sexta-feira, 25 de julho de 2008
Acesulfame-k
Me surpreendo com a capacidade do ser humano em admitir sem dizer uma única palavra, que prefere as mentiras. É um clamor quase uterino, que já desisti faz bastante tempo de tentar entender ou classificar. Agora sigo como um voyeur, por momentos me divertindo com isso e por outros sofrendo calado (quando consigo). Confesso que a capacidade de desistência ou apavoramento no outro me seduz, quando as enxergo. Mas não quero holofotes, nem polêmicas baratas. Afinal também larguei há muito, a adolescente mania de querer jogar com isso. Mas ainda assim, por vezes surpreendo-me quase partindo pra cima do ermo com unhas, histórias pessoais escatológicas e dentes. É de uma pobreza frígida o sentimento mesquinho de querer se projetar em cima do diferente. Ok, até faço um mea culpa, porque admito torcer o nariz para o libertário frívolo, sem sentido. Não conseguiria encontrar sentido em tudo na vida, mas sem algum tipo de charme e consistência mínima, não dá pra diferenciar mesmo um mendigo imerso em alteradores do sistema nervoso e um Basquiat. O foda-se sonoro e iluminado que carrego no peito para os de alma pequena, vira um souvenir de estadia. Aprendi muito cedo que existem combates que já nasceram como um convite à desistência. Não sou professor, nem quero ser exemplo ou modelo para ninguém. Não cultivo culpas e as poesias que não gosto, rasgo e jogo no lixo antes mesmo de sentar pra escrever.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Notas de um mesmo assunto nº32
Talvez esta fosse a melhor hora pra ir dormir. A rua quase sem carros, sem ônibus. Só pedras meio molhadas de um frio úmido e chato. Apesar de minhas garrafas de vinho tinto seco, confesso que sempre prefiri o sol ardendo em todos os meus motivos. O calor deixando a mostra meus desenhos em pele, que o inverno esconde, só dando de presente a quem fez por merecer em verdade olhar meu corpo nu. Nesses pecados em série que minhas noites de lua quente se transformam, sigo colhendo notas e colecionando seios, pernas e pescoços absurdos. Não preciso de muitos colapsos pra enxergar loucura em moças de boa família, mas insisto em querer todo seu conteúdo à mostra: celebrar o ridículo vira condição sinequanon.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Flores nascem na primavera
Distante da casa vazia agora caminhava pela praia deserta. O frio afagava seus ossos como um velho grande amigo. Os pés afundavam pela areia fofa e acinzentada, cagando para maiores consequencias distantes. Eram acordes simples àquela altura, de uma praticidade punk que refletia uma densidade bossanovista plena e ilógica, abatida pela fossa instalada, genuína como uma cusparada debochada de pé de palco. A chuva disfarçava algumas lágrimas arredias e uma fumaça lúcida flutuava a cada respiração quente expelida por sua boca rachada. Como uma espécie de réu confesso optava por deixar de investir naquele devaneio e sentia-se bem por isso. A sensação confusa de liberdade nunca fora recebida com tão desagrado. Seria preciso aprender a viver com tanto espaço livre, com tantas decisões pra tomar sem consultar seu lado a procura de um sorriso, uma negativa ou aquele famoso olhar de "se vira". Cada desenho ganhara novos contornos em seu corpo. Novos sentidos. Novas letras eram recriadas em novas melodias. Falsetes e novas notas em cada canção antiga. Após algumas horas na chuva fina, sua flanela azul ficara mais pesada em um corpo tão mais leve. As escadas molhadas rangiam e recebiam pedaços de grama, areia e pedras. Havia calor ali e todos naquela praia sabiam disso. Acabaria o mundo a cada nova vergonha compartilhada e cada papel em branco seria sua chance de recomeçar. As mais belas vadias jamais foram tratadas como mercadoria por quem sabia bem o que o futuro lhes reserva. Esse mistério enchia de coragem seus passos. Enchia de areia e grama aquele pedaço de mundo escasso. Não faria sentido algum aquelas cores invadirem sua sala, já que flores só nascem na primavera.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Amor em Bic
Em cima de uma pilha de livros velhos descansa um cigarro apagado. Misturado ao cheiro de café frio, todos os nossos pecados são visíveis a olho nu. Aplacamos essa distância refugando tudo o que o resto do que não existe neste apartamento, pensa. Simplesmente é permitido que sejamos assim. Se temos tantos sonhos bobos, carregamos de veracidade nossas metas mais fúteis amadurecendo a cada queda. É de um impressionante declínio a importância daquilo que não se disponibiliza para o amor como nós. Somos tão fortes. Somos tão jovens. Somos tão bonitos. A sutileza que carrega essa total impossibilidade de destruição que o lado de fora nos reserva, nos liberta em sorrisos cada dia mais sinceros. Não tripudiamos em cima dos fracos. Nem precisaríamos disso. Se o que nos faz forte é o amor, em dobro multiplicamos a renda dessa generosidade gratuita. A gente fica mais engajado porque temos espaço no peito pra lutar pelos ideais honestos com o brilho que nossos olhos carregam. As bandeiras em nossos punhos cerrados são de significados vadios. Mudam em hyperlinks de uma coerência gritante. Ficar parado não serve, não é garantia de nada. E tudo isso porque estamos amando. E tudo isso porque somos jovens. E tudo isso por causa do tal infinito que nos metemos ao permitir nosso peito sangrar assim.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Time to pretend
Vamos rabiscar o contorno do que seria uma bela história pra nossas vidas. Nos afogar em desculpas falsas e acordar tarde justamente pra se libertar dos horários que nos afligem. Vamos encontrar felicidade no fundo de uma garrafa colorida e quebrá-la quando terminarmos de nos apoderar do que ela veio a terra nos dar. Estamos prontos pra fingir como a música diz. Somos animais com inteligencia suficiente pra não morrermos em pastos, pagando impostos sobre a incompentência latente em desenvolver nossos sonhos mais ariscos. Bebamos esse sangue misturado as cascas e pedaços de peles mortas, vivas pelos machucados que o pior tombo nos dá. Já é tempo desse transe e dessa falsa lucidez invadirem a sala de espera com o pé na porta. Quero cabelos feitos de cobras e corpos como pinturas em óleo. Não somos donos de nossa existência, seria fácil demais se fosse assim. Essa terra cansou de ser usurpada com mentiras. Nossos pais deram as mãos em sofrimento, abismados com suas histórias e mais histórias de derrotas sucessivas. Abruptas vertigens de senso comum e moralidade barata. Filhotes mamando com uma fome dantesca em tetas que de tanto fornecer leite já não se sentem funcionais em dizer algo relevante. Cores frias e padrões de cenografia mortos, pálidos e sem a força bruta que um bumbo em dia de carnaval acorda em meu peito. Falácia assalariada e proletária. Discurso entregue à mais valia de entrar ou ficar esperando lá fora. Só peço em oração que continuem sem me entender, pra que eu possa falar cada vez mais com quem preciso conversar aqui. Dentro dessa sua humildade em devaneio, é na dificuldade que me levanto contra você. Te mando a merda e chego meu desgosto pro lado, viro outra página desse martírio e alugo um novo filme antigo. Não cheguei nem no meio da prosa que se transformou a crônica dor de ser feliz por ser assim tão descrente na vida.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Sem título
Atrás de tudo o que virou cinza, ainda tem espaço pra mais um maço de cigarros. Se minha boca está amarga é mais um motivo pra tomar outro gole de café. Minha lucidez pede atenção e perde espaço pro alucinante tempo que só o amor pode dar. Esse fuso horário diferente bagunça meu espaço, troca minhas distâncias e me deixa fora de casa mais tempo que o saudável sugere. Minha saúde é feita de tudo o que acredito. Tudo o que me fortalece são minhas crenças e só alguém bem estúpido seria inocente o bastante para querer brigar pela atenção que dou às minhas idéias. Não tenho previsão sobre como e quando te fazer feliz porque o simples fato de você estar viva já me enche de motivos pra sorrir. Deixe essa nossa beleza ser celebrada, a gente merece essa felicidade compartilhada. Se é pra ser feliz de uma vez por todas, a gente compra logo um sofá velho e consegue de graça vários motivos pra continuar dando certo do jeito leve que nós dois de forma tão inconsequente chegamos a sonhar.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
No balcão
O problema é que ninguém quer se fuder mais. Esse papo de sofrimento raso acabou enjoando quem tá chegando agora no mercado. Acho até que a proliferação do sentimentalismo barato espantou a garotada. Agora o negócio é se dar bem. Não dá mais pra perder tempo investindo em coisas que não te dêem a certeza de algo em troca. Impossível pensar em alguem saindo pra um programa lixo, ciente que a boa é exatamente a programação indígena mesmo. Isso me enoja, cara. Isso me dá na porra dos nervos. Ninguém quer sentir a porra do cheiro velho dos livros da biblioteca pública mais. Ninguém mais quer ler. Ninguém mais quer investir na porra de uma profissão, cara. Quando era pequeno eu lembro bem do imbecil do Régis, estagiando com o pipoqueiro só pra olhar o peito da mulherada nas noites de sábado. Ele ficava lá com o português ajudando a fazer sei lá o que e seu pagamento vinha em uma fila de seios fartos e pipoca doce misturada com metade salgada. Pergunta se ele se arrepende disso? Claro que não, cara. Mas hoje isso seria no mínimo passível de cadeia. Seria um português safado explorando um moleque inocente. Pro caralho com essa merda dessas afetações. Eu sinto falta da época em que os desenhos eram realmente violentos e ninguém abria fogo nas escolas por isso. Ou pelo menos o jornalismo marrom e barato ainda não dava tanta grana e talvez por isso, evitava-se esse tipo de sensacionalismo tosco em forma de matéria exclusiva. Não, não venha me dizer que sou mais um daqueles caras chatos que preferem o passado não. Só preciso olhar nos olhos de algum filha da puta e perceber beleza no sofrimento alheio. Porra. Vamos sofrer, vamos sofrer! Sofrer faz bem. E não é sofrimento EMO não. Não precisa pintar as unhas de preto ou passar lápis na merda dos olhos. Basta sentar na porra de um boteco ou banco de igreja e deixar vir. Basta sentar na porra de uma pedra e meditar ou num banco de praça e olhar um pouco o absurdo onde a gente vive. As pessoas só querem se amar feito insetos sugando seus próprios sangues, cara. Cadê o amor? E caralho, cadê a porra da minha cerveja, Zé?
