que vivemos juntos. Nossos erros são minha culpa. Nossa beleza é fruto dessa falta de importância dantesca, sobre saber até onde vamos. Eu acredito no eterno. Amanhã é outro dia e hoje, isso pra mim já é tempo pra caralho.
domingo, 26 de julho de 2009
Duas vezes Fitz
E dentro de minhas mais inocentes previsões, nunca imaginaria triunfar de forma tão melancólica. Já afastado de meus pensamentos mais perigosos, pude refletir o quanto temi que tudo acabasse resumindo-se a isso. Agora estava ali só, banhado em confiança, mas sofrendo inclusive por saber que este sentimento a cada minuto dissipar-se-ia mais um pouco. Bastava uma volta ao quarteirão ou uma ida ao pub da esquina pra aquela certeza me invadir cada vez mais. 1- Em Nova York não existiam mais novayorquinos 2- Aquela adorável menina mimada, jamais seria minha novamente.
Após o terceiro gole de uma cerveja densa, quase doce, comecei a achar as mesmas respostas fáceis que me trouxeram até aqui. Ficava imaginando se realmente seria feliz casando-me com Elisa. Aquela filha de um Juiz da suprema corte tinha traços demasiadamente parecidos com os de Zelda, grande paixão de Fitzgerald. Seria assustador se as coincidências não parassem por aí e pudesse concluir que em alguns anos, seu destino também fosse morrer queimada em um sanatório em chamas.
O irlandês que sempre me servia objetivamente, tinha cabelos cor de fogo e sardas que de forma quase simétrica, cobriam cada centímetro de seu rosto enrugado. Devia ter seus quarenta anos, mas uma viagem de barco até a América e algumas daquelas histórias que ouvia de soslaio enquanto gargalhava com meia dúzia de protestantes do outro lado do balcão, certamente ofereciam méritos a sua expressão envelhecida.
O frio do outono seguia agradável e convidativo a um passeio sem destino pelas ruas de Chelsea. Já cogitava sair dali pra sempre e a cada esquina que dobrava, marchava em uma lúgubre e silenciosa despedida. Ao passar por um café na 8th observei um casal sentado à varanda. O clima aquela altura de novembro ainda possibilitava programas como este. A garota chorava enquanto um rapaz grande e engomado, parecia mais preocupado em não chamar a atenção de outras mesas do que entender os desprazeres de sua triste companheira. Subitamente num gesto seco e rápido, puxou algumas notas, acenou para o rapaz que os servira e deixou-as em cima da mesa. Foi embora sem olhar pra trás. A garota continuou chorando e quando se levantou um pouco mais para limpar o restante de suas lágrimas insistentes, pude perceber um delicado rosto avermelhado. Sentia-me como ela. No fundo sabia que ela estava bem. Sentia-me provido, mas sozinho. Não tinha tempo para sofrer por orgulhos menores como o de ser deixado só num café, mas a falta de previsão no futuro acelerava meu coração. Segui até sua mesa levando um mínimo de coragem e toda minha forma desafortunada de enxergar o mundo.
Horas depois, preparando-me para ir embora de seu apartamento, observei na mesa da cozinha um livro. Ao levá-lo até minhas mãos percebi que a senhorita estava lendo a grande voz da geração dos anos 20. Minha espinha gelou-se. Era a segunda coincidência com Fitzgerald em meu dia. Voltei ao quarto e perguntei sobre sua opinião em relação a Amory. Gostei de sua quase confissão em achá-lo adorável. No fundo todos aqueles seus erros eram mais um espelho do que um convite a uma geração. Saí dali com o cheiro de seu sexo impregnado em meu corpo. Levava os dedos até o nariz e inspirava minha pele como um lobo fareja sua presa. Era uma espécie de batismo. Passo a passo chegava a novas conclusões, escrevia novos livros, novos adendos. Ao perceber toda fragilidade daquela mulher que, deixada em má situação por seu homem, entregou-se e ofereceu seu corpo, suas idéias e seus segredos a um passante, acabei fulminado por um novo entendimento sobre a beleza das mulheres. Entendi porque todas as minhas mais brilhantes formulações intelectuais cairiam sempre por terra defronte a sua falta de lógica e abundância em loucura e sentimentalismo. Para ser livre, bastava-se nascer mulher. Todas as suas angústias celebrariam minha inferioridade como homem. Segui almejando suas carnes. Elas, meu espírito.
Após o terceiro gole de uma cerveja densa, quase doce, comecei a achar as mesmas respostas fáceis que me trouxeram até aqui. Ficava imaginando se realmente seria feliz casando-me com Elisa. Aquela filha de um Juiz da suprema corte tinha traços demasiadamente parecidos com os de Zelda, grande paixão de Fitzgerald. Seria assustador se as coincidências não parassem por aí e pudesse concluir que em alguns anos, seu destino também fosse morrer queimada em um sanatório em chamas.
O irlandês que sempre me servia objetivamente, tinha cabelos cor de fogo e sardas que de forma quase simétrica, cobriam cada centímetro de seu rosto enrugado. Devia ter seus quarenta anos, mas uma viagem de barco até a América e algumas daquelas histórias que ouvia de soslaio enquanto gargalhava com meia dúzia de protestantes do outro lado do balcão, certamente ofereciam méritos a sua expressão envelhecida.
O frio do outono seguia agradável e convidativo a um passeio sem destino pelas ruas de Chelsea. Já cogitava sair dali pra sempre e a cada esquina que dobrava, marchava em uma lúgubre e silenciosa despedida. Ao passar por um café na 8th observei um casal sentado à varanda. O clima aquela altura de novembro ainda possibilitava programas como este. A garota chorava enquanto um rapaz grande e engomado, parecia mais preocupado em não chamar a atenção de outras mesas do que entender os desprazeres de sua triste companheira. Subitamente num gesto seco e rápido, puxou algumas notas, acenou para o rapaz que os servira e deixou-as em cima da mesa. Foi embora sem olhar pra trás. A garota continuou chorando e quando se levantou um pouco mais para limpar o restante de suas lágrimas insistentes, pude perceber um delicado rosto avermelhado. Sentia-me como ela. No fundo sabia que ela estava bem. Sentia-me provido, mas sozinho. Não tinha tempo para sofrer por orgulhos menores como o de ser deixado só num café, mas a falta de previsão no futuro acelerava meu coração. Segui até sua mesa levando um mínimo de coragem e toda minha forma desafortunada de enxergar o mundo.
Horas depois, preparando-me para ir embora de seu apartamento, observei na mesa da cozinha um livro. Ao levá-lo até minhas mãos percebi que a senhorita estava lendo a grande voz da geração dos anos 20. Minha espinha gelou-se. Era a segunda coincidência com Fitzgerald em meu dia. Voltei ao quarto e perguntei sobre sua opinião em relação a Amory. Gostei de sua quase confissão em achá-lo adorável. No fundo todos aqueles seus erros eram mais um espelho do que um convite a uma geração. Saí dali com o cheiro de seu sexo impregnado em meu corpo. Levava os dedos até o nariz e inspirava minha pele como um lobo fareja sua presa. Era uma espécie de batismo. Passo a passo chegava a novas conclusões, escrevia novos livros, novos adendos. Ao perceber toda fragilidade daquela mulher que, deixada em má situação por seu homem, entregou-se e ofereceu seu corpo, suas idéias e seus segredos a um passante, acabei fulminado por um novo entendimento sobre a beleza das mulheres. Entendi porque todas as minhas mais brilhantes formulações intelectuais cairiam sempre por terra defronte a sua falta de lógica e abundância em loucura e sentimentalismo. Para ser livre, bastava-se nascer mulher. Todas as suas angústias celebrariam minha inferioridade como homem. Segui almejando suas carnes. Elas, meu espírito.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Press fail
Meus lábios levemente roxos e você aí com esses olhos gigantescos olhando-me de soslaio. Fingindo uma naturalidade que de cara soube que jamais conseguiria ter, enche-me de culpa por estar na terceira taça e você, na segunda garrafinha d`àgua. Dentro dessa sua lucidez fascinante uma suposta postura superior soaria clichê. Ainda bem que passa longe disso. Sente-se segura, sabe o que quer, só esqueceu de avisar pra todas as dúvidas que pipocam dentro da sua cabeça. Por fora é seu novo corte que sei, nem imagino que tenha custado tão caro, parece ter sido feito sob medida pra nossa cena. Se metade das meninas hypadas do Rio estão iguais, a gente abafa. Óbvio que não importa. Mas não poso de dono da situação mesmo sabendo que é exatamente isso que você quer. Dentro da sua delicadeza meio desleixada, desse seu otimismo desconfiado, você quer proteção. Penso nisso muito menos como uma Mãe Dinah, ávido por um acerto, muito mais como uma suposição que me agrada. Se minha maturidade assombra-me aos 30, topo essa vontade de virar seu homem de verdade. Cansei de ouvir rádio há tempos. De tudo que já tô farto, talvez saber que a sinceridade ainda seja o que mais escandaliza as pessoas é o que mais fica confortável nas minhas idéias. Essa vontade de descobrir seu corpo de outra forma saliva meus pensamentos. Será que você vai me decepcionar daqui há pouco, quando cismar que seu sexo deveria coreografar meu orgasmo? Não. Do jeito que anulou a capacidade crítica de meus olhos, sua vingança é saber que me apaixonaria até por uma foda mal dada. Tudo um tanto chato, um tanto típico. Como já não ter a menor condição de ostentar uma postura melosa e romântica. Sei que esse ponto fraco me fragiliza e chega a ironizar meu papinho badass de adulto. Mas se o que sei é que aceito a condição de te perder só pela chance de fazer você sorrir como ninguém conseguiu, já tracei meu caminho. Agora esse barulho de taça no chão ganha status de nosso start. Começamos a nos perder aqui, desde o início. A gente sabe disso mas ri dessa farsa. Ninguém aqui tá interessado agora, em saber como vai ser o fim.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Por toda essa nossa falta de heróis
Depois de alguns dias sem comer, sabia que não poderia atacar aquele prato como o pescoço de uma adúltera. Teria que conquistá-lo aos poucos, quase enganando seu estômago para que pudesse engolir sem grandes consequências, alguns nacos do que havia espalhado pela mesa. Seus dentes estavam moles, suas gengivas sangravam e seus olhos ardiam. Sua pele seca, sem tatuagens, opaca e sem cor, conversava com cada olhar que mirasse ali. Dava respostas confirmando "sim, sou um pária" ou "sim, estou morto". Este último, quando resolvia estar de bom humor. Um maço de papel amassado no bolso trazia uns insights, algumas tentativas ridículas de poesia, o telefone de dois corajosos exemplares do sexo feminino. O rádio alertava em seu bom humor popularesco, convocando atenção a mais um assunto sensacionalista. Depois acalmava em músicas. Pedaços de frios ao chão eram observados a distância pelas baratas e suas antenas, que diziam umas às outras atrás das paredes "Que delícia. Uma verdadeira delícia". Era tudo pelúcia em uma mente confusa e infantil que acabara de acordar. Era tudo sonho em sua boca morta que mastigava, lasciva, redimindo-se do passado. Hoje era dia de dar um pouco de sentido as coisas. Um pouco de ordem. Era dia de atitudes afirmativas. Dignas de um homem. Dia de ir a locadora e alugar um filme de guerra sem perguntar a opinião da mulher, nem escovar os dentes. Preferiu ir voando. Foda-se a discrição. Pousou na esquina e ficou olhando a vitrine com um bando de filmes velhos novos, com o rosto colado na calçada. Seus superpoderes foram logo percebidos por uma criança, que perguntava para uma babá perplexa sobre o significado daquele líquido vermelho saindo de sua cabeça amassada.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Sobre como distinguir o choro do riso
Papai saiu cedo. Precisava fazer um dinheiro. Precisava ser pago. Papai era muito dócil com a gente. Tocava violão, contava histórias. Quem o olha mal acredita que aquelas mesmas mãos viveram sujas de sangue por aí. Quando escutava suas conversas por trás da porta a única coisa que nunca mudava era a razão: sempre com ele. Jamais entendi o que fazia de verdade. Mamãe tinha muito orgulho dele, vivia emocionada. Sempre com essa maneira especial de chorar ou rir do mesmo santo jeito. De uns tempos pra cá nem tentava mais distinguir. Papai saiu cedo. Mas hoje ele não volta. Meteram uma bola oito em sua boca. Achei desnecessário isso. Mamãe ainda nem me falou o que aconteceu, mas já me disse pra não contar ao Chico, meu irmão menor. Quebraram todos seus dentes e queimaram o corpo. Ouvi dizer que aquele homem do tamanho de um armário coube facilmente na mala duma Fiat, na rua do Tio Bento. Minha mãe agora tá chorando. Tenho certeza. Vou lá pra cima com o Chico. Para o caso de alguém entrar numa de dizer que papai foi fazer uma longa viagem, ainda não decidi se vou acreditar ou não.
sábado, 6 de junho de 2009
A cozinha
Cozinha. Pensava. Sem dúvida responderia cozinha, se alguma daquelas crianças vestidas de terra, desafiando mães, pais e leis da física naquelas ladeiras, me indagasse sobre o lugar preferido na casa branca.