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Twelves
Entre as colagens, coisas vão fazendo sentido. Entre ritmos, somos amigos e confidentes. Sigo pelo som que lembra outras consequências livres. Nesse ponto é tudo música e vibramos por isso. Nesse acaso vão fazendo sentido as quebras. Batidas que não nos machucam. Apenas nos libertam, quando salvam nossa noite. Pedimos permissão pra rir de tudo que não cerceia essa liberdade em nossos quadris. Somos criancas que pela manhã viram adultos, mas podem virar o que sua cabeça imaginar. Nosso pescoço está a prêmio e ninguém arranca essa nossa vontade de arriscar tudo por um lugar ao lado das caixas de som. Se vão-se os sentidos que voltam pedindo mais e mais, ao menos decidimos não censurar as novas vontades. Clássicas verdades de momento, que como pecados irresistíveis se ornamentam em cores vibrantes. Vão de boca em boca e de peito aberto em peito aberto. Pegam fogo como riachos de lava, represados no volume do grave que distorce orgãos e horários. Fica tudo mais claro. Todo nosso sofrimento não some, nem nunca ousou querer isso, apenas se embrulha numa leveza que o deixa menos pedante por algumas horas. A gente se reencontra com eles na saída, no meio do set ou na hora que ele resolver aparecer. Até porque ele é genuíno como essa felicidade que me invade em absinto. Se ninguém está querendo fugir de nada, a gente só não precisa de um motivo novo pra dançar que não seja uma música empurrando nosso coração pra fora do que você achar feio.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
12:27
Saiu sem dizer nada. Chegando ao balcão impediu que lhe fosse perguntado algo com um gesto, para continuar com olhos vidrados, a desbaratinar opções abraçadas pela poeira e vidro nas prateleiras. Amaciando os lábios secos com um gole de língua, retomou a concentração necessária pra definir seu companheiro nos próximos minutos de agonia. Esperava como a vida lhe ensinara. Deixava sua cabeça talhada em relevância, efervescida pelo que tivera conhecimento fazia apenas meia hora. Embebedava sua retórica com um pouco daquele líquido amargo, o suficiente para não tirar seus pensamentos do sutil espaço que separa a sobriedade do emocional relaxamento. Não estava ali para brincadeira como não estaria ali para nada além do seu objetivo, desde que o relógio jogara um 12:27 em seu colo, da parede oca do refúgio cinza a dois quarteirões dali.
Logo ela chegou com seu jeito colorido como a bermuda colada no corpo, denunciando-se aos bancos felizes que se ofereciam aos montes para sua carne em desfile, em seus deslizes de pensamento público. Era verde como todo o mato da serra e fria como todo o frio do sul. Seus olhos azuis eram como o cinza de São Paulo. Sua boca, vermelha como a urgência de uma criança. Era de uma falta de nexo sua beleza, que nem mesmo seria preciso afirmar a latente impossibilidade de definição do tipo de homem ideal para seu exílio num suposto casamento. Posto que sua atenção se voltara para minha camisa de botões com palmeiras e motivos havaianos, sequer tive noção de pena: preferi nublar sua cabeça com as nuvens pretas que minha retórica apressada, mas objetiva, trazia.
Acho que sim. Acho que ela percebera antes mesmo de meu tímido balbucio, que a chuva seria iminente em nossa vida. Uma chuva daquelas finas, que não passam nunca. Assim como nós não esqueceríamos jamais daquela esquina, daquela lanchonete ou daquele maldito 12:27 que nos separou pra sempre.
Logo ela chegou com seu jeito colorido como a bermuda colada no corpo, denunciando-se aos bancos felizes que se ofereciam aos montes para sua carne em desfile, em seus deslizes de pensamento público. Era verde como todo o mato da serra e fria como todo o frio do sul. Seus olhos azuis eram como o cinza de São Paulo. Sua boca, vermelha como a urgência de uma criança. Era de uma falta de nexo sua beleza, que nem mesmo seria preciso afirmar a latente impossibilidade de definição do tipo de homem ideal para seu exílio num suposto casamento. Posto que sua atenção se voltara para minha camisa de botões com palmeiras e motivos havaianos, sequer tive noção de pena: preferi nublar sua cabeça com as nuvens pretas que minha retórica apressada, mas objetiva, trazia.
Acho que sim. Acho que ela percebera antes mesmo de meu tímido balbucio, que a chuva seria iminente em nossa vida. Uma chuva daquelas finas, que não passam nunca. Assim como nós não esqueceríamos jamais daquela esquina, daquela lanchonete ou daquele maldito 12:27 que nos separou pra sempre.
terça-feira, 20 de maio de 2008
A medida do quê?
E a medida que o tempo vai passando vão surgindo aquelas novas possibilidades chatas de resolver os mesmos problemas de sempre de uma forma diferente. Se quero me alimentar daquelas coisas novas que te assustam ou das mesmas coisas velhas que pra você sempre foram pecado, já me sinto preso antes de colocar a roupa. Ou de tirar. O problema é não ver problema nisso, já que sei que vou acabar uma hora ou outra cagando mesmo pras algemas que a patrulha inocente que resolveu rondar minha retórica, faz. Fica fácil se afastar do que a gente não concorda quando não se acredita em quem profere o que pensa sem se importar com o que sinto. E a cada dia sigo sentindo mais e me aproximando dos meus planos mais bobos e das minhas metas mais sérias. Se te abraço agora é porque quero isso de verdade. Se te peço pra vir comigo, pode ter certeza que é seu dia de sorte. Esse tipo de coisa não dá pra se medir. Não podemos nem sequer saber a altura disso. Basta tentar olhar pra cima que só vejo um dia lindo ou uma nuvem preta ou uma baita lua cheia entre os quadrados de vidro que sua janela velha me apresenta como presente, como mosaico ou como pequenas medidas de perguntas que não precisam de resposta alguma. E a medida que o tempo vai passando vou esquecendo teorias. Se já nem preciso te ferir é porque tô curando esse meu jeito novo de me sentir velho de novo.
terça-feira, 13 de maio de 2008
O funcionário do mês - um estudo sobre o horror
“Era uma máquina grande e cheia de aparatos, joelhos, roldanas e tudo o mais que tivesse um nome técnico correto e mecânica suficiente para fazer aquilo funcionar. Apesar de todos os dias um ritual cerimonioso reiniciar o turno da noite, deixando aquele espaço inteiro teoricamente limpo, existiam gerações de moscas que não deixariam aquele galpão nem que aquela rotina tivesse sofrido um abalo sísmico cem anos atrás. Durante muito tempo em minha vida aquela cor vermelha foi a representação de agonia e de horror. O sangue humano não me causava grande medo, porque minhas lembranças de cortes na pele eram lembranças de brincadeira e traquinagens de menino, que fatalmente levavam a um ferimento ou outro. A morte também não me causava um medo maior que o vazio existencial, porque me foi apresentada como o sono preguiçoso que teimava em não deixar meu avô acordar. Ensinou-me uma tristeza linear sim, sóbria, que quase fez parte de meu centro de equilíbrio para o resto de meus dias, mas também não teria porque trazer-me horror. Chegava a ser bela. Mas o barulho daquela máquina não. E aqueles trágicos urros de dor abafados, só confirmavam isso, desaguando por uma porta grande e mal vigiada como uma espécie de convite tentador para um garoto na idade dos “porquês”. Foi tal curiosidade que me apresentou a bugiganga gigante que transtornada, rodava o gado castigado como um brinquedo por 360º, já sem partes de órgãos na altura do pescoço retirados sem qualquer nexo e jogados ao chão junto de seus corpos combalidos, num espaço de cerâmica ao solo ainda em vida. Os funcionários dali, com uniformes de um amarelo alegre e vivo, se enchiam de contraste diante daquele sangue animal de um vermelho lúgrube e carregado, deslizando meloso em seus trajes. Ali dentro eu chorei como a criança que de fato, eu era. Me perdi na falta de sentidos que aquilo tudo representava para mim e já no quarto, longe de lá, não conseguia mais sentir medo dos monstros de minha cama ou dos psicopatas que permeavam a leitura já adulta demais que acabava sempre conseguindo emprestada com primos mais velhos. O terror viraria comédia e aquele horror permaneceria para sempre comigo como uma espécie de testemunha da perda de minha ingenuidade.”
Releu o texto no laptop mexendo em partes alternadas, durante os 15 minutos seguintes. Conseguira comprar o objeto pesado juntando as economias de 1 ano e meio de trabalho. Saiu do restaurante de uma rede de fast-foods admirando sua foto na parede. Era um estúpido funcionário do mês atormentado pelas lembranças da infância, ainda mastigando o último pedaço de um hambúrguer já frio e com textura semelhante a de um isopor, correndo apressado para não perder o último trem do dia.
Releu o texto no laptop mexendo em partes alternadas, durante os 15 minutos seguintes. Conseguira comprar o objeto pesado juntando as economias de 1 ano e meio de trabalho. Saiu do restaurante de uma rede de fast-foods admirando sua foto na parede. Era um estúpido funcionário do mês atormentado pelas lembranças da infância, ainda mastigando o último pedaço de um hambúrguer já frio e com textura semelhante a de um isopor, correndo apressado para não perder o último trem do dia.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Deixa estar
E se já sinto que não sei nada sobre a gente, é quando mais me sinto seguro em pisar firme. Aperto a chave no bolso com aquela convicção de que não preciso mais de um dia de sol pra salvar meu dia. Abro espaço dentro de todas as minhas falsas percepções do que em algum momento foi considerar perfeito estar ao teu lado. Agora estou assim, metido a estar feliz por pequenas coisas. Só fico irritado quando você quer me levar da pista antes do sol invadir a janela ao lado da caixa de som. Ainda insisto em deixar claro que prefiro muito mais o rock em meus ouvidos, mas você me faz rir dizendo que minha fase eletrônica já deixou guitarras comendo poeira faz tempo. Não dá pra negar que as coisas parecem acontecer rápidas demais e quando tudo o mais parece lento, nem dá tempo de aproveitar. Mas esses novos tempos seguem parecendo tão antigos quando me invadem com o aconchego de acreditar no que parecia estar adormecido. E é justamente quando sei que posso mudar de uma hora pra outra, que não me cobro mais. Não seria justo comigo. Sei que minha cabeça gira rápida como um foguete perdido e confesso: já cansei de acompanhar esse roteiro nem sei quanto tempo faz. Tenho certeza de que essa mania de achar defeito em belas histórias é o meu peito de jogador ou minha insegurança de merda, agindo. Fico com raiva de ainda achar um tanto quanto sexy essa roleta de dados em toda relação com meu nome na ficha. Mas se minha mão segue se enchendo de boas cartas, a mesa vai sendo minha e ainda posso parar de jogar quando bem entender, deixa estar. Deixo esse tempo de poesia exata para trás. Deixo esse tempo de não atender o celular para trás. Deixo alguns gigabytes de músicas para trás também. Jogo na lixeira todo o tempo latente que não quero perder por agora, se é hora de me jogar mais em tudo o que me instiga assim como você.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Por hora é só
Vamos fazer um pouco de música, falar besteira e queimar alguns papéis. Jogar fora tudo o que soa denso demais pra uma sexta feira à noite. Vamos dormir e desligar as preocupações sobre quem vai poder entrar ou não. Pelo menos vamos representar, vamos fingir. Chega de nervosismo por nada. Trocamos de amigos por uma semana e já pegamos um caminho diferente de volta pra casa. Ou nem voltamos. Paramos de ligar praquelas coisas que continuam insistindo enfiar em nossas cabeças, que nem são coisas assim tão válidas a ponto de se ligar. Um pouco de mp3, um pouco de distorção e uma garrafa de vinho. Algumas garrafas de vinho. Uma rede e uma imagem do cristo. Um monte de livros antigos. Coisas que possam fazer valer um pouco mais cada minuto que a gente passe junto. Pode gritar comigo ou arrumar mais uma dessas discussões ridículas pra nossa coleção. Ou pode ficar assim passiva pedindo um pouco mais de carinho com os olhos, enquanto procuro outra música no youtube. Pode sentir vergonha de alguns de meus textos antigos também, mas não peça minha permissão pra achar mais do que tesão e suor em tudo o que quero com você por hora. E por hora é só.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Soneto do início
A gente deixa a janela aberta
e convida os barulhos da rua pra dentro.
Entre sons de pneus amaciando pedra
e aquela orquestra feita de chuva,
que inclusive vem com cheiro bom,
nos entendemos bem.
Mais um filme que devolvemos sem ver,
mais uma tarde que a gente nem vê passar.
Fica mais fácil esperar o que nem sabemos se virá,
quando combinamos esquecer a época
em que esse tipo de coisa insistia em importar.
Agora somos nós sem medo do erro,
ou quase.
Sem pedidos de garantia,
vacilando inocentemente de propósito
só pra deixar tudo mais bonito.
E fica tudo menos fake,
são menos bandas novas pra se ouvir
e menos poses em dia de lua.
É sol e temos tempo de errar porque tudo é começo.
É dia e temos a semana pela frente porque tudo é começo.
Pega um pouco d’água e vem pra cá com essa tua risada leve.
Porque agora tudo é começo.
e convida os barulhos da rua pra dentro.
Entre sons de pneus amaciando pedra
e aquela orquestra feita de chuva,
que inclusive vem com cheiro bom,
nos entendemos bem.
Mais um filme que devolvemos sem ver,
mais uma tarde que a gente nem vê passar.
Fica mais fácil esperar o que nem sabemos se virá,
quando combinamos esquecer a época
em que esse tipo de coisa insistia em importar.
Agora somos nós sem medo do erro,
ou quase.
Sem pedidos de garantia,
vacilando inocentemente de propósito
só pra deixar tudo mais bonito.
E fica tudo menos fake,
são menos bandas novas pra se ouvir
e menos poses em dia de lua.
É sol e temos tempo de errar porque tudo é começo.
É dia e temos a semana pela frente porque tudo é começo.
Pega um pouco d’água e vem pra cá com essa tua risada leve.
Porque agora tudo é começo.
terça-feira, 8 de abril de 2008
14 tatuagens
Contei e ao todo eram 17 tatuagens. Olhava os detalhes e ainda assim não conseguia lembrar o que fazia no dia em que pintei meu destino com cada uma delas. Um cheiro de cerveja velha permanecia no ar, aquele lugar nunca tivera a chance de sentir outra forma de aroma. Um maldito som com uma batida grave e distorcida vinha e voltava com o vento pela janela. Estavam todos presos e eu ali naquele hotel. Estavam todos se fudendo e eu ali como um maldito relógio, esperando minha vez de ser trancafiado ou morto numa tentativa de fuga. Minha insegurança podia prever o futuro. Sempre achei astrologia coisa de charlatão, mas ali eu era capaz de prever friamente que erraria todos os tiros. Talvez com sorte, se mirasse no quadro do banheiro acertaria o peito do primeiro filho da puta que atravessasse aquela porta. Minto. Lembro-me sim da nona tatuagem. Era minha santa, minha protetora. Uma vez li numa dessas revistas metidas a explicar a história contemporânea, que essa característica de tatuar ícones religiosos era coisa de latinos. Eu não era latino. Era italiano. Era um merda de um italiano. Um italiano que não podia prever o futuro, mas podia enxergar minha mãe chorando ao lado de alguma janela em algum bairro do subúrbio. Esperando-me chegar, cheia de lágrimas nos olhos. Com aquele mesmo copo cheio de saliva seca e batom doce nas bordas. O mesmo uísque. O mesmo meio lexotan. Ela seria capaz de fazer qualquer coisa pra me tirar dali. Qualquer coisa.