O cheiro colorido da hortelã na sacola de palha misturava-se ao do manjericão roxo e fresco, ambos inquietos num inquestionável segundo plano. De uma suavidade tropical, impávido, era o doce, fresco e provocativo sabor das mangas que enrubescia meus sentidos sem nem ao menos precisar de mordidas, acordando o paladar pra tomar conta de minhas narinas. A madeira molhada da porta chiava avisando uma chegada. Deflagrava camadas e mais camadas aromáticas, que davam ao mesmo tempo boas vindas e um enfático anúncio de meu retorno ao lar.
Envolta em lençóis ela caminhava com leveza, exalando uma mistura de pele, pólen, suor, calor e graça. Sua boca agora era dona de meu pescoço, seus seios eram de meu peito e seu corpo tinha o peso de uma pluma, passeando em voltas pelo ar, suplicando baixinho em meus ouvidos sem que som algum pudesse ser ouvido “coloca-me ao chão”. Sua língua com gosto de ontem espalhava-se em minha língua, reconhecendo cada novidade, ávida por todo meu sabor.
Depois eram toalha, cesta, temperos e frutas pelo chão. Depois é nosso corpo sem plural, uma coisa só. É respiração quente em tonalidades diferentes de calor, aromas, cores. É tudo ficando pra depois. Qualquer tentativa de almoço virando jantar. Qualquer horário marcado virando espera. Qualquer ligação já nascendo perdida. E no momento onde só uma coreografia completamente não ensaiada faz sentido. Onde uma improvisação de jazz é recebida com uma sensatez absoluta. É aí que te encho de lava. Encho-te de mim.
Não podes mais fugir porque sou duro, quente e estamos presos a esse chão até a morte. Agora pertencemos a todos os aromas desse lugar. Folhas grudam, verdes, em sua pele vermelha. E sabes que está completa, com suas coxas sujas de leite, enquanto olho-te resignado. Espera-se de mim nossa ceia. Mas ela já vem. Ela já vem.
O cheiro colorido da hortelã na sacola de palha misturava-se ao do manjericão roxo e fresco, ambos inquietos num inquestionável segundo plano. De uma suavidade tropical, impávido, era o doce, fresco e provocativo sabor das mangas que enrubescia meus sentidos sem nem ao menos precisar de mordidas, acordando o paladar pra tomar conta de minhas narinas. A madeira molhada da porta chiava avisando uma chegada. Deflagrava camadas e mais camadas aromáticas, que davam ao mesmo tempo boas vindas e um enfático anúncio de meu retorno ao lar.
Envolta em lençóis ela caminhava com leveza, exalando uma mistura de pele, pólen, suor, calor e graça. Sua boca agora era dona de meu pescoço, seus seios eram de meu peito e seu corpo tinha o peso de uma pluma, passeando em voltas pelo ar, suplicando baixinho em meus ouvidos sem que som algum pudesse ser ouvido “coloca-me ao chão”. Sua língua com gosto de ontem espalhava-se em minha língua, reconhecendo cada novidade, ávida por todo meu sabor.
Depois eram toalha, cesta, temperos e frutas pelo chão. Depois é nosso corpo sem plural, uma coisa só. É respiração quente em tonalidades diferentes de calor, aromas, cores. É tudo ficando pra depois. Qualquer tentativa de almoço virando jantar. Qualquer horário marcado virando espera. Qualquer ligação já nascendo perdida. E no momento onde só uma coreografia completamente não ensaiada faz sentido. Onde uma improvisação de jazz é recebida com uma sensatez absoluta. É aí que te encho de lava. Encho-te de mim.
Não podes mais fugir porque sou duro, quente e estamos presos a esse chão até a morte. Agora pertencemos a todos os aromas desse lugar. Folhas grudam, verdes, em sua pele vermelha. E sabes que está completa, com suas coxas sujas de leite, enquanto olho-te resignado. Espera-se de mim nossa ceia. Mas ela já vem. Ela já vem.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O filho da puta
Era um daqueles fins de tarde de sexta-feira em que o sol já descia prometendo vingança. Movia-se impassível, pincelando contornos alaranjados por toda a cidade, imaginando o que as cores da noite fariam com seu trabalho. Debaixo disso, um senhor bem vestido seguia deixando pra trás velhos degraus num corredor estreito, protegido dos raios de luz que indicavam a saída e as formas de uma criança atrapalhando a passagem lá embaixo. Ganhou a calçada olhando fixo nos olhos do menino prostrado à porta, que agora tinha cheiro, feições e ossos, muitos ossos à mostra. “Nessa vida o nome que damos a algumas coisas às vezes não combina com o que os nossos olhos veem". Não sei se o tom profético e apressado ajudou, mas nunca mais o menino esqueceria disso.
Tal recinto era na verdade um grande sobrado de cuidadosa arquitetura francesa. Ficava ali pelas redondezas do Beco do Rato, geograficamente falando: uma coisa assim meio Lapa, meio Glória. Do alto de seus oito anos de idade, o pedaço de gente e testemunha das palavras do enrugado cliente que deixara o local há pouco, jamais tivera notícias de quem haviam sido seus pais. Até mesmo quando esse assunto teimava em rodear a cabeça de sua tia como moscas em volta de um bolo de laranja fresco, ela cismava em contar uma história diferente a cada dia. E que histórias. Eram prosas tão fascinantes que, em certa tarde chuvosa de março, o moleque chegou a se pegar, pasmem, agradecendo a Deus por ser um rebento sem família. Só e simplesmente pelo prazer de se perder naquela imaginação de Tia Chica. Uma morena dona de colos fartos e meia-dúzia de corações graúdos, que cuidava daquele projeto de homem como se o franzino tivesse saído da própria repartição pública existente embaixo de suas saias. Todos naquela rua encarpetada em pedras sabiam que arrumar problema com o menino de Chica era garantir uma encrenca das boas.
A casa onde tudo acontecia era frequentada por políticos, funcionários públicos, advogados e, no início do mês, por ordas de assalariados de menor status, ávidos por gastar seu dinheiro suado, suando um pouquinho mais. Ali o moleque aprendia o significado das palavras. Sabia que Ivo via a uva na sala de aula, mas quando seus pés encardidos subiam as escadas barulhentas do sobrado, aprendia degrau por degrau todo um dicionário recheado de signos, frases e comportamentos que professorinha nenhuma conseguiria explicar. Não raro chegava ao ponto de entrar inclusive no campo das fundamentações filosóficas. Sabia o que era uma puta, mas sabia muito bem diferenciar o adjetivo que na rua tinha função vexatória, para o significado real daquelas mulheres de seu convívio.
Mulheres que cozinhavam, pediam por ele no terreiro, lavavam sua roupa e o ajudavam até com as tarefas mais difíceis, como seu dever de casa. Sabia que sua tia era uma delas, mas sabia também que sem ela seu horizonte seria bem mais limitado que o horário de estada em cada um daqueles quartos. Minutos cronometrados que terminavam com socos nas portas, quando um crioulo chamado Felisberto, de uns 5 metros de altura, segundo seus cálculos, avisava gentilmente aos clientes sobre o fim da visita. E no lugar onde puta podia significar mãe, e zona, uma família, ser xingado na rua transformava-se quase em motivo de orgulho, mesmo quando ninguém ousava fazê-lo com ele. Mas como até o notório Felisberto estava cansado de saber, "se tem uma coisa que o tempo nunca teve, é a preguiça".
Assim os anos se passaram, o local ganhou um outro tipo de família, essa de verdade, daquelas mais tradicionais, e perdeu um bocado do charme de outros tempos. O menino crescido agora virara um sambista pela sobra de talento e pela falta de escola. Falta de escola-escola mesmo, aquela de verdade, com boletim, chamada e essas outras coisas dispensáveis. Porque a vida sim, essa nunca negara a ele um pingo de conhecimento e explicação pra tudo quanto é coisa.
Entre um samba e os socos que as portas continuavam tomando da vida, mostrando que as coisas terminam porque assim elas foram feitas pra ser, recebeu um telefonema. E do outro lado da linha aquela conversa estranha que, ele sabia direitinho, quando não dizia nada, dizia muita coisa, colocara-o no táxi que agora deixava o leito do hospital onde sua tia repousava. Fazia tempos ela estava de mal com o tempo, que, sem ninguém para puxar sua orelha, maltratava-a.
Agora o moleque crescido estava ali em frente ao sobrado, taxímetro ligado, olhos marejados. Achando graça ao saber pela boca de quem acabara de morrer que na versão final das histórias de Tia Chica sobre seus pais, a partir daquela manhã tinha ele um motivo real pra se orgulhar eternamente de sua mãe. Era um belo dum filho da puta.
Tal recinto era na verdade um grande sobrado de cuidadosa arquitetura francesa. Ficava ali pelas redondezas do Beco do Rato, geograficamente falando: uma coisa assim meio Lapa, meio Glória. Do alto de seus oito anos de idade, o pedaço de gente e testemunha das palavras do enrugado cliente que deixara o local há pouco, jamais tivera notícias de quem haviam sido seus pais. Até mesmo quando esse assunto teimava em rodear a cabeça de sua tia como moscas em volta de um bolo de laranja fresco, ela cismava em contar uma história diferente a cada dia. E que histórias. Eram prosas tão fascinantes que, em certa tarde chuvosa de março, o moleque chegou a se pegar, pasmem, agradecendo a Deus por ser um rebento sem família. Só e simplesmente pelo prazer de se perder naquela imaginação de Tia Chica. Uma morena dona de colos fartos e meia-dúzia de corações graúdos, que cuidava daquele projeto de homem como se o franzino tivesse saído da própria repartição pública existente embaixo de suas saias. Todos naquela rua encarpetada em pedras sabiam que arrumar problema com o menino de Chica era garantir uma encrenca das boas.
A casa onde tudo acontecia era frequentada por políticos, funcionários públicos, advogados e, no início do mês, por ordas de assalariados de menor status, ávidos por gastar seu dinheiro suado, suando um pouquinho mais. Ali o moleque aprendia o significado das palavras. Sabia que Ivo via a uva na sala de aula, mas quando seus pés encardidos subiam as escadas barulhentas do sobrado, aprendia degrau por degrau todo um dicionário recheado de signos, frases e comportamentos que professorinha nenhuma conseguiria explicar. Não raro chegava ao ponto de entrar inclusive no campo das fundamentações filosóficas. Sabia o que era uma puta, mas sabia muito bem diferenciar o adjetivo que na rua tinha função vexatória, para o significado real daquelas mulheres de seu convívio.
Mulheres que cozinhavam, pediam por ele no terreiro, lavavam sua roupa e o ajudavam até com as tarefas mais difíceis, como seu dever de casa. Sabia que sua tia era uma delas, mas sabia também que sem ela seu horizonte seria bem mais limitado que o horário de estada em cada um daqueles quartos. Minutos cronometrados que terminavam com socos nas portas, quando um crioulo chamado Felisberto, de uns 5 metros de altura, segundo seus cálculos, avisava gentilmente aos clientes sobre o fim da visita. E no lugar onde puta podia significar mãe, e zona, uma família, ser xingado na rua transformava-se quase em motivo de orgulho, mesmo quando ninguém ousava fazê-lo com ele. Mas como até o notório Felisberto estava cansado de saber, "se tem uma coisa que o tempo nunca teve, é a preguiça".
Assim os anos se passaram, o local ganhou um outro tipo de família, essa de verdade, daquelas mais tradicionais, e perdeu um bocado do charme de outros tempos. O menino crescido agora virara um sambista pela sobra de talento e pela falta de escola. Falta de escola-escola mesmo, aquela de verdade, com boletim, chamada e essas outras coisas dispensáveis. Porque a vida sim, essa nunca negara a ele um pingo de conhecimento e explicação pra tudo quanto é coisa.
Entre um samba e os socos que as portas continuavam tomando da vida, mostrando que as coisas terminam porque assim elas foram feitas pra ser, recebeu um telefonema. E do outro lado da linha aquela conversa estranha que, ele sabia direitinho, quando não dizia nada, dizia muita coisa, colocara-o no táxi que agora deixava o leito do hospital onde sua tia repousava. Fazia tempos ela estava de mal com o tempo, que, sem ninguém para puxar sua orelha, maltratava-a.
Agora o moleque crescido estava ali em frente ao sobrado, taxímetro ligado, olhos marejados. Achando graça ao saber pela boca de quem acabara de morrer que na versão final das histórias de Tia Chica sobre seus pais, a partir daquela manhã tinha ele um motivo real pra se orgulhar eternamente de sua mãe. Era um belo dum filho da puta.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Sobre fugacidade e café frio
A gente volta a se falar e o tempo pára. Somos tão inocentes. Tanta coisa aconteceu e a gente sempre pensa que vai seguir imune a tudo isso. E na minha cabeça seu sexo usado por outro cara, me adoece. Na sua meu corpo não incomoda tanto quanto meus sentimentos, dados numa bandeja a outra mulher, meu encanto, meus olhares. Isso desespera-te. Mas agora estamos nos olhando e o mundo entra nos eixos. As coisas parecem caminhar para um sentido que cheira a café da manhã na casa dos pais, calçada, padaria e jornal. Meu nariz entrega-se mergulhando de cabeça na infância, na segurança, no aroma de plástico do brinquedo novo que queria tanto ganhar no natal. Apesar da ida tão longe ao passado, sinto-me tão homem e tenho você como tão minha. Percebo que flutua em meus braços, em minha proteção. Chegam mais lembranças de nós dois. Coisas que ninguém vai tirar da gente. Que ninguém conseguiria. E cheiramos e bebemos nossa derrota, vencendo esse medo de ficarmos juntos. E nos tornamos tão completos. A certa altura já achamos que tudo voltou ao seu devido lugar e nossos corpos não deveriam nunca ter sido tocados por outros. Nosso peito se abre e trocamos confidências, tatuagens, trocamos novas juras, trocamos lágrimas, ficamos duros e umedecidos. Nossos olhares insultam a razão e a prática vira romance, a poesia assume promessas que ninguém pode cumprir. E na manhã seguinte a cama, o quadro, o celular, o horário atrasado pra trabalhar. Na manhã seguinte é a vida, são os compromissos e a realidade clamando atenção. E a gente ainda se olha mas sabe que já não se vê. Sabemos que não podemos mais parar o tempo. E o tempo anda e nosso peito já está tão frio como aquele café fraco, que se dizia quente.
domingo, 17 de maio de 2009
Sinédoque
Seguia seus dias numa rotina que agora, já parecia até nem ser tão mais interessante assim. O mesmo emprego mediano sem graça, os mesmos gostos alternativos avivados por experiências da infância (ou apenas pela internet), os mesmos sonhos com um quê de sedução e loucura. Entre ser clichê e ter virado lugar comum, bastava entender que hoje, ao perceber um adolescente com uma camisa do Nirvana, cantando suas letras e tendo crises existenciais fajutas, lhe confortaria saber que algum coroa já sentira o mesmo no início dos anos 70 ao afirmar que “o rock acabou”.
Agora aquela câmera ligada 24 horas ao seu lado já não incomodava mais. Virara paisagem. Nem sequer despertava nele uma coceirinha de vontade em parecer melhor do que era. Mas numa quarta-feira de sol cínico, pela manhã, resolveu olhar pras lentes como há muito não fazia. E após determinar mais uma vez em seus pensamentos o quão tediosos poderiam estar sendo seus planos bobos de alcançar sua meia dúzia de sonhos: chorou. Olhou pra câmera sem querer representar, nem nada. Apenas olhou. Sabia que aquilo não era um Big Brother. Sabia que aquilo não era um despertar de uma esquizofrenia ou coisa do tipo. Aprendera a lidar com o objeto cinematográfico como um fato corriqueiro da vida. Só então decidiu assim como quem não dá muita importância pras conseqüências, chorar copiosamente olhando pras lentes. Dizem que as marcas de suas lágrimas ficaram por um bom tempo nas paredes da cozinha.
Logo após o acontecido, pediu licença a quem quer que fosse o responsável por dirigir aquela empreitada e conseguiu enfim, uma cópia digital pirata do conteúdo dos rolos. Assistiu tudo por uma semana praticamente sem parar, no sítio de uma amiga, entusiasta produtora de cinema aposentada. Ali percebeu que sempre se imaginara muito distante de sua realidade.
Não mais achou seu emprego medíocre. Seus gostos agora adquiriam um ar um tanto quanto cool e seus sonhos, com aquele tratamento e um filtro laranja de sol, pareciam vivos, pareciam desafiadores, soavam fascinantes. Ao perder este parâmetro com a realidade, virou um personagem. Erro crasso. Foi aí que matou cada um de seus sonhos, um a um, com coronhadas das mais estapafúrdias conjecturas possíveis: virou um chato. Seu primeiro passo rumo ao fundo do posso foi criar um blog. Logo em seguida já estava se levando a sério demais e o grandioso filme de sua vida, virou alguma coisa fajuta inspirada em Kaufman, que até hoje continua pegando poeira nas prateleiras da Cavídeo.
Agora aquela câmera ligada 24 horas ao seu lado já não incomodava mais. Virara paisagem. Nem sequer despertava nele uma coceirinha de vontade em parecer melhor do que era. Mas numa quarta-feira de sol cínico, pela manhã, resolveu olhar pras lentes como há muito não fazia. E após determinar mais uma vez em seus pensamentos o quão tediosos poderiam estar sendo seus planos bobos de alcançar sua meia dúzia de sonhos: chorou. Olhou pra câmera sem querer representar, nem nada. Apenas olhou. Sabia que aquilo não era um Big Brother. Sabia que aquilo não era um despertar de uma esquizofrenia ou coisa do tipo. Aprendera a lidar com o objeto cinematográfico como um fato corriqueiro da vida. Só então decidiu assim como quem não dá muita importância pras conseqüências, chorar copiosamente olhando pras lentes. Dizem que as marcas de suas lágrimas ficaram por um bom tempo nas paredes da cozinha.
Logo após o acontecido, pediu licença a quem quer que fosse o responsável por dirigir aquela empreitada e conseguiu enfim, uma cópia digital pirata do conteúdo dos rolos. Assistiu tudo por uma semana praticamente sem parar, no sítio de uma amiga, entusiasta produtora de cinema aposentada. Ali percebeu que sempre se imaginara muito distante de sua realidade.
Não mais achou seu emprego medíocre. Seus gostos agora adquiriam um ar um tanto quanto cool e seus sonhos, com aquele tratamento e um filtro laranja de sol, pareciam vivos, pareciam desafiadores, soavam fascinantes. Ao perder este parâmetro com a realidade, virou um personagem. Erro crasso. Foi aí que matou cada um de seus sonhos, um a um, com coronhadas das mais estapafúrdias conjecturas possíveis: virou um chato. Seu primeiro passo rumo ao fundo do posso foi criar um blog. Logo em seguida já estava se levando a sério demais e o grandioso filme de sua vida, virou alguma coisa fajuta inspirada em Kaufman, que até hoje continua pegando poeira nas prateleiras da Cavídeo.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Lilac Wine
Vai passar cara. Vai passar. Você vai encontrar outra tão boa igual a ela. Tão cheia de defeitos, cheia de fraquezas. Tão cheia de espaços pra você entrar e aconselhar, direcionar, tornar-se rei. Vai passar e você vai entender que esse sentimento que deixa qualquer abismo tão sedutor, qualquer janela aberta ou tarja preta tão convidativos, vai mudar. Aquele riso que sublinhava seu humor e aquelas lágrimas que exclamavam suas dores agora passaram. São passado. Não faça de conta que isso volta, pois a linha se partiu. Sua fronteira agora é o horizonte. Suas gafes, seus erros, seus atrasos e suas falhas também ficaram pra trás. Isso não é o máximo? Agora você é quase uma folha em branco. Não tem mais personalidade, bandas preferidas ou prato que ela sabe de cor. Não tem mais as roupas que ela acha sexy, não tem mais aquela calcinha batida que você adora. Agora não tem mais o boquete despertador e a viradinha com aquele olhar de jabuticaba. Mas tudo vai ficar bem, insisto. Digo que sua vida é nova e a novidade dói. Digo que seus amigos estão com saudades, mas nem lembram mais quem é você. Que seus hobbies, que se transformaram rapidamente nas vontades dela, agora se perderam e você terá de encontrar novas coisas pra se dedicar. Que seu piano continua lá. Que as marcas de vinho no canto da parede, continuam lá. São manchas. São borrões. São essa Nina Simone perfeita em seus ouvidos fazendo sua alma sentir-se tão carente de talento. São seus melhores dias jogados ao vento. São momentos de glória que não tem nem a humanidade de assumir que foram tempo jogado no lixo. Porque não foram. Antes tivessem sido perda de tempo. Antes tivessem sido só carne. Mas foram espírito. Foram porra. Foram suor e sangue. Foram uma festa para as formigas andarem por cima, com todo esse doce. Foram seda. Foram sutis. Foram serragem e grosseria. Foram grito, desespero e culpa. Tudo muito. Tudo tão dominador, tudo tão fácil. Mas vai passar. Está passando. E enquanto falas sozinho, ela chora. Se lembra de vocês dois, porque pra ela você já não é um presente. És uma lembrança. Pertence ao que passou. Por hora ela chora o passado. Você só não entende aonde deseja ir. Só tem a certeza mais dura que já pode ter. Apenas sabe que vai passar.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Grito seco
Enquanto comia aquele cu a seco, sentia vontade de quebrar seu pescoço com um soco ou uma marretada. Sua disposição em ser meu capacho, as vezes fazia-me crer estar apaixonado por ela, as vezes causava-me asco. Mas comer aquele cu a seco, no sol de meio dia, sempre dava-me vontade de quebrar seu pescoço. Os cheiros da rua, nosso suor, o cinzeiro sujo, o prato com os restos de torrada, o cheiro de shampoo em seu cabelo e aquele maldito cheiro de buceta, acordavam meu nariz. O resto do dia não havia olfato, tava cagando pra fragrancias e aromas. Tava cagando pra notas e safras e uvas e vinhos. Me importava aquela sua buceta. Me encantava era aquele seu cu, aquele cheiro de suor naquele furo, cuidadosamente cheio de preguinhas. Aqueles cabelinhos finos e loirinhos, quase impossíveis de se ver a olhos nus, mas apoteóticos ao reflexo do sol do meio dia, apontados como setas em torno de suas covinhas nas costas. Aquela mistura do meu cheiro, com o cheiro de seu furo, com o cheiro imaginativo da merda que passara ali. Que me bastasse aquele cheiro de cu. Que me bastasse comer aquele cu a seco todos os dias em meu horário de almoço. Seria perfeito se num dia como outro qualquer não tivesse cedido aos meus desejos. Agora era o sangue no colchão, minha porra naquela bunda morta e a polícia sendo chamada por causa de um grito seco.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Johnny Rotten crisis
Agora era meu escarro, me olhando, estatelado ao chão. De tão cansadas, minhas costas mereciam aquelas faixas indicando uma interdição pela defesa civil ou algo do tipo. Enquanto presenciava minha coluna ruir, sentia inveja daquele subproduto do meu pulmão. Aquela coisa verde e quente deitada na sarjeta, protegida por minha sombra projetada pela luz brega de uma dispensadora de cigarros pra lá de flúor. Inveja do meu cuspe. Quando um homem se acha pior que um catarro, nada pode elevar sua baixa auto-estima. Um desfigurado cambaleante interrompe então minha divagação sorumbática e o pisa. Esfrega sua sola velha de lona de caminhão num movimento rápido, passando por cima de meu mais recente amigo e espalha metade daquela merda pelo chão do bar. Percebo como nunca tive sorte em minhas amizades, mais uma vez.