Meu coração batia cada vez mais acelerado. Aquela música de gueto vinha e voltava com o vento. Contei novamente. Realmente eram 17 tatuagens. Cheguei ao hospital com 14. Meu braço ficou lá naquele quarto com cheiro de cerveja velha. Cheio de anéis e uma poça de sangue contida. Bela saraivada nos ombros aquele merda acertou. Não deu tempo nem de mirar na porra do quadro do banheiro.
Meu coração batia cada vez mais acelerado. Aquela música de gueto vinha e voltava com o vento. Contei novamente. Realmente eram 17 tatuagens. Cheguei ao hospital com 14. Meu braço ficou lá naquele quarto com cheiro de cerveja velha. Cheio de anéis e uma poça de sangue contida. Bela saraivada nos ombros aquele merda acertou. Não deu tempo nem de mirar na porra do quadro do banheiro.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Pelo calor
E se já sinto querer você
que nem sei direito quem é,
assim me sinto menor.
Mas assim mesmo me sinto vivo
quando percebo que minha outra história
não chegou ao fim,
só é hora de sair de mim.
Se o violão me traz àquela hora sem cor,
é por causa dessa sua roupa que nem entendo,
com seu jeito bem menos bonito.
Com esse céu cinza que não combina com o dia lindo
que fez quando li aqueles textos
ou te beijei errado na madrugada.
Nada combina.
Não combina a gente afastado assim,
como nunca combinou a gente fazendo planos juntos.
Não combina minha cabeça perceber
que nunca era pra ter sido.
Não combina você mais uma vez
dando desculpas esfarrapadas pra gente não ficar junto,
quando o que seria muito mais bonito de dizer,
você não diz.
Diga não, moça.
Diga nunca.
Viva o risco sem a vergonha.
Passe suas dúvidas pra mim
que transformo em poesia.
Ou sofro, sei lá.
Mas, não mais.
Não mais agora.
Na verdade não me passe mais nada.
Não me passe mais nada
se agora o que quero
é passar sem você.
Esse dia de chuva combina com o que sinto.
A carona combina com o que sinto.
Mais uma vez sem você num final de noite,
combina com a gente.
Às vezes acho que posso perceber
seus momentos de fraqueza e dúvida.
Mas agora quero você
como quem quer uma amiga.
Sei que agora ainda quero teu sexo,
mas é por esse calor que me faz escrever.
É por esse calor que me faz estar vivo.
É por esse calor que faz minhas chegadas
serem repletas de perguntas sem respostas.
É pelo calor que dá tanta sede.
Que me dá tanta fome de querer descobrir
sem me importar se vai dar certo ou não.
Assim como quis você.
Como eu quis te amar.
Como eu quis chorar no teu colo.
Como eu quis.
Mesmo sabendo que com você
não haveria sequer motivos pra chorar.
Mas agora quem chora não sou eu.
Agora são somente essas nuvens pretas
que deixam tudo mais bonito.
Agora é essa chuva.
Agora é esse céu chorando,
cobrando cada atitude minha
em cada trovoada.
Agora é outra amiga apaixonada que chega
e vejo como está bonita.
Vejo como seus olhos estão radiantes.
E isso é bom.
Mas aí percebo como você está estranha
com essa sua roupa que não entendo.
E percebo que você deu tanto valor
pras coisas que menos te deram coisas em troca.
E me dá uma vontade danada de te salvar.
Logo eu, tão perdido.
Então já quero ser seu amigo de novo
e esqueço esse papo raso de salvação.
Afinal quero te ver bem porque ainda te amo.
Quero te ver bem porque talvez no futuro
não consiga explicar metade das coisas
que agora escrevo sem esses freios tolos
que travam nossos erros.
Quero-te bem mulher.
Quero-te forte.
Mas agora te quero longe de mim.
que nem sei direito quem é,
assim me sinto menor.
Mas assim mesmo me sinto vivo
quando percebo que minha outra história
não chegou ao fim,
só é hora de sair de mim.
Se o violão me traz àquela hora sem cor,
é por causa dessa sua roupa que nem entendo,
com seu jeito bem menos bonito.
Com esse céu cinza que não combina com o dia lindo
que fez quando li aqueles textos
ou te beijei errado na madrugada.
Nada combina.
Não combina a gente afastado assim,
como nunca combinou a gente fazendo planos juntos.
Não combina minha cabeça perceber
que nunca era pra ter sido.
Não combina você mais uma vez
dando desculpas esfarrapadas pra gente não ficar junto,
quando o que seria muito mais bonito de dizer,
você não diz.
Diga não, moça.
Diga nunca.
Viva o risco sem a vergonha.
Passe suas dúvidas pra mim
que transformo em poesia.
Ou sofro, sei lá.
Mas, não mais.
Não mais agora.
Na verdade não me passe mais nada.
Não me passe mais nada
se agora o que quero
é passar sem você.
Esse dia de chuva combina com o que sinto.
A carona combina com o que sinto.
Mais uma vez sem você num final de noite,
combina com a gente.
Às vezes acho que posso perceber
seus momentos de fraqueza e dúvida.
Mas agora quero você
como quem quer uma amiga.
Sei que agora ainda quero teu sexo,
mas é por esse calor que me faz escrever.
É por esse calor que me faz estar vivo.
É por esse calor que faz minhas chegadas
serem repletas de perguntas sem respostas.
É pelo calor que dá tanta sede.
Que me dá tanta fome de querer descobrir
sem me importar se vai dar certo ou não.
Assim como quis você.
Como eu quis te amar.
Como eu quis chorar no teu colo.
Como eu quis.
Mesmo sabendo que com você
não haveria sequer motivos pra chorar.
Mas agora quem chora não sou eu.
Agora são somente essas nuvens pretas
que deixam tudo mais bonito.
Agora é essa chuva.
Agora é esse céu chorando,
cobrando cada atitude minha
em cada trovoada.
Agora é outra amiga apaixonada que chega
e vejo como está bonita.
Vejo como seus olhos estão radiantes.
E isso é bom.
Mas aí percebo como você está estranha
com essa sua roupa que não entendo.
E percebo que você deu tanto valor
pras coisas que menos te deram coisas em troca.
E me dá uma vontade danada de te salvar.
Logo eu, tão perdido.
Então já quero ser seu amigo de novo
e esqueço esse papo raso de salvação.
Afinal quero te ver bem porque ainda te amo.
Quero te ver bem porque talvez no futuro
não consiga explicar metade das coisas
que agora escrevo sem esses freios tolos
que travam nossos erros.
Quero-te bem mulher.
Quero-te forte.
Mas agora te quero longe de mim.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Passado presente
Pego um táxi e você fica para trás. Ali num passado presente, ainda tão difícil de dissociar da lista das coisas que mais gosto. Conheço pessoas diferentes, com anseios novos, medos antigos e aquelas mesmas utopias inocentes que me encantam. A gente vai ficando assim mais velho, ficando meio bobo, meio encantado demais com aquelas novidades que não se impõem, chegam sem forçar a barra. São sentimentos de uma doação sem aquela pretensão de pedir algo em troca. Mesmo que seja apenas um ainda. Um estágio inicial que carrega um frescor, em sintonia com novos cheiros, novas músicas e com as novas histórias que preciso. Vou desafogando e minha alma se purificando enquanto você fica pra trás. Vão passando jardins, grafites e pessoas em pontos de ônibus. Vão passando árvores, pássaros e a cor do asfalto. Vão passando as decisões que preciso tomar todos os dias e uma nova trilha segue encantando meu peito, com o francês e esse hebraico que não deixa meus ouvidos mais em paz. Ainda sinto você aqui perto de mim, mesmo tão longe. Ainda sinto muitas coisas e isso é bom. Essa capacidade de me emocionar ou a forma como os pêlos de meus braços se eriçam não deixam dúvidas quanto àquilo que sinto. Toda minha poesia foi feita pra te abraçar e me sinto mais homem assim. Sinto-me completo assim. Por mais que você a cada dia vá ficando mais e mais para trás. Num passado tão presente.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Notas do cotidiano nº36
O inferno deve estar cheio de restaurantes a quilo. Não existe lugar que represente mais o comodismo derrotista da individualidade humana. Velhas decrépitas sebosas carregadas por suas babás grosseiras bipolares chegam como crianças famintas em um fast food. Às vezes vêm de roupão, vindas da hidroginástica, às vezes com vestidos opacos cheios de manchas da sopa da janta do dia anterior. Atravancando a fila, vão deixando seus restos pelo caminho como quem divide uma herança que ninguém pediu para receber. São fios de cabelo em tonalidades de cinza variadas e pedaços de coisas indecifráveis grudadas em suas peles durante um tempo predeterminado o suficiente para cair nas bandejas seguintes. Além de cascas de feridas, um monte de cascas, cascas suficientes pra alimentar uma indústria de seitas de magia negra.