Puxo algumas notas do bolso. Minhas calças são velhas, meu dinheiro é velho, minha atitude ali não é nem um pouco nova. Agora só quero a paz que eu nunca encontrei, mas ainda insisto em tentar buscar sempre que resolvo que aquela é a hora de ir pra casa. Me livro do balcão e da cara impiedosa do sujeito que me serve. Desconfio que ele tenha tuberculose e sinto-me mais vulnerável do que já sou. Foda-se. Ali já não sou um devedor, já não sou um bêbado entre tantos. Minha garganta é menos uma lixeira na noite carioca.
Mal dobro a esquina e a maldita síndrome alerta minhas mãos, que tateiam meu corpo e bolsos, procurando algo que minha mente insiste em copiosamente blefar dizendo-me que esqueci só pra me fuder a cabeça. Segundos depois, avanço três passos, mas resolvo olhar pra trás. Minha visão enxerga então algo inaceitável. Também não quero acreditar nisso, mas vejo um escarro pútrido do tamanho de um homem, saindo pela porta dos fundos bar. Viro o rosto, recomponho os passos e sigo em frente, pra bem longe dali. Forço meu joelho frágil a aumentar sua capacidade articulatória: resolvo correr. Meu desespero agora se fantasia em música e uma sinfonia clássica flerta com minhas orelhas ligeiramente peludas enquanto tento fugir do meu próprio cuspe.
Consigo chegar em casa a tempo da medicina não me considerar um cadeirante. Desatarracho meu joelho esquerdo e sento no colchão de quinta, bem ao lado de meu criado mudo. Aquela visão no espelho da parede do armário parece mais normal quando estou sozinho. Antes de pegar no sono, o barulho alto de um escarro gigante caindo na calçada num ritmo matemático de gotejamento me assombra. Na manhã seguinte avistaria um bilhete de minha vizinha da frente empurrado por debaixo da porta. No papel amarelo, um alerta, onde ela seguia dizendo ter visto um catarro durante toda a madrugada, saltando incansavelmente tentando alcançar minha janela.
Puxo algumas notas do bolso. Minhas calças são velhas, meu dinheiro é velho, minha atitude ali não é nem um pouco nova. Agora só quero a paz que eu nunca encontrei, mas ainda insisto em tentar buscar sempre que resolvo que aquela é a hora de ir pra casa. Me livro do balcão e da cara impiedosa do sujeito que me serve. Desconfio que ele tenha tuberculose e sinto-me mais vulnerável do que já sou. Foda-se. Ali já não sou um devedor, já não sou um bêbado entre tantos. Minha garganta é menos uma lixeira na noite carioca.
Mal dobro a esquina e a maldita síndrome alerta minhas mãos, que tateiam meu corpo e bolsos, procurando algo que minha mente insiste em copiosamente blefar dizendo-me que esqueci só pra me fuder a cabeça. Segundos depois, avanço três passos, mas resolvo olhar pra trás. Minha visão enxerga então algo inaceitável. Também não quero acreditar nisso, mas vejo um escarro pútrido do tamanho de um homem, saindo pela porta dos fundos bar. Viro o rosto, recomponho os passos e sigo em frente, pra bem longe dali. Forço meu joelho frágil a aumentar sua capacidade articulatória: resolvo correr. Meu desespero agora se fantasia em música e uma sinfonia clássica flerta com minhas orelhas ligeiramente peludas enquanto tento fugir do meu próprio cuspe.
Consigo chegar em casa a tempo da medicina não me considerar um cadeirante. Desatarracho meu joelho esquerdo e sento no colchão de quinta, bem ao lado de meu criado mudo. Aquela visão no espelho da parede do armário parece mais normal quando estou sozinho. Antes de pegar no sono, o barulho alto de um escarro gigante caindo na calçada num ritmo matemático de gotejamento me assombra. Na manhã seguinte avistaria um bilhete de minha vizinha da frente empurrado por debaixo da porta. No papel amarelo, um alerta, onde ela seguia dizendo ter visto um catarro durante toda a madrugada, saltando incansavelmente tentando alcançar minha janela.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Velhas vontades
Fiquei com vontade de escrever o mais belo texto de amor. Queria observar você lendo minhas cartas, queria ver um sorriso honesto sem dor. Imagino sua rua, mesmo sem nunca ter ido lá. Vejo flores na varanda. Nos vejo nus. Imagino seu corpo, seu dorso. Te vejo querendo sentir de perto essas distorções. Saio pela calçada, compro pão. Esqueço o que já nem preciso, te dou a mão. Leio coisas tão bonitas, de uma leveza tão argentina, tão distante. Choro. Sigo por entre pensamentos tão cinzas. Me sinto melhor.
Fiquei com vontade de escrever um belo texto de amor.
Não sei se essa dor só me vem quando passeio por seus olhos e não chego a lugar algum. Porque em outros olhos me perco, nem vejo nada. Vejo espadas, vejo cruz. Em nossa cama vejo pus. Apenas um sol que se levanta como um astro e põe em nossa mesa o pão, o jornal, o antepasto. Em vosso teatro brilha nossa falta de tato, que me agoniza, me quebra. Imagino seu corpo, seu colo. Quero colo. Quero minha mãe. Mas nem sei quem ela é. Quero me ver por perto, quero tantas coisas.
Fiquei com vontade de escrever.
Nem sei de mim. Nem sei o que. Escutando uma linda canção começo a achar tudo tão fácil. Em cada nota vejo-te ali: oposta, esguia. Assim amenizamos nós. E essa minha mão que desarma em textos que viram arma, não atira. E te amo por nós dois. Talvez até por quem mais for. Vibro em meu silêncio repleto de certezas. Em todas as minhas velhas vontades. Em todas as minhas impurezas. Só pra te dizer que estou aqui.
Fiquei com vontade de escrever um belo texto de amor.
Não sei se essa dor só me vem quando passeio por seus olhos e não chego a lugar algum. Porque em outros olhos me perco, nem vejo nada. Vejo espadas, vejo cruz. Em nossa cama vejo pus. Apenas um sol que se levanta como um astro e põe em nossa mesa o pão, o jornal, o antepasto. Em vosso teatro brilha nossa falta de tato, que me agoniza, me quebra. Imagino seu corpo, seu colo. Quero colo. Quero minha mãe. Mas nem sei quem ela é. Quero me ver por perto, quero tantas coisas.
Fiquei com vontade de escrever.
Nem sei de mim. Nem sei o que. Escutando uma linda canção começo a achar tudo tão fácil. Em cada nota vejo-te ali: oposta, esguia. Assim amenizamos nós. E essa minha mão que desarma em textos que viram arma, não atira. E te amo por nós dois. Talvez até por quem mais for. Vibro em meu silêncio repleto de certezas. Em todas as minhas velhas vontades. Em todas as minhas impurezas. Só pra te dizer que estou aqui.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Poeira
O tempo passa e se esquece. Esquece o que nos fez rir. Esquece o que nos encheu de cor. Esquece. Simplesmente as memórias se vão. Viramos novamente crianças com uma inocência que não mais brota alegria, apenas lança mágoas. Esquece a gratidão. Esquece o amor. Para onde será que vão estas lembranças? Será que elas reúnem-se em um lugar comum? Será que brindam nosso esquecimento e se aquecem contando nossos melhores dias, um a um, em frente a uma lareira que arde sem culpa? Será que o melhor de nós está com o destino traçado e nada o dará a possibilidade e a grandiosidade do eterno? Em risadas, esse pesado pensamento desenvolve-se e sucumbe ao estardalhaço dos errantes caminhos chamados fáceis demais. Porque é fácil sofrer. É fácil pensar que o esquecimento se inunda de dor, quando uma fagulha de regozijo paira em cada nota mal tocada que não se escuta mais, porque não se recorda nem quem a deva tocar. E a proteção da falta de memória agora vira luxo. E o esquecimento vira ouro e torna-se pérola. Vira objeto raro que não requer posto de contemplação porque também, ele, será esquecido. O raso riacho que corta esses dois mundos é lúgubre, mas solucionador. Se o que apenas é não pede explicação, qualquer lembrança viva traz contentamento e toda indiferença ao que já se passou afunda no silêncio de quem manteve algum tipo de esperança. Tola esperança. Tudo o que transforma tristeza em alegria há de ser lembrado. E esculpido em memórias turvas, ri-se o riso bobo de quem pensa que lembras, mas apenas descreve em agonia, a mais pura vontade de voltar a ser feliz.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Sonho
Aquele gosto de almoço velho na boca precisava de ar. Já não acreditava mais no destino, preferia arruinar qualquer suspiro de histórinha que entrasse numa de começar com início, meio e fim. Chatice de cu é rola. Agora era ele e aquele jornal cheio de idéias ruins para o final de semana. Agora era desistência pura. Agora era seu rosto se enchendo de alegria, olhando-se no espelho ao chegar do trabalho, cheio de cravos, pele oleosa e dentes amarelos. Não costumava se dar bem com as vitórias mesmo, queria é comemorar as derrotas. E acompanhava com desdém aquele lenga lenga de olhar sua vida tornando-se melhor, sempre que uma porrada disfarçada de desencanto, acertava-lhe um tabefe no meio da cara. Com o romantismo novamente apurado, poderia virar o sonho de qualquer mulher ou justamente aquele vacilo que todas têm a gana de partilhar em sua biografia. Novas músicas, novos livros, novas histórias novas.
E aquele gosto de almoço velho precisando de ar. Não poderia ser diferente, ao acordar aquela hora com restos de comida pela casa inteira (incluindo sua boca). Arrumou sua camisa social preferida e foi trabalhar. Estava morto. Era um morto cheio de vida, diga-se de passagem, como aquele sonho reincidente, que vivia soltando uma âncora em cima de sua realidade medíocre.