Com a irritante mania que a maturidade consumista criou, todos ali se vêem no direito de tocar, trocar, cheirar e até lamber a comida na fila de composição de seus pratos. Parece tudo liberado, bastando um pouco de imaginação, falta de senso e o fantasma de algum advogado de direitos do consumidor a tira colo. Do jeito que mexem na comida que não necessariamente vão levar, a impressão é que você está condenado a comer sempre alguma coisa que não passou pelo teste de qualidade da pessoa a sua frente.
Crianças parecem desenvolver centenas de dedos, já que não se contentam com seus irritantes sorrisos mesclados em choros, momentos de fúria e gozo quase sem limite de lógica no tempo e espaço. Elas estão ali como polvos descobrindo os prazeres do sentido do tato. Correm aonde não existe espaço e se mantém no limite de provocar um desastre. Às vezes sonho com uma cena dantesca: uma bandeja de feijão quente cai sobre minhas pernas e como uma espécie de ácido, segue derretendo meus jeans surrados. Acredite, não acho a mínima graça nisso. Meu analista diz que a falta de ferro que o feijão acaba me privando, fora de minha dieta desde que o sonho tornou-se recorrente, contribui pra minha aversão às traduções francesas dos obrigatórios russos de minha biblioteca. Eu acho isso pura frescura e continuo sem dizer que já voltei a comer feijão só para escutar esse tipo de observação tola e sem sentido que segue dragando meu dinheiro a cada nova sessão.
Têm as mulheres depressivas também, geralmente secretárias, bibliotecárias ou apenas mal comidas com sujeira de batom nos dentes. Entram na fila com suas grandes preocupações sempre alimentando a existência e seus manequins vazios: gordura, gordura e gordura. Acabo simpatizando mais com as gordinhas e suas misturas coloridas nonsense de carboidratos com proteínas. Uma vez uma dessas ancudas preparou uma verdadeira obra de arte, que culminava com um quilo de purê de batata, mais o grand finale: um imponente e grandioso morango em cima de tudo, num cume de uma aberração tão sem sentido que quase me forçou a pedi-la em casamento.
Mas confesso que nada até hoje superou um yuppie no final do verão passado. O cara surtou. Acho que trabalhava no mercado financeiro, mas comia ali de vez em quando por algum desses motivos que a gente nunca vai saber direito. Naquele dia de sol acachapante o bacana escondeu a própria pica no meio de dois rolinhos primavera e entregou o prato pra moça do peso. Antes de ser contido por meia dúzia de heróis do meio-dia, ainda conseguiu a proeza de arriar suas calças até os joelhos, terminando o tal número de circo sentado em uma travessa de pudim. Aquilo foi realmente estranho, mas deu mais sentido ao gosto de traseiro que a sobremesa daquele lugar sempre me lembrou.
Com a irritante mania que a maturidade consumista criou, todos ali se vêem no direito de tocar, trocar, cheirar e até lamber a comida na fila de composição de seus pratos. Parece tudo liberado, bastando um pouco de imaginação, falta de senso e o fantasma de algum advogado de direitos do consumidor a tira colo. Do jeito que mexem na comida que não necessariamente vão levar, a impressão é que você está condenado a comer sempre alguma coisa que não passou pelo teste de qualidade da pessoa a sua frente.
Crianças parecem desenvolver centenas de dedos, já que não se contentam com seus irritantes sorrisos mesclados em choros, momentos de fúria e gozo quase sem limite de lógica no tempo e espaço. Elas estão ali como polvos descobrindo os prazeres do sentido do tato. Correm aonde não existe espaço e se mantém no limite de provocar um desastre. Às vezes sonho com uma cena dantesca: uma bandeja de feijão quente cai sobre minhas pernas e como uma espécie de ácido, segue derretendo meus jeans surrados. Acredite, não acho a mínima graça nisso. Meu analista diz que a falta de ferro que o feijão acaba me privando, fora de minha dieta desde que o sonho tornou-se recorrente, contribui pra minha aversão às traduções francesas dos obrigatórios russos de minha biblioteca. Eu acho isso pura frescura e continuo sem dizer que já voltei a comer feijão só para escutar esse tipo de observação tola e sem sentido que segue dragando meu dinheiro a cada nova sessão.
Têm as mulheres depressivas também, geralmente secretárias, bibliotecárias ou apenas mal comidas com sujeira de batom nos dentes. Entram na fila com suas grandes preocupações sempre alimentando a existência e seus manequins vazios: gordura, gordura e gordura. Acabo simpatizando mais com as gordinhas e suas misturas coloridas nonsense de carboidratos com proteínas. Uma vez uma dessas ancudas preparou uma verdadeira obra de arte, que culminava com um quilo de purê de batata, mais o grand finale: um imponente e grandioso morango em cima de tudo, num cume de uma aberração tão sem sentido que quase me forçou a pedi-la em casamento.
Mas confesso que nada até hoje superou um yuppie no final do verão passado. O cara surtou. Acho que trabalhava no mercado financeiro, mas comia ali de vez em quando por algum desses motivos que a gente nunca vai saber direito. Naquele dia de sol acachapante o bacana escondeu a própria pica no meio de dois rolinhos primavera e entregou o prato pra moça do peso. Antes de ser contido por meia dúzia de heróis do meio-dia, ainda conseguiu a proeza de arriar suas calças até os joelhos, terminando o tal número de circo sentado em uma travessa de pudim. Aquilo foi realmente estranho, mas deu mais sentido ao gosto de traseiro que a sobremesa daquele lugar sempre me lembrou.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Dali de onde ainda não dá pra me ver
Por trás dessa vontade de digerir meus textos ainda insistem existindo, uma penca de coisas pela frente. E ao contrário da obviedade sem sal associativa, dá pra enxergar muita coisa ali daquele ponto meio novo, discretamente ingênuo, meio na lanterna: daquele lugar de quem chegou agora na minha vida. Esse caminho todo que você pode querer percorrer não é tão emocionante como pensas. É cheio das histórias como as que a gente conta um pro outro quase de brincadeira, depois de tanta felicidade dividida, olhando pro teto e sem a menor vontade de entender o mundo logo ali fora. Normal que seja assim, estranho seria vestir-se como um soneto pedante e medroso, cheio de botões pra desabotoar, rimas mansas, declamações em mesas de bares da moda ou cheio de falsas verdades pra se redimir.
Esse caminho todo é menos perigoso do que pensas também. Até porque ele é completa e cuidadosamente moldado pra ser assim. A antologia do poetinha já diria isso como uma espécie de alcorão, bíblia ou guardanapo manchado, antes de sequer nos permitirmos provar desse mal. É um desastre certo que não chega a pedir, porque clama. É choro de profusão e fluído que se espalha entre nossos corpos nus e por cima de tudo o que nunca mais vai fazer sentido depois de provarmos cheios de curiosidade, aquilo que deixamos acontecer. Fica combinado que pro dia nascer feliz a gente precisa de bem menos que isso. Acaba sendo sempre muito mais do que imaginamos. Parece fácil, mas é uma pena só percebermos tal coisa quando estamos com as mãos tão atadas fora de nós. Com passagens de volta tão racionalmente reservadas, chegando a flertar com uma silenciosa rebeldia tediosa.
É de uma sujeira apaixonante esse pedaço de preguiça gostosa que me invade. Anda tudo tão rápido ultimamente que dou de ombros. Solto aquele riso gostoso de quem estava tão acostumado ao erro, que acabou deixando tudo virar um emaranhado de acertos levianos. Nem tenta me entender, as respostas mais completas que tenho estão bem ali: num lugar onde ainda não dá pra me ver.