E aquele gosto de almoço velho precisando de ar. Não poderia ser diferente, ao acordar aquela hora com restos de comida pela casa inteira (incluindo sua boca). Arrumou sua camisa social preferida e foi trabalhar. Estava morto. Era um morto cheio de vida, diga-se de passagem, como aquele sonho reincidente, que vivia soltando uma âncora em cima de sua realidade medíocre.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Vírgula
Acordei sem medos, todos eles haviam ancorado num belo fim. Agora era hora de buscar novas encrencas. Solto, podia andar por onde quiser. E era assim que tudo me dava saudade. Dava saudade dos lugares onde formei opiniões e onde fechei as portas que sabia não valerem a pena abrir. Deve existir um certo ponto em nossa juventude onde as escolhas são muito mais importantes do que sua biografia faz você acreditar que poderiam ter sido. Quando se está numa loja de discos e vamos passando os LP`s com a mão, tudo o que não chama sua atenção é lixo. E se você deixa passar um Pixies, já sabe tudo o que você não é. E se toca James numa festa e você sente uma vontade louca de mostrar de uma vez por todas pra ela que você é o cara, já sabe que seu destino abandonou uma porrada de outros caminhos.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
1 cigarro pra 3
Não deu nem tempo pra pensar, elas se beijaram na minha frente. Enquanto aquela cena transcorria, seguia num misto de tentativa de pensar em algo sexy ou criativo pra dizer e de apenas observar, curtindo aquela tentativa de dizer sei lá o quê. Cinco minutos antes era só uma conversa, eram só duas pessoas e eu. Era só mais um motivo pra testar uma abordagem nova, uma conversa com alguém com um humor mais refinado. Não era nada. Não havia pressão para um grand finale. Nem vontade de subverter, porra nenhuma.
Saí de fininho e acendi um cigarro. Meus olhos não conseguiam acompanhar meus pés e quanto mais me afastava dali, mais eles viravam platéia cativa daquilo. O emaranhado de tatuagens virou um borrão de longe. As cores de seus batons misturados deram luz a uma nova cor e suas faces eram de um vermelho notável. E não era nada parecido com timidez.
Já na rua, meu celular tocou. Joguei calmamente minha fábrica de fumaça fora e atendi. Aquela voz meio infantil, meio rouca, esbanjava vigor em uma contradição perfeita.
"A intenção não era perdermos você."
Desliguei o telefone olhando sem motivos pra minha única calça jeans. Eu sabia, agora já não era uma escolha voltar atrás. Ela acabava de me ganhar pra sempre. Ou até onde isso significasse ir naquele verão acachapante.
Saí de fininho e acendi um cigarro. Meus olhos não conseguiam acompanhar meus pés e quanto mais me afastava dali, mais eles viravam platéia cativa daquilo. O emaranhado de tatuagens virou um borrão de longe. As cores de seus batons misturados deram luz a uma nova cor e suas faces eram de um vermelho notável. E não era nada parecido com timidez.
Já na rua, meu celular tocou. Joguei calmamente minha fábrica de fumaça fora e atendi. Aquela voz meio infantil, meio rouca, esbanjava vigor em uma contradição perfeita.
"A intenção não era perdermos você."
Desliguei o telefone olhando sem motivos pra minha única calça jeans. Eu sabia, agora já não era uma escolha voltar atrás. Ela acabava de me ganhar pra sempre. Ou até onde isso significasse ir naquele verão acachapante.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
302
quando falta luz vejo mais
vejo traços que quase me desimportam
em outros momentos
enxergo seu cheiro melhor
agora
sem brilho só a noite existe
em nós nosso choro insiste
é pós carne nosso sono forte
depois do amor
vejo traços que quase me desimportam
em outros momentos
enxergo seu cheiro melhor
agora
sem brilho só a noite existe
em nós nosso choro insiste
é pós carne nosso sono forte
depois do amor
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Nossa sorte
Hoje quero me libertar de todo mal que pude lhe causar. Quero uma bebida quente, voltar praquilo tudo que há muito não se fazia presente, minha cama desarrumada e às novas mesmas reclamações de sempre.
Hoje já posso conseguir não te magoar, se minhas atitudes, desvencilhadas das suas, andam em sentido próprio. Consigo até encontrar algum tipo de ternura perdida em mim, distante da artificialidade ingênua que um pensar por dois propõe.
Hoje já não sinto a mesma raiva de seus ex-namorados ou de cada um desses idiotas de sorte que rondaram seus lábios, apesar de ainda me achar melhor que todos eles juntos. Entre o que perco e o que fica, me faz bem cada uma da maioria esmagadora de coisas que me orgulham em você.
Hoje preciso respirar cada minuto que tiver da minha individualidade de volta, preciso comemorar minha forma de enxergar o mundo, graciosamente diferente da sua. Posso fazer o que quiser do meu dia e dar uma trégua pra todos os jogos de guerra que o amor oferece em um tolo exagero.
Hoje quero que você esteja bem e onde quer que isso seja, só esteja pensando em mim se isso for te fazer algum bem. Minha distância é todo esse amor imenso que sinto por você.
Amanhã, quando tudo isso ainda fizer sentido, vou correr contra esse gosto de vilão que permaneceu em minha boca. Vou te beijar ainda mais forte. E posto que minha certeza em nós é clara, não vou sofrer nem ter medo da nossa sorte.
Hoje já posso conseguir não te magoar, se minhas atitudes, desvencilhadas das suas, andam em sentido próprio. Consigo até encontrar algum tipo de ternura perdida em mim, distante da artificialidade ingênua que um pensar por dois propõe.
Hoje já não sinto a mesma raiva de seus ex-namorados ou de cada um desses idiotas de sorte que rondaram seus lábios, apesar de ainda me achar melhor que todos eles juntos. Entre o que perco e o que fica, me faz bem cada uma da maioria esmagadora de coisas que me orgulham em você.
Hoje preciso respirar cada minuto que tiver da minha individualidade de volta, preciso comemorar minha forma de enxergar o mundo, graciosamente diferente da sua. Posso fazer o que quiser do meu dia e dar uma trégua pra todos os jogos de guerra que o amor oferece em um tolo exagero.
Hoje quero que você esteja bem e onde quer que isso seja, só esteja pensando em mim se isso for te fazer algum bem. Minha distância é todo esse amor imenso que sinto por você.
Amanhã, quando tudo isso ainda fizer sentido, vou correr contra esse gosto de vilão que permaneceu em minha boca. Vou te beijar ainda mais forte. E posto que minha certeza em nós é clara, não vou sofrer nem ter medo da nossa sorte.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Caixa postal
Peixoto já não usava relógio há tempos, mas naquele mês de dezembro resolvera abandonar o celular também. Aquele aparelhinho invasivo era sua conexão com o mundo desde a perda do tal relógio de pulso. Sempre tivera certo asco pela capacidade degenerativa que a telefonia móvel impunha as relações. Tudo ganhara uma velocidade errada com o advento. Se a capacidade comercial valorizou o aparelho, fazendo os negócios fluirem na velocidade de um toque, as relações pessoais se empobreceram. Rapidez realmente não valia pra tudo.
Já próximo ao final da primeira semana do experimento, mal desceu pra comprar o pão do dia e um descontente já sinalizava seu rompimento com o mundo, "Cadê você cara? Tá sem celular?". Era como se o que mais importasse fosse seu nokia e não sua presença física ali. Foi ganhando esporros variados durante o dia e eles continuariam por todo mês. Mesmo assim vibrava com o sumiço da reacionária indagação "Onde é que você tá?", que surgia geralmente após cada nova vibrada do celular. Qualquer pessoa, não importa o nível de intimidade, parecia ganhar cancha pra pronunciar a frase, tão logo se atendesse o aparelho. Se não fosse no início da conversa, era garantido ouvi-la ao se despedir de qualquer papo, por mais simples que fosse.
Seu namoro ainda conseguiu resistir 17 dias. Dos amigos, apenas aqueles verdadeiros, para os quais o celular não servia pra quase nada, exceto o necessário, sobraram. Juntou 3 deles num botequim e foi duramente sentenciado, "Peixoto, ou você liga seu aparelho ou o negócio vai ficar feio pra você".
Chegou em casa meio chocado, sentia que aquela não era sua época. Até seus amigos de fé, do tempo em que a internet nem existia, estavam contra ele. Com os olhos marejados e um sentimento de derrota no peito, resolveu plugar seu algoz na tomada. Eram quase 300 ligações perdidas, 100 mensagens de texto pra ler e mais de 40 mensagens de voz pedindo atenção na telinha iluminada. Ouvindo os recados naquela madrugada, entre as dezenas de vozes com argumentos perecíveis e bizarros, descobriu que perdera sua mulher por causa de uma bateria descarregada e sete oportunidades de ouvir sua mãe reclamando dos mesmos assuntos de sempre.
Já próximo ao final da primeira semana do experimento, mal desceu pra comprar o pão do dia e um descontente já sinalizava seu rompimento com o mundo, "Cadê você cara? Tá sem celular?". Era como se o que mais importasse fosse seu nokia e não sua presença física ali. Foi ganhando esporros variados durante o dia e eles continuariam por todo mês. Mesmo assim vibrava com o sumiço da reacionária indagação "Onde é que você tá?", que surgia geralmente após cada nova vibrada do celular. Qualquer pessoa, não importa o nível de intimidade, parecia ganhar cancha pra pronunciar a frase, tão logo se atendesse o aparelho. Se não fosse no início da conversa, era garantido ouvi-la ao se despedir de qualquer papo, por mais simples que fosse.
Seu namoro ainda conseguiu resistir 17 dias. Dos amigos, apenas aqueles verdadeiros, para os quais o celular não servia pra quase nada, exceto o necessário, sobraram. Juntou 3 deles num botequim e foi duramente sentenciado, "Peixoto, ou você liga seu aparelho ou o negócio vai ficar feio pra você".