Esse caminho todo é menos perigoso do que pensas também. Até porque ele é completa e cuidadosamente moldado pra ser assim. A antologia do poetinha já diria isso como uma espécie de alcorão, bíblia ou guardanapo manchado, antes de sequer nos permitirmos provar desse mal. É um desastre certo que não chega a pedir, porque clama. É choro de profusão e fluído que se espalha entre nossos corpos nus e por cima de tudo o que nunca mais vai fazer sentido depois de provarmos cheios de curiosidade, aquilo que deixamos acontecer. Fica combinado que pro dia nascer feliz a gente precisa de bem menos que isso. Acaba sendo sempre muito mais do que imaginamos. Parece fácil, mas é uma pena só percebermos tal coisa quando estamos com as mãos tão atadas fora de nós. Com passagens de volta tão racionalmente reservadas, chegando a flertar com uma silenciosa rebeldia tediosa.
É de uma sujeira apaixonante esse pedaço de preguiça gostosa que me invade. Anda tudo tão rápido ultimamente que dou de ombros. Solto aquele riso gostoso de quem estava tão acostumado ao erro, que acabou deixando tudo virar um emaranhado de acertos levianos. Nem tenta me entender, as respostas mais completas que tenho estão bem ali: num lugar onde ainda não dá pra me ver.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Sol
Seu abraço fácil me dá coragem pra assumir riscos que nunca quis experimentar. Meus momentos de crise ao seu lado viram fetiche e voltam-se pra mim em forma de palavras lindas, que brigam pra descansar junto aos meus papéis. Seu sorriso largo se encaixa nos meus sonhos de criança, que amadurecem toda vez que a gente renega esse amor doente. Sentimento que talvez vá ficando de pé por nunca querer ficar bom. A gente se cura quando admite que não se basta, mas a gente se procura. Não penso em como não seria, pois o vazio me permitiria mergulhar mais fundo sem você. Descanso dentro dessa nossa desgraça e me encanto com meu jeito forte de ser tão fraco, quanto estou perto de te ver. Seus olhos me conjugam com uma força imensa. Parece que já nascem como um Sol cheio de amigos em volta. Como dias de um hipnótico verão sem fim, eles continuam se pondo em meio à lama de uma noite de festa mal vivida. Queria ter menos controle sobre tudo isso. Porque a verdade é clara quando me sacode mostrando que tenho todo o controle do mundo. Isso me assusta. Todo esse papel passional é uma forma de demonstrar o que sinto. Um meio cordial de continuar servindo de chão, mas com uma força que pode derrubar todos os sonhos que nós dois já tivemos na vida. Comigo é pra sempre, seja lá o que isso significar. Não tenho o menor problema com cobranças porque nunca acreditei em quem as faz. Gosto desse tipo de provocação porque minha paixão é breve. Minhas paixões são breves. Só amei você na vida. E até que o dia de hoje termine, essa será minha mentira mais sensata. Minha incoerência é querer você assim.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Clandestino de mim mesmo
Sento e apago o que escrevi três vezes seguidas. Vou até a metade da lauda e jogo tudo fora. Tudo parece artificial, montado, quase uma novela ou um tipo de folhetim que me irrita. É como se estivesse evitando escrever sobre o que realmente quero. Não preciso me enganar. Não mais. Tô cansado de saber que escrevo quase sempre atormentado pelo que tô sentindo no momento. É uma doentia forma de terapia, eu sei. Mas tô cagando pra isso. Não olho pra tua foto porque não tenho nenhuma. Penso como seria melhor ter uma ao invés de me torturar com a imagem que tenho de você em minha cabeça. Nela eu não te vejo. Na verdade vejo tudo preto porque a imagem que tenho de você é a mesma sensação de quando estamos fazendo amor. As melhores partes pra mim são quando tô de olhos fechados. Isso apesar de adorar quase de forma doentia olhar seu corpo nu deitado em minha cama. Toda suada. Seria melhor ter uma foto empoeirada pra queimar com um cigarro acesso ou jogar fora depois de rasgar em duas ou três partes. Mais que isso soaria meio gay.
Concentro-me depois de fumar quase meio maço de cigarros e começo a escrever novamente um desses meus textos doentios que só servem pra me acalmar um pouco antes de dormir. Demorei um tempo pra perceber como eles funcionavam muito melhor do que remédios ou uma ponta. Olho um short meu caído no chão junto de meias suadas e uma camisa pendurada na maçaneta do banheiro. Dá pra ver da minha cadeira nesse meu conjugado do tamanho de uma caixa de fósforos. Sinto falta das corridas de vez em quando. Fico lembrando da época em que não fumava, acho que tinha mais gás. Olho pro Nevermind pregado na parede e me sinto tão velho que seria capaz de admitir até que não ligo mais pra isso. Não ligo pra muita coisa depois que a gente tentou tanto pra desistir no final. Sinto-me uma espécie de clandestino de mim mesmo e penso em voz alta sobre qual será o próximo projeto que vou me enfiar. Pergunto-me onde vão parar minhas tatuagens que nunca termino e porque gosto tanto desse fracasso que me ronda, num refluxo que me puxa do topo pra baixo e do limbo pro cume sem eu nem perceber em questão de segundos. Porque eu tenho que comer ela se quero você? Não. Desisto de ficar me perguntando coisas. Da última vez que tentei isso quase entrei numa espiral sem volta. Prefiro continuar sem me esconder de meus sentimentos e agitar aquela viagem que já tava fazendo aniversário pra sair. Vou entregar as chaves dessa merda e partir pra uma nova trip. Não tô desistindo de nada, nem desistindo de você. Não conseguiria mesmo. Tô precisando é de uma tela bem grande e sentir o cheiro do meu novo livro no prelo. Como isso me dá saúde. Lembro até hoje do primeiro. Eu na gráfica, sentindo aquele cheiro de tinta mesmo com o nariz branco de tanto pó. Finalmente havia sido publicado. Podia me considerar um escritor.
Concentro-me depois de fumar quase meio maço de cigarros e começo a escrever novamente um desses meus textos doentios que só servem pra me acalmar um pouco antes de dormir. Demorei um tempo pra perceber como eles funcionavam muito melhor do que remédios ou uma ponta. Olho um short meu caído no chão junto de meias suadas e uma camisa pendurada na maçaneta do banheiro. Dá pra ver da minha cadeira nesse meu conjugado do tamanho de uma caixa de fósforos. Sinto falta das corridas de vez em quando. Fico lembrando da época em que não fumava, acho que tinha mais gás. Olho pro Nevermind pregado na parede e me sinto tão velho que seria capaz de admitir até que não ligo mais pra isso. Não ligo pra muita coisa depois que a gente tentou tanto pra desistir no final. Sinto-me uma espécie de clandestino de mim mesmo e penso em voz alta sobre qual será o próximo projeto que vou me enfiar. Pergunto-me onde vão parar minhas tatuagens que nunca termino e porque gosto tanto desse fracasso que me ronda, num refluxo que me puxa do topo pra baixo e do limbo pro cume sem eu nem perceber em questão de segundos. Porque eu tenho que comer ela se quero você? Não. Desisto de ficar me perguntando coisas. Da última vez que tentei isso quase entrei numa espiral sem volta. Prefiro continuar sem me esconder de meus sentimentos e agitar aquela viagem que já tava fazendo aniversário pra sair. Vou entregar as chaves dessa merda e partir pra uma nova trip. Não tô desistindo de nada, nem desistindo de você. Não conseguiria mesmo. Tô precisando é de uma tela bem grande e sentir o cheiro do meu novo livro no prelo. Como isso me dá saúde. Lembro até hoje do primeiro. Eu na gráfica, sentindo aquele cheiro de tinta mesmo com o nariz branco de tanto pó. Finalmente havia sido publicado. Podia me considerar um escritor.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
A cara da morte
A morte sempre foi meio afastada da minha vida. O próprio jeito que cheguei ao mundo foi meio confuso já que cresci não sabendo direito se minha mãe era viva ou sequer se tinha uma. Certa vez olhando pela janela à noite com minha Vó ao lado, ainda criança, apontei pra rua e perguntei se tinha nascido do asfalto. Tipo surgido do nada, de dentro da terra mesmo (que pra mim era dividida entre pedras portuguesas e asfalto, praticamente). Ela ficou meio confusa e explicou uma história que deve ter sido bem chata, principalmente porque minha pergunta nunca abandonou meus pensamentos, já sua resposta não deve ter durado em minha cabeça nem até o sinal abrir e os carros acelerarem passando por cima de meu suposto marco zero. A verdade é que crescer sempre me pareceu o mais próximo da morte que pude chegar. Abandonar a inocência da infância, exorcizar remakes de experiências passadas ou juntar quebra-cabeças que antes seriam impossíveis devido a pouca idade ou menor capacidade intelectual, são episódios que sempre carregaram um grande sentido de morte pra mim. Mas uma morte nada sombria e carregada de renascimento.
Sinto-me ainda muito filho quando penso que não perdi quase ninguém das pessoas que mais amo. Sinto-me ainda mais criança quando bato o pé e cismo não querer perder. Lidar com perdas nunca foi muito o meu forte, mas coleciono minhas derrotas de uma forma que beira a vaidade absurda. O lado menos afetado dessa constatação é que jamais consegui ser a mesma pessoa depois de algumas das belas e incontáveis perdas ou fracassos pessoais. Já inclusive cheguei a me considerar um fracasso ambulante, mas depois desencanei disso. Até porque parece papo de rebelde plantado. Mais fake impossível.
A cara da morte ainda é uma dúvida pra mim. Uma mistura de não me sentir mais imortal, como todo jovem se acha, com certa constatação de que estou ficando mais velho. Isso não soa nem um pouco repressor pra mim, mas soa. Antes não soava. Antes era só uma coisa distante. Antes a morte era a foto amarelada de meu avô, italiano aguerrido que morreu antes de me ver nascer. A morte pra mim era o passado. Era o tricampeonato que cismava em não virar tetra. Mas assim como quem não marca hora, nem prepara terreno, ela de repente surgiu. De repente a morte ficou presente e bagunçou um pouco minha cabeça. De repente tive que ser muito mais forte do que sou e fornecer meu peito, além de todo amor que posso dar. De repente deu uma vontade danada de dizer eu te amo e carregar no colo uma pessoa pra sempre. Aprendi que a morte não tem cara, mas a vida segue e essa sim, tem a cara que a gente quiser que ela tenha.
Sinto-me ainda muito filho quando penso que não perdi quase ninguém das pessoas que mais amo. Sinto-me ainda mais criança quando bato o pé e cismo não querer perder. Lidar com perdas nunca foi muito o meu forte, mas coleciono minhas derrotas de uma forma que beira a vaidade absurda. O lado menos afetado dessa constatação é que jamais consegui ser a mesma pessoa depois de algumas das belas e incontáveis perdas ou fracassos pessoais. Já inclusive cheguei a me considerar um fracasso ambulante, mas depois desencanei disso. Até porque parece papo de rebelde plantado. Mais fake impossível.
A cara da morte ainda é uma dúvida pra mim. Uma mistura de não me sentir mais imortal, como todo jovem se acha, com certa constatação de que estou ficando mais velho. Isso não soa nem um pouco repressor pra mim, mas soa. Antes não soava. Antes era só uma coisa distante. Antes a morte era a foto amarelada de meu avô, italiano aguerrido que morreu antes de me ver nascer. A morte pra mim era o passado. Era o tricampeonato que cismava em não virar tetra. Mas assim como quem não marca hora, nem prepara terreno, ela de repente surgiu. De repente a morte ficou presente e bagunçou um pouco minha cabeça. De repente tive que ser muito mais forte do que sou e fornecer meu peito, além de todo amor que posso dar. De repente deu uma vontade danada de dizer eu te amo e carregar no colo uma pessoa pra sempre. Aprendi que a morte não tem cara, mas a vida segue e essa sim, tem a cara que a gente quiser que ela tenha.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Um pouco de cada uma dessas coisas que nem sei dizer o nome
Enquanto como um pedaço de pão, tomo um gole torto dum café amargo adoçado sem açúcar. Leio o jornal sem ler, deixo tudo ali desarrumado e saio. Os farelos me olham de soslaio, enquanto fecho a porta com o mesmo barulho de sempre, aquele que te irrita. Na rua piso em poças que dançam enquanto viro rápido pra chamar aquelas rodas gigantes. Entro na dança do coletivo apertado, que apressado vai guiando carreiras bem devagar, pelo trânsito abafado da cidade menos suja. Na janela cheia de chuva, converso contigo em cada pensamento soprado pro lado, que desenha alguma coisa impensável demais pra se dizer em voz alta naquela cadeira do povo. Desvio o corpo daquele monte de desconhecidos me abraçando sem pedir licença e desço do alto de minha pequena existência prum chão de pedras lisas. Caminho até o trabalho pra buscar aquele mesmo pão que deixei em farelos me olhando de lado. Busco também um pouco de carne, motivos e um pouco de cada uma dessas coisas que nem sei dizer o nome, mas me fazem um bem danado. De noite reencontro as manchas do café que deixei pra água fria limpar. Reencontro meus livros, algumas palavras novas e as mesmas coisas que vivem espalhadas pelo chão em frente ao meu destino. Enquanto parto pra outro pedaço do dia, vagueio torto até o sono buscar meu pé pra guiar sua noite. Vejo você querendo me dar um outro tanto de sol na beira de nossa cama. Nem mesmo termino um sorriso e já é amanhã. Tiro o disco de Chico que pula na agulha, mando um beijo pro santo da madeira escura e dou um salve pra vida. Aí não tem jeito, já é de manhã.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Sobre o plástico, o vidro, a água e tudo que dá pra enxergar pelo outro lado
Desço contra o tempo certo. Já chego atrasado ao encontro marcado com a noite, latas de cerveja e umas caixas de som explodindo. Quero as de cabelo argentino. Quero aquelas observadoras, com um quê depressivo mesmo. Elas têm mais chance de entender toda minha loucura e falta de senso no trato com as pequenas coisas da vida. Preciso controlar minha fama, mas na maioria das vezes divirto-me com ela. Sei que é apenas um modo completamente deturpado de me enxergarem. Ninguém sabe o que vivi de verdade. Ninguém tava lá quando me amarraram, quando quiseram acabar com meus sonhos. Ninguém tava presente também nos momentos de brilho, de cor e de uma espécie de magia que somente eu conseguiria explicar. Somos o que vivemos; entupimos-nos de clichês querendo uma família com filhos correndo pra lá e pra cá. Mas não desisto porque ainda sou filho. Ainda quero um filho. Um moleque esperto que me dê tanto trabalho como orgulho. Chega de soldados. Chega de policies. Chega de termos em inglês. Se for pra descer que seja num papelão, na grama. Se for pra viajar que seja com uma grama decente. Se for pra suar que seja com endorfina. Se for me ligar, mulher, que seja de verdade. Não tenho tempo a perder porque tenho muito tempo pra perder por aí. Sou um gigante feito de folhas amassadas. Feito de tudo que joguei fora. Experimentei a metade dos trecos que quis, afinal não sou maluco. Algumas coisas não preciso ler, ouvir, nem assistir pra saber que são uma merda.
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Beautiful life
Fecho a janela por causa do vento. Já basta esse frio todo que sua ausência deixa entrar. Leio Capote e penso em como pude esperar tanto tempo pra conhecer a capacidade quase tola, de tão brilhante que ele tinha, em ser detalhista sem ser chato. Me choco em como me espanta o começo do mês vindo avisar que já tô sem grana. Minha sorte é meu café, minha cama e tudo aquilo que guardei pra jogar fora no futuro. Minha sorte são minhas corridas, o corpo dolorido. Vou seguindo esperando um você que já é quase completamente um só meu. Vivendo uma melancolia cheia de estilo, mas perecível, carregada pelo cheiro das bandas novas que a internet apresenta pra mim todo dia. Vou colando post-it em tudo pela casa, pelo corredor, pela rua. Renuncio o nome de cada coisa, inventado novos apelidos pra tudo. Novos nomes. Chega a ser tranqüila a fase de transição. Vou sentir uma saudade levemente doce de você qualquer dia. Nada que minha boca não ache por aí. É só a gente esquecer esse esquema blazé de não dar importância pras noites do caralho. Até porque a gente já teve várias. Peço pra você largar o set do Gui Boratto rolando alto mesmo. Vem me abraçar, vem. Tô nem aí pro teu batom forte, a gente se suja juntos.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Pangéia
Sinto o calor pela casa. É só entrar que já percebo sua presença em todo canto deliciosamente desarrumado, com aquele teu cheiro de canela pairando em cada poeira. Não precisa música nenhuma avisar, nem mesmo uma louça suja na pia. Sei que você é minha desgraça e dou gargalhadas com isso. Dou gargalhadas com cada olheira profunda, cada gosto ruim de cigarro na boca, com cada preto desbotado dos seus vestidos. Me desenho em suas tatuagens e mergulho com um copo na mão em nossas esquinas de desavenças, em todos os nossos pontos de fuga e perspectivas do nada. Seu cabelo ruivo serve pra ser arrancado com fúria, antes de um belo orgasmo ou depois de uma bela briga. Acabo com sua noção de família porque somos pai e filha, somos irmão e irmã, somos incesto, somos inferno e pura adrenalina. Somos uma espécie de Irlanda num mundo que Freud criou e depois pulou fora. Talvez o covarde quisesse admirar. Até porque a gente se admira, a gente se sacaneia. Moramos numa Pangéia que sempre acaba propondo uma trégua por gostarmos tanto um do outro. Essa sujeira que sua maquiagem produz parece menos melodramática quando existe um motivo decente empurrando você pro choro. Dentro dos meus conceitos cada vez menos coletivos, existo como um singular. Um nós de ases que vira um único rei. Um nó que um píer jamais criou, porque seria o jogo sem fim que ele de fato é. Sem dados, sem regras, nem prêmios. Já te disse que não quero troféus. Quero um café e um livro com você no frio. Quero dignidade em cada vergonha que leva meu nome estampado no peito. Aceito até a retórica mais ranzinza, porque não dá pra sorrir o tempo todo. E flores não, você tá cansada de saber que acho isso um saco.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Tudo assim, sem muito açúcar
Depois de 300 km na estrada finalmente cheguei em casa. Quer dizer, na dos meus pais. O fato de não ligar antes pra avisar deu realidade e mais cor aos seus sorrisos, amarelos e menos afetuosos.