Chegou em casa meio chocado, sentia que aquela não era sua época. Até seus amigos de fé, do tempo em que a internet nem existia, estavam contra ele. Com os olhos marejados e um sentimento de derrota no peito, resolveu plugar seu algoz na tomada. Eram quase 300 ligações perdidas, 100 mensagens de texto pra ler e mais de 40 mensagens de voz pedindo atenção na telinha iluminada. Ouvindo os recados naquela madrugada, entre as dezenas de vozes com argumentos perecíveis e bizarros, descobriu que perdera sua mulher por causa de uma bateria descarregada e sete oportunidades de ouvir sua mãe reclamando dos mesmos assuntos de sempre.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Só pelo prazer de observar suas costas até a esquina
Gostava de olhar praquelas costas. Preferia seus vestidos, camisas ou o que quer que a moda resolvesse lhe presentear, com decotes. Generosos decotes nas costas. Vibrava com a possibilidade de aplicar uma de suas massagens, mesmo cansado pós drink, pós trabalho, só para ficar num estado erótico quase meditativo, olhos vidrados num caminhar suave pelos contornos, pele e geografia de seu derrière. Preferia todas as posições sexuais em que a mantivesse assim, numa espécie de nuca a tete. E seguia negligenciando por puro prazer, de forma muito natural, seus belos olhos, maças do rosto e sorriso estonteante. Seus dois círculos castanhos observavam continuamente um vazio a sua frente, enquanto o prazer vinha por trás. Ela se divertia com isso. Se divertia com cada uma das putarias que chegavam a seus ouvidos acompanhadas por seu hálito quente. Olhar nos olhos era permitido, geralmente o suficiente para que levasse um soco poético ou para que suas almas afastassem o mal que a falta de um amor faz para uma biografia. Páginas em aberto seguiam sendo escritas, guardadas, espalhadas pela casa. Os dias passavam lentamente só de birra, para abrir espaço pra noite perder-se entre horas mal dormidas. Pra quê dormir? Era preciso beber aquela indiferença pelo dia. Era preciso respirar a lucidez que transcende a importancia de uma agenda. Enquanto levantava para trabalhar, ela continuava na cama. Miava em dor, sucitando vontades de um pouco mais. Mas era preciso sair. Talvez só pela saudade. E enquanto caminhava com a barba por fazer pela rua de pedras, sentia os olhos dela, olhando pela janela, lá atrás. Quisera ele trocar suas posições. Quisera ele estar ainda no quarto e ela na rua. Fechava os olhos e imaginava isso em sonhos, só pelo prazer de observar suas costas desfilando até chegar a esquina.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
8,2 km
E leve respiro com meu nariz completamente descongestionado. Apaixonado, meu pulmão funciona bem. Tenho fôlego de criança e ando sem apego junto a tudo que faria uma falta danada senão estivesse tão despretensiosamente presente. Dou furos que de tão burros me aquecem como um banho de mar numa tarde nublada e fria. Sou absolvido em meus fracassos por cada sorriso seu. Por cada olhar que me fuzila cheio de amor, semi cerrado, cheio de tesão à flor da pele. Estou falando de mim, que encontrei meu caminho. Estou falando que posso andar para o lado, mas só vejo graça em descobrir mais o que nossa história pode dar. Estou falando. São claras as minhas pequenas contradições. Tão certas que me fornecem leveza. Me sinto em albergue, sem rotas, não preciso responder-te sim. Não deixo a coragem escapar, sigo forte em minhas idéias. Tenho suporte em cada passo, que se bem dado, encontra seu corpo ao lado encostado a mim. Nossa história já tão cheia de estórias segue simples, segue indo bem, meio assim. Tem seus pontos fortes, seus pontos fracos, mas não admite distâncias, então seguimos sem achar tudo tão fácil. Minha dança pede você, minha bailarina. Nossa cama não admite fim. Se te quero em fogo, te espero em pleno vento. Não preciso proteger meus olhos da poeira ou da sujeira do tempo, nem proteger tuas dores de mim. Você é minha e não há nada que possamos fazer. Em liberdade poderíamos ir embora a qualquer breve momento, mas não seria justo, nem, tolamente, ousaria isso significar um fim.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Notas de um mesmo assunto nº23
Se não escrevo mais já não posso ser considerado um escritor. Já não posso mais colocar em forma de pequenos retalhos, cada fiapo do que sinto descrito em palavras. Tenho medo do que escrevo. Prefiro dizer. Prefiro sentir. Queimo a língua e coloco fogo em todos meus livros. Em todas as minhas páginas com cheiro de loja. Minhas letras são feitas de chuva. Preciso de mais lama pra limpar cada página em branco com a sujeira que emociona e faz tudo começar a criar sentido. Se você me lê e pensa consigo "Nossa! Como entendo isso?!", já não faz o menor sentido que ainda sim, eu siga sendo entendido. Compro cada metro que nos separa e pago caro por isso. Peço por minhas certezas o mínimo, para que elas não sejam motivos de piada. Motivos de orgulho, eu já garanto quando levanto da cama e nos primeiros raios de sol percebo que não penso como você. Me afasto dessa retórica rouca. Sigo longe dessa receita de bolo indefectível. Você é pouco para mim, é apenas sobremesa. Sou mais forte por saber rir, por saber perdoar e por pensar que se consigo ser o inverso do que você acha que o sucesso é, já encontrei metade dos meus objetivos do dia.
sábado, 22 de novembro de 2008
little joy
Como uma melodia que vai conquistando meu corpo, a tristeza vai corroendo minhas juntas. Com tanta dor, já não sinto mais este corpo, já nao sinto mais a dor. É tudo prazer e nao há conformidade nisso. Tudo é ponto de apoio, tudo é recomeço, tudo soa como uma boa canção. Agora o passado é um convite ao novo, mas com tanto presente ainda vivo no lugar em que fomos parar, ficamos ainda insistindo em esperar algo bom. Somos tolos. Somos inocentes crianças querendo que algo aconteça. Esperamos o Natal em nosso peito. Queremos um adulto responsável com um sorriso dirigido a nós. Queremos uma felicidade que parece longe como a infância. Mas basta um sorriso ou um novo arrepio, pra que ela nos carregue de onde estamos agora. No ponto em que chegamos estamos entre a curiosidade de afundar mais e a dúvida de sermos salvos. Estou mais leve por admitir minhas derrotas. Estou mais leve por só querer você aqui do meu lado, se quando virar meu rosto, lá você estiver.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Abalo sísmico
Entre um abalo sísmico e outro, sigo escrevendo minhas histórias. Já nem sei mais onde começam e onde terminam. Duro golpe pra quem demorou a perceber que prefere o sossego. Mas se a intensidade faz parte de mim e já nem me atrevo a afrontá-la, escolho a gentileza. Peço bençãos, peço desculpas e simplesmente não tolero mais o orgulho de quem parece não saber se ama ou não. Ressentimentos secam motivos que não preciso carregar comigo. Se queres amor tens meu peito. Tens também toda minha estupidez e todos meus piores momentos. Triste preço o do apreço. Triste fim. Corajoso recomeço.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Boca de urna
-E ae, votou em quem?
-Cara, eu não votei. Não acordei a tempo.
-Mas a zona fechava as cinco da tarde…
-Deve ter sido mais ou menos essa hora em que fui dormir. Inclusive tive um sonho bem estranho.
-Algum pesadelo?
-Nem. Sonhei que nada era tão importante a ponto de não poder ser desligado.
-Como assim?
-Tudo na vida tinha um botão de on e off, cara.
-Mas assim, em inglês e tudo?
-É cara, em inglês. Vai saber, esses putos tão até no nosso subconsciente.
-Entendo. Mas, assim, estéticamente falando, como é que isso funcionava?
Charles tateou seu maço de forma demorada, como usualmente fazia, aproximou o filtro de um dos cigarros bem perto de seus lábios secos rachados pelo frio e finalmente puxou forte, enquanto rosqueava seu zippo.
-Cara, você simplesmente desligava as coisas e elas ficavam ali, esperando alguém religar. Mas a vida corria em paralelo, numa boa, numa relax. Eram botões estilo aqueles de força, de energia, pretos, saca?
Marcos forçava a vista prestando atenção a cada uma das palavras. Eram sons abafados e contidos em fumaça densa. Fumaça que parecia funcionar como uma espécie de vírgula. Várias vírgulas, na verdade. Mas que não chegavam a mudar o tom, nem a pontuação da explicação, em interpretação da clara resposta que ali, pareceu satisfazê-lo.
-Aham…
-Então…era isso. Estranho né?
-Estranho. Bem estranho.
-Só não conta pra Flavinha, bicho.
-Por que? Ela vai entrar numa de ficar te analizando?
-Não, ela vai ficar muito puta se souber que eu não votei.
-Tendi.
-Cara, eu não votei. Não acordei a tempo.
-Mas a zona fechava as cinco da tarde…
-Deve ter sido mais ou menos essa hora em que fui dormir. Inclusive tive um sonho bem estranho.
-Algum pesadelo?
-Nem. Sonhei que nada era tão importante a ponto de não poder ser desligado.
-Como assim?
-Tudo na vida tinha um botão de on e off, cara.
-Mas assim, em inglês e tudo?
-É cara, em inglês. Vai saber, esses putos tão até no nosso subconsciente.
-Entendo. Mas, assim, estéticamente falando, como é que isso funcionava?
Charles tateou seu maço de forma demorada, como usualmente fazia, aproximou o filtro de um dos cigarros bem perto de seus lábios secos rachados pelo frio e finalmente puxou forte, enquanto rosqueava seu zippo.
-Cara, você simplesmente desligava as coisas e elas ficavam ali, esperando alguém religar. Mas a vida corria em paralelo, numa boa, numa relax. Eram botões estilo aqueles de força, de energia, pretos, saca?
Marcos forçava a vista prestando atenção a cada uma das palavras. Eram sons abafados e contidos em fumaça densa. Fumaça que parecia funcionar como uma espécie de vírgula. Várias vírgulas, na verdade. Mas que não chegavam a mudar o tom, nem a pontuação da explicação, em interpretação da clara resposta que ali, pareceu satisfazê-lo.
-Aham…
-Então…era isso. Estranho né?
-Estranho. Bem estranho.
-Só não conta pra Flavinha, bicho.
-Por que? Ela vai entrar numa de ficar te analizando?
-Não, ela vai ficar muito puta se souber que eu não votei.
-Tendi.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
O maratonista
Enquanto corria a igreja ficava um pouco maior lá no horizonte. Era parecida com meus pecados, que dia após dia insistiam em não diminuir. As pedrinhas faziam cama pra uma cançao que só em minha cabeça faria sentido. Rimavam de forma desconcertante com aquele cheiro ainda vivo sobre meus pulsos, minha nuca e principalmente acolchoado em minhas mãos. Meus dedos agora escoravam o capim ao longo da estrada e espantavam mosquitos moribundos, sossegados pela manhã daquele pedaço de vida quase rural. A corrente de prata em meu pescoço flutuava, em uma dança coreografada e banhada em luz, com uma cruz agora não mais prostada em meu peito solitário e pouco solidário. A poeira subia abafada pelo frio entrecortado por rajadas de vento quente. Umidade aparente em suor, empapando minha blusa de algodão cru. Sozinho estava agora, como sozinho estive nos braços dela. Já ofegante avistei as escadas do casebre de madeira marcada pelo tempo. Sem tomar fôlego subi de mãos dadas ao ranger de tábuas inconscientes. Precisava perdir perdão ali. Deus saberia como aconselhar minhas desgraças. Tínhamos esse trato. E por isso eu corria. E corri até a velha igreja e caminharia com um sorriso estampado após pedir sua benção. O espírito santo que desse um jeito no peso dos meus erros. Porque aquele cheiro doce logo deixaria minha pele sossegada e minha cabeça em paz.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Pacheco Leão
Meus sonhos subiram pela janela e sumiram num céu azul, que de tão azul, pediu proteção pra mim enquanto a praia não chega. Minha felicidade morando logo ali depois do túnel, ainda vive insistindo em abrir as portas pra nós. Da janela sigo vendo minha vida lá fora, me assistindo aqui de dentro. Me lembro do dia onde não existiam dias futuros e sinto falta de você me dando direção. Nosso colchão clareia com a luz da rua, do alto de todo tempo que não permite aos nossos pés alcançar o chão. Procurando um samba pra gente ir, toco meu barulho em cada absurdo que sua careta de menina me engole em outro não. Fica pra depois outra nova discussão. Fica pra agora mais um tempo de folia, entre nossos olhos que correm pela casa toda armando sua brincadeira de carnaval. Do nosso corpo sai confete. Do que achamos certo, tiramos o suor desse nosso bloco. Tiramos ele do dia que nem combinamos que depois seria assim, infinito.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Balada de um quase escritor
E por não saber palavras em música, guardo espaço pras minhas letras livres. Despertas ao colocar pra fora essas sensações. Então surgem canções que se expressam com papel, feitas pra se cantar em olhos famintos. O que faço te homenageia, quando já nasce bonito. Se surgem as palavras tristes, são vírgulas. São pausas. São apenas parágrafos, que convidam um mundo novo a um novo bloco de idéias. Escrevo em sintonia com meu peito, nada, nada em vão. Se tomo isso como sagrado, meu relicário é minha estante. Cheia de espaços pra novas rezas. Com minha religião tão pouco rígida, essa postura faz-se em convite ao novo. Quando escrevo pra você é pensando em palavras sem rimas. Canto cada frase com um ritmo próprio.Teu sorriso de criança me responde como encanto e faz melodia. Não preciso de um samba, pra sagrar-te santa. Quero-te em lama, quase meretriz. Não preciso de banda, candomblé, batuque, nem ciranda. Preciso de vento na cara. Preciso de Copacabana. De um profano espaço de apoio, papel e paixão. E assim, quase sem graça, apresento meu mundo. Me escrevo em convite, quase dedo em riste, de uma Tijuca que insiste: não te quer triste. Pra variar subvertendo verbos, com cismas, com manias. Sentindo em nós toda essa falta de razão que só confirma. São respostas à tudo aquilo que nem precisaríamos provar ainda.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Papo reto
Não era você que estava querendo tanto um pouco mais de responsabilidade? Uma coisa menos beginner que um bichano pra cuidar ou aquelas aulas de trompete que mais faltava do que outra coisa? Agora fica aí se esquivando entre o teto cheio de teias de aranha e o pôster clichezão do Warhol. Clichezão. Taí o seu problema. De repente esse lance de insistir em andar com a coleção retrô que deixa seu profile mais parecendo o de um hype afetado que assaltou o armário dos avós, anda atrasando sua capacidade de raciocinar. Não dá pra negar que essa voz que bagunça seu oco, já cansou de guiar suas paranóias mais cruas e assar suas batatas mais quentes. Quando o peito te deixa tão cansado a ponto de mijar com a bunda na privada, seu relógio tá atrasado e seu tempo já acabou: se manda.