O velho abriu a porta e eu segurei uma golfada. Tarimba de quem esta acostumado com ralos sempre tão pertos da fuça. Ele parecia um cadáver cheio de lamentações flutuando sob sua cabeça, ao som de alguma música fantasiosamente triste do whitest boy. Imaginei-o anos atrás, guardando seus sonhos num cofre e perdendo a chave em seguida. Imaginei uma moldura envidraçada mantendo todo seu lirismo guardado, junto de um martelo pendurado ao lado. Sua expressão não mudaria durante todo final de semana, permanecia a mesma, como seu embrulho de sofá.
Apesar da limpeza, pairava na casa uma nuvem densa, vinda de uma meia-dúzia de idéias covardes perdidas ou trazidas de algum lugar dos anos 80.
Ao sair, uma caveira, com ossos à mostra e tudo o mais, levou-me até a porta. Não dava pra saber se era meu pai ou minha mãe, afinal nunca fui especialista em esqueletos ou técnicas forenses.
Era segunda e fazia um sol danado. A música caribenha que escapava pelo quintal do lado, fugia junto de uma risada infantil. Guardei-a no bolso da camisa de forma discreta, pra soltar depois, junto com a fumaça de um baseado de skunk queimado na estrada. Voltaria pra cidade, pra minhas dívidas e todas nossas loucuras urbanas. Ainda com saudade de meus velhos, dirigia descalço, com um frasco de Metadona na mão direita e a cabeça bem além dos 140 por hora. Tudo assim, sem muito açúcar.
O velho abriu a porta e eu segurei uma golfada. Tarimba de quem esta acostumado com ralos sempre tão pertos da fuça. Ele parecia um cadáver cheio de lamentações flutuando sob sua cabeça, ao som de alguma música fantasiosamente triste do whitest boy. Imaginei-o anos atrás, guardando seus sonhos num cofre e perdendo a chave em seguida. Imaginei uma moldura envidraçada mantendo todo seu lirismo guardado, junto de um martelo pendurado ao lado. Sua expressão não mudaria durante todo final de semana, permanecia a mesma, como seu embrulho de sofá.
Apesar da limpeza, pairava na casa uma nuvem densa, vinda de uma meia-dúzia de idéias covardes perdidas ou trazidas de algum lugar dos anos 80.
Ao sair, uma caveira, com ossos à mostra e tudo o mais, levou-me até a porta. Não dava pra saber se era meu pai ou minha mãe, afinal nunca fui especialista em esqueletos ou técnicas forenses.
Era segunda e fazia um sol danado. A música caribenha que escapava pelo quintal do lado, fugia junto de uma risada infantil. Guardei-a no bolso da camisa de forma discreta, pra soltar depois, junto com a fumaça de um baseado de skunk queimado na estrada. Voltaria pra cidade, pra minhas dívidas e todas nossas loucuras urbanas. Ainda com saudade de meus velhos, dirigia descalço, com um frasco de Metadona na mão direita e a cabeça bem além dos 140 por hora. Tudo assim, sem muito açúcar.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Não daria pra comer aquela buceta com cheiro de talco roncando ao meu lado na freqüência dos cães no quintal
Olhei e a pia estava lá. Continuava cheia, mantendo um domínio sobre aquela situação que me colocava sob uma absurda humilhação completa. Queria dormir, queria apenas morrer um pouco pra acordar renascido, mas ela lá. No meio daquele lixo nojento: carne, podridão, miséria e falta de sentido. Meus dedos chegaram até o ralo já mortos, submersos na merda etílica. Mexia, mexia e nada. Precisaria dar outro jeito.
Da cozinha trouxe um pote de manteiga quase vazio, daqueles redondos, afinal um balde seria grande demais. Senti-me mais doente que o normal enchendo-o de vômito e despejando na privada. Um vai e vem contínuo. A pia era uma espécie de canoa cheia de esgoto. A privada, um mar cristalino pouco a pouco tomado por tudo que um corpo torto se credencia no direito de extirpar. Logo a depressão no centro daquela bancada de granito estava vazia e o chorume grosso escorria pelos esgotos da cidade. Meu vômito agora era problema das tubulações alheias. O Estado que desse seu jeito.
Lavei a mão e finalmente fui morrer em paz em uma silenciosa cama barulhenta. Não daria pra comer aquela buceta com cheiro de talco roncando ao meu lado na freqüência dos cães no quintal. No dia seguinte seria promovido. Vai entender?
Da cozinha trouxe um pote de manteiga quase vazio, daqueles redondos, afinal um balde seria grande demais. Senti-me mais doente que o normal enchendo-o de vômito e despejando na privada. Um vai e vem contínuo. A pia era uma espécie de canoa cheia de esgoto. A privada, um mar cristalino pouco a pouco tomado por tudo que um corpo torto se credencia no direito de extirpar. Logo a depressão no centro daquela bancada de granito estava vazia e o chorume grosso escorria pelos esgotos da cidade. Meu vômito agora era problema das tubulações alheias. O Estado que desse seu jeito.
Lavei a mão e finalmente fui morrer em paz em uma silenciosa cama barulhenta. Não daria pra comer aquela buceta com cheiro de talco roncando ao meu lado na freqüência dos cães no quintal. No dia seguinte seria promovido. Vai entender?
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Só pra não ficar remoendo essa conversa de final de agosto
Sabia que era preciso ter algo a dizer, mas o oposto era justamente o que fascinava e alimentava suas vontades de tinta e papel. Transformar-se num velho murcho, cheio de adiantamentos a receber, praticamente exilado em uma vida de confortos simples numa casinha de alguma vila italiana, era o clichê que menos interessava pro futuro. Se fosse pra viver na Itália, seria sofrendo do fígado e calejando as partes baixas de forma digna.
Irritava o fato de cada indivíduo empurrado de uma vagina neste planeta se dizer capaz de escrever um livro. Todo mundo agora tinha um blog ou coluna em algum jornaleco pra latir ou coisa parecida. Parecia que de um dia pro outro, simplesmente qualquer ser vivo tinha algo a dizer ou, pelo amor de deus, as gráficas estavam cobrando barato pela tinta. Tipo foda-se a natureza.
Apesar do carimbo de classificação repugnante e ranzinza pairar sobre esse tipo de comentário, começava a enxergar brilho na época em que era preciso um segundo emprego pra ser um bom escritor ou uma herança na conta pra virar um péssimo. Tempos em que as coisas eram mais claras, definidas. Você sabia direitinho quem merecia um olho roxo. Não existia o ecstasy nem a música eletrônica pra espantar os demônios com o sol nascendo, mas costumava-se dar mais valor aonde se metia a pica. Quer dizer, se você não fosse um hippie deslumbrado. Questão de atitude, essas coisas.
Irritava o fato de cada indivíduo empurrado de uma vagina neste planeta se dizer capaz de escrever um livro. Todo mundo agora tinha um blog ou coluna em algum jornaleco pra latir ou coisa parecida. Parecia que de um dia pro outro, simplesmente qualquer ser vivo tinha algo a dizer ou, pelo amor de deus, as gráficas estavam cobrando barato pela tinta. Tipo foda-se a natureza.
Apesar do carimbo de classificação repugnante e ranzinza pairar sobre esse tipo de comentário, começava a enxergar brilho na época em que era preciso um segundo emprego pra