No bar a maneira que apoia os cotovelos no balcão não inspira uma dose de malte, mais parece pedir um copo de achocolatado. Sendo assim é melhor partir e passear com o vento esnobe que sopra quando bem entende, não liga a mínima pra você. No café da esquina mais um jornal e motivos para comprar revistas que não deixam colocar em prática esse seu discurso anticonsumo de quinta. Uma gostosa lendo algo inútil só serve pra trazer a lembrança de outro pé na bunda, até o delay em sua cabeça cansada, lembrar que foi justamente você que abandonou sua última namorada. Com esse estímulo torpe fica fácil arcar com suas atitudes mais vis. Elas são coerentes com seu jeito vazio de ser. Não é nada bonito ficar tomando tantas decisões ruins em sequência. Tá na hora de buscar um pouco de inocência nessa sua atitude punk.
Na falta de um motivo pra pegar o carro, fico entre o alivio do metrô e o asco de um ônibus lotado. Vou a pé com você, pregando em sua cabeça a necessidade de uma nova ida a farmácia. É preciso comprar analgésicos e olhar com certa graça pra camisinhas que, contrariando sua lógica contraceptiva, reproduzem-se nas gôndolas, cada vez mais coloridas e com promessas diversas ao literal gosto da freguesa. Coisas que não servem pra quem usa aquilo que você chama de cuecas, velhos panos que ao menos não me envergonham a ponto de inventarem algo diferente do estilo boxer.
Na portaria, outra gostosa, pra variar acompanhada. Mas já não adianta dizer que seu par é um cachorro, uma ótima forma de puxar conversa. As frases que pipocam em sua saliva seca não empolgam com esse frágil "boa tarde", que mais parece um fim do dia. Ela sorri mesmo assim e insiste em lembrar sua vaidade que elas estao aí e sim, mesmo com essa sua mania de querer sempre enxergar o que nem eu vejo, querem trepar contigo ou quem sabe viajar pra dentro desse seu mundo vazio.
Ao final do corredor não temos mais tempo pra monólogos. Não tem jeito, acabou de me ver. Não vá dar uma de covarde agora. Sou eu mesmo, mas esse soco seco me transforma em um abstrato espelho quebrado. Teu sangue respinga em meus percalços pontiagudos e desce como melado, de forma serena. Serve direitinho pras conclusões desse nosso papo reto. Pelo menos ao que parece você está vivo, cara.
No bar a maneira que apoia os cotovelos no balcão não inspira uma dose de malte, mais parece pedir um copo de achocolatado. Sendo assim é melhor partir e passear com o vento esnobe que sopra quando bem entende, não liga a mínima pra você. No café da esquina mais um jornal e motivos para comprar revistas que não deixam colocar em prática esse seu discurso anticonsumo de quinta. Uma gostosa lendo algo inútil só serve pra trazer a lembrança de outro pé na bunda, até o delay em sua cabeça cansada, lembrar que foi justamente você que abandonou sua última namorada. Com esse estímulo torpe fica fácil arcar com suas atitudes mais vis. Elas são coerentes com seu jeito vazio de ser. Não é nada bonito ficar tomando tantas decisões ruins em sequência. Tá na hora de buscar um pouco de inocência nessa sua atitude punk.
Na falta de um motivo pra pegar o carro, fico entre o alivio do metrô e o asco de um ônibus lotado. Vou a pé com você, pregando em sua cabeça a necessidade de uma nova ida a farmácia. É preciso comprar analgésicos e olhar com certa graça pra camisinhas que, contrariando sua lógica contraceptiva, reproduzem-se nas gôndolas, cada vez mais coloridas e com promessas diversas ao literal gosto da freguesa. Coisas que não servem pra quem usa aquilo que você chama de cuecas, velhos panos que ao menos não me envergonham a ponto de inventarem algo diferente do estilo boxer.
Na portaria, outra gostosa, pra variar acompanhada. Mas já não adianta dizer que seu par é um cachorro, uma ótima forma de puxar conversa. As frases que pipocam em sua saliva seca não empolgam com esse frágil "boa tarde", que mais parece um fim do dia. Ela sorri mesmo assim e insiste em lembrar sua vaidade que elas estao aí e sim, mesmo com essa sua mania de querer sempre enxergar o que nem eu vejo, querem trepar contigo ou quem sabe viajar pra dentro desse seu mundo vazio.
Ao final do corredor não temos mais tempo pra monólogos. Não tem jeito, acabou de me ver. Não vá dar uma de covarde agora. Sou eu mesmo, mas esse soco seco me transforma em um abstrato espelho quebrado. Teu sangue respinga em meus percalços pontiagudos e desce como melado, de forma serena. Serve direitinho pras conclusões desse nosso papo reto. Pelo menos ao que parece você está vivo, cara.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
alarm clock display
Com o tempo, acostumei com aquele sol na cara. Era estranho encrencar com um feixe de luz quente cheio de vitaminas. Acho que ele sempre quis meu bem. Tenho que encarar o fato dele ter poupado minha vida útil profissional enquanto me acordava cedo. Depois veio a cortina e com ela a luxúria. Sexo e sono. Até aquela briga por causa do tempo que eu perdia gastando nosso tempo com os outros. E lá se foi a cortina. E lá se foi o tesão. Agora eu continuo acordando com aquele mesmo sol na cara. Mas ontem a Cris me despertou com um boquete. Adoro quando ela faz isso.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
0001:17:83
Hoje é dia de parabenizar os vitoriosos. Dia de celebrar a presença dos fracos em seus papéis coadjuvantes, com dentes podres e dívidas irreversiveis feitas nos mesmos bares sujos onde suas historias de brigas sem nexo se acumulam. Momento preto em que se pretende ou é apenas possível sentir toda culpa afobada em terceiras retóricas fraquejantes. Anéis de cabelo loiros ofuscando em um brilho ariano toda espalhafatosa sombra que as bandeiras abertas ao alto, sintonizam em respostas de orgulho, com suas noticias de primeira página. Apertos de mão sinalizando belos negócios fechados enquanto o pus esbanjando a barreira do óbvio, sai de cada braço marcado pelos picos doces feitos em esquinas escocesas sem obviedade geográfica aparente. O som que sai das radios é pop e faz a cama para os cereais matinais e toda margarina e toda pipoca quentinha que exala o cheiro do bem estar moral. São blusas passadas e confortavelmente acomodadas em armários cheios de outras blusas confortavelmente iguais. Estado semiconsciente de perfeição em eterno contraste ao chão sujo que uma criança branca não brinca. São baixos gravíssimos de um torpor absolutamente aceitável até que o cult permita e o social aflija. Dessas mentiras colhemos mais adjetivos sonoros e continuamos aprumando nossa capacidade de aceitar o ridículo. Trancamos qualquer possibilidade dos assuntos discutíveis. Eles já nascem com respostas roucas embrulhadas no que nossos olhos insistem em ver. Você tem visto? Você tem sentido algo? Você tem estado vivo ultimamente? Salve seus melhores dias em algo mais seguro que um HD e vá para a rua ver a vista. Reviste em sua insistência quase extinta, as adequações e verdadeiros significados que procura. Tenha medo do que entendes se não consegues enxergar as mais patéticas obviedades. Um abraço a você que venceu. Eu continuo perdendo meu tempo com isso aqui.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
325 passos dali
Seu pecado foi querer ela daquele jeito. Se estivesse esperado mais. Se tivesse segurado a onda. Estava indo tão bem. Sua mãe se orgulharia. Dona Lurdinha sempre ensinara tim-tim por tim-tim sobre como tratar uma mulher. Até na cama. Ajudava o fato de Dona Lurdinha ser uma mãe emprestada, mas isso não vem ao caso. Agora ele ficava ali com aquela cara de quem roubou no jogo e foi pego. Cara de tacho. Cara de menino. Cara de menino que ela inclusive não gosta. Ela gosta de homem. Daquele tipo bem sujo. Mas ele foi isso e até mais. E foi querer daquele jeito. Trocou os pés pelas mãos. Literalmente. Virou de cabeça pra baixo seu mundo. Pobre mulher. Pobre menina. Se estivesse esperado mais. Se tivesse segurado a onda. Mas ela também não é de ferro. Ela também aprendeu as coisas meio de orelhada. Ela também não teve nenhuma Suplicy explicando as coisas no jantar. Só de pensar no que fizera, sua calcinha denunciava em uma pouco inocente umidez o falso arrependimento. Agora ela fica ali. Com cara de menina naquele apartamento financiado, cheio de porra pelo chão. Cara de menina que ele até gosta, apesar de preferir a cara de vadia. Vagabunda. Uma vagabunda apaixonada em pensamentos desconexos, assustada com o que sentira. E ele encostado na parede. De pau duro a 325 passos dali, olhando aquele poster velho do Flamengo colado na porta da geladeira secular. Uma porrada de negões caguetando prum maraca lotado o que ele sentira. Por enquanto seria puro pecado e uma cerveja gelada servida sozinha, por ele, pra ele mesmo.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Música pra ler enquanto absurdo
E pensam que não se pode nada. Que você não pode amar. Ser em mais um, que não dá pra ser assim. Se te contam que não existe espaço no peito pra mais sonhos, é porque não sonharam. Como um índio doce, te espelho no mar sob orientações toscas. São leves os ventos dessa teoria absurda. E pensam mais. Pensam que não se pode nada. Bobagem. Não estão amando. São meninos. Não dançam, nem observam minha bailarina. É tudo muito permitido e tem sido assim. Apenas tem sido assim. De dia a gente dorme e acorda com aquele sono perto do escuro da noite que já cai. Se isso pesa nos ombros, deixo o são para os que pensam que não se pode nada, e me deixo engolir pelo chão. Nessa música pra ler enquanto absurdo somos todos índios. Somos todos doces índios.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Acesulfame-k
Me surpreendo com a capacidade do ser humano em admitir sem dizer uma única palavra, que prefere as mentiras. É um clamor quase uterino, que já desisti faz bastante tempo de tentar entender ou classificar. Agora sigo como um voyeur, por momentos me divertindo com isso e por outros sofrendo calado (quando consigo). Confesso que a capacidade de desistência ou apavoramento no outro me seduz, quando as enxergo. Mas não quero holofotes, nem polêmicas baratas. Afinal também larguei há muito, a adolescente mania de querer jogar com isso. Mas ainda assim, por vezes surpreendo-me quase partindo pra cima do ermo com unhas, histórias pessoais escatológicas e dentes. É de uma pobreza frígida o sentimento mesquinho de querer se projetar em cima do diferente. Ok, até faço um mea culpa, porque admito torcer o nariz para o libertário frívolo, sem sentido. Não conseguiria encontrar sentido em tudo na vida, mas sem algum tipo de charme e consistência mínima, não dá pra diferenciar mesmo um mendigo imerso em alteradores do sistema nervoso e um Basquiat. O foda-se sonoro e iluminado que carrego no peito para os de alma pequena, vira um souvenir de estadia. Aprendi muito cedo que existem combates que já nasceram como um convite à desistência. Não sou professor, nem quero ser exemplo ou modelo para ninguém. Não cultivo culpas e as poesias que não gosto, rasgo e jogo no lixo antes mesmo de sentar pra escrever.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Notas de um mesmo assunto nº32
Talvez esta fosse a melhor hora pra ir dormir. A rua quase sem carros, sem ônibus. Só pedras meio molhadas de um frio úmido e chato. Apesar de minhas garrafas de vinho tinto seco, confesso que sempre prefiri o sol ardendo em todos os meus motivos. O calor deixando a mostra meus desenhos em pele, que o inverno esconde, só dando de presente a quem fez por merecer em verdade olhar meu corpo nu. Nesses pecados em série que minhas noites de lua quente se transformam, sigo colhendo notas e colecionando seios, pernas e pescoços absurdos. Não preciso de muitos colapsos pra enxergar loucura em moças de boa família, mas insisto em querer todo seu conteúdo à mostra: celebrar o ridículo vira condição sinequanon.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Flores nascem na primavera
Distante da casa vazia agora caminhava pela praia deserta. O frio afagava seus ossos como um velho grande amigo. Os pés afundavam pela areia fofa e acinzentada, cagando para maiores consequencias distantes. Eram acordes simples àquela altura, de uma praticidade punk que refletia uma densidade bossanovista plena e ilógica, abatida pela fossa instalada, genuína como uma cusparada debochada de pé de palco. A chuva disfarçava algumas lágrimas arredias e uma fumaça lúcida flutuava a cada respiração quente expelida por sua boca rachada. Como uma espécie de réu confesso optava por deixar de investir naquele devaneio e sentia-se bem por isso. A sensação confusa de liberdade nunca fora recebida com tão desagrado. Seria preciso aprender a viver com tanto espaço livre, com tantas decisões pra tomar sem consultar seu lado a procura de um sorriso, uma negativa ou aquele famoso olhar de "se vira". Cada desenho ganhara novos contornos em seu corpo. Novos sentidos. Novas letras eram recriadas em novas melodias. Falsetes e novas notas em cada canção antiga. Após algumas horas na chuva fina, sua flanela azul ficara mais pesada em um corpo tão mais leve. As escadas molhadas rangiam e recebiam pedaços de grama, areia e pedras. Havia calor ali e todos naquela praia sabiam disso. Acabaria o mundo a cada nova vergonha compartilhada e cada papel em branco seria sua chance de recomeçar. As mais belas vadias jamais foram tratadas como mercadoria por quem sabia bem o que o futuro lhes reserva. Esse mistério enchia de coragem seus passos. Enchia de areia e grama aquele pedaço de mundo escasso. Não faria sentido algum aquelas cores invadirem sua sala, já que flores só nascem na primavera.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Amor em Bic
Em cima de uma pilha de livros velhos descansa um cigarro apagado. Misturado ao cheiro de café frio, todos os nossos pecados são visíveis a olho nu. Aplacamos essa distância refugando tudo o que o resto do que não existe neste apartamento, pensa. Simplesmente é permitido que sejamos assim. Se temos tantos sonhos bobos, carregamos de veracidade nossas metas mais fúteis amadurecendo a cada queda. É de um impressionante declínio a importância daquilo que não se disponibiliza para o amor como nós. Somos tão fortes. Somos tão jovens. Somos tão bonitos. A sutileza que carrega essa total impossibilidade de destruição que o lado de fora nos reserva, nos liberta em sorrisos cada dia mais sinceros. Não tripudiamos em cima dos fracos. Nem precisaríamos disso. Se o que nos faz forte é o amor, em dobro multiplicamos a renda dessa generosidade gratuita. A gente fica mais engajado porque temos espaço no peito pra lutar pelos ideais honestos com o brilho que nossos olhos carregam. As bandeiras em nossos punhos cerrados são de significados vadios. Mudam em hyperlinks de uma coerência gritante. Ficar parado não serve, não é garantia de nada. E tudo isso porque estamos amando. E tudo isso porque somos jovens. E tudo isso por causa do tal infinito que nos metemos ao permitir nosso peito sangrar assim.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Time to pretend
Vamos rabiscar o contorno do que seria uma bela história pra nossas vidas. Nos afogar em desculpas falsas e acordar tarde justamente pra se libertar dos horários que nos afligem. Vamos encontrar felicidade no fundo de uma garrafa colorida e quebrá-la quando terminarmos de nos apoderar do que ela veio a terra nos dar. Estamos prontos pra fingir como a música diz. Somos animais com inteligencia suficiente pra não morrermos em pastos, pagando impostos sobre a incompentência latente em desenvolver nossos sonhos mais ariscos. Bebamos esse sangue misturado as cascas e pedaços de peles mortas, vivas pelos machucados que o pior tombo nos dá. Já é tempo desse transe e dessa falsa lucidez invadirem a sala de espera com o pé na porta. Quero cabelos feitos de cobras e corpos como pinturas em óleo. Não somos donos de nossa existência, seria fácil demais se fosse assim. Essa terra cansou de ser usurpada com mentiras. Nossos pais deram as mãos em sofrimento, abismados com suas histórias e mais histórias de derrotas sucessivas. Abruptas vertigens de senso comum e moralidade barata. Filhotes mamando com uma fome dantesca em tetas que de tanto fornecer leite já não se sentem funcionais em dizer algo relevante. Cores frias e padrões de cenografia mortos, pálidos e sem a força bruta que um bumbo em dia de carnaval acorda em meu peito. Falácia assalariada e proletária. Discurso entregue à mais valia de entrar ou ficar esperando lá fora. Só peço em oração que continuem sem me entender, pra que eu possa falar cada vez mais com quem preciso conversar aqui. Dentro dessa sua humildade em devaneio, é na dificuldade que me levanto contra você. Te mando a merda e chego meu desgosto pro lado, viro outra página desse martírio e alugo um novo filme antigo. Não cheguei nem no meio da prosa que se transformou a crônica dor de ser feliz por ser assim tão descrente na vida.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Sem título
Atrás de tudo o que virou cinza, ainda tem espaço pra mais um maço de cigarros. Se minha boca está amarga é mais um motivo pra tomar outro gole de café. Minha lucidez pede atenção e perde espaço pro alucinante tempo que só o amor pode dar. Esse fuso horário diferente bagunça meu espaço, troca minhas distâncias e me deixa fora de casa mais tempo que o saudável sugere. Minha saúde é feita de tudo o que acredito. Tudo o que me fortalece são minhas crenças e só alguém bem estúpido seria inocente o bastante para querer brigar pela atenção que dou às minhas idéias. Não tenho previsão sobre como e quando te fazer feliz porque o simples fato de você estar viva já me enche de motivos pra sorrir. Deixe essa nossa beleza ser celebrada, a gente merece essa felicidade compartilhada. Se é pra ser feliz de uma vez por todas, a gente compra logo um sofá velho e consegue de graça vários motivos pra continuar dando certo do jeito leve que nós dois de forma tão inconsequente chegamos a sonhar.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
No balcão
O problema é que ninguém quer se fuder mais. Esse papo de sofrimento raso acabou enjoando quem tá chegando agora no mercado. Acho até que a proliferação do sentimentalismo barato espantou a garotada. Agora o negócio é se dar bem. Não dá mais pra perder tempo investindo em coisas que não te dêem a certeza de algo em troca. Impossível pensar em alguem saindo pra um programa lixo, ciente que a boa é exatamente a programação indígena mesmo. Isso me enoja, cara. Isso me dá na porra dos nervos. Ninguém quer sentir a porra do cheiro velho dos livros da biblioteca pública mais. Ninguém mais quer ler. Ninguém mais quer investir na porra de uma profissão, cara. Quando era pequeno eu lembro bem do imbecil do Régis, estagiando com o pipoqueiro só pra olhar o peito da mulherada nas noites de sábado. Ele ficava lá com o português ajudando a fazer sei lá o que e seu pagamento vinha em uma fila de seios fartos e pipoca doce misturada com metade salgada. Pergunta se ele se arrepende disso? Claro que não, cara. Mas hoje isso seria no mínimo passível de cadeia. Seria um português safado explorando um moleque inocente. Pro caralho com essa merda dessas afetações. Eu sinto falta da época em que os desenhos eram realmente violentos e ninguém abria fogo nas escolas por isso. Ou pelo menos o jornalismo marrom e barato ainda não dava tanta grana e talvez por isso, evitava-se esse tipo de sensacionalismo tosco em forma de matéria exclusiva. Não, não venha me dizer que sou mais um daqueles caras chatos que preferem o passado não. Só preciso olhar nos olhos de algum filha da puta e perceber beleza no sofrimento alheio. Porra. Vamos sofrer, vamos sofrer! Sofrer faz bem. E não é sofrimento EMO não. Não precisa pintar as unhas de preto ou passar lápis na merda dos olhos. Basta sentar na porra de um boteco ou banco de igreja e deixar vir. Basta sentar na porra de uma pedra e meditar ou num banco de praça e olhar um pouco o absurdo onde a gente vive. As pessoas só querem se amar feito insetos sugando seus próprios sangues, cara. Cadê o amor? E caralho, cadê a porra da minha cerveja, Zé?
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Twelves
Entre as colagens, coisas vão fazendo sentido. Entre ritmos, somos amigos e confidentes. Sigo pelo som que lembra outras consequências livres. Nesse ponto é tudo música e vibramos por isso. Nesse acaso vão fazendo sentido as quebras. Batidas que não nos machucam. Apenas nos libertam, quando salvam nossa noite. Pedimos permissão pra rir de tudo que não cerceia essa liberdade em nossos quadris. Somos criancas que pela manhã viram adultos, mas podem virar o que sua cabeça imaginar. Nosso pescoço está a prêmio e ninguém arranca essa nossa vontade de arriscar tudo por um lugar ao lado das caixas de som. Se vão-se os sentidos que voltam pedindo mais e mais, ao menos decidimos não censurar as novas vontades. Clássicas verdades de momento, que como pecados irresistíveis se ornamentam em cores vibrantes. Vão de boca em boca e de peito aberto em peito aberto. Pegam fogo como riachos de lava, represados no volume do grave que distorce orgãos e horários. Fica tudo mais claro. Todo nosso sofrimento não some, nem nunca ousou querer isso, apenas se embrulha numa leveza que o deixa menos pedante por algumas horas. A gente se reencontra com eles na saída, no meio do set ou na hora que ele resolver aparecer. Até porque ele é genuíno como essa felicidade que me invade em absinto. Se ninguém está querendo fugir de nada, a gente só não precisa de um motivo novo pra dançar que não seja uma música empurrando nosso coração pra fora do que você achar feio.
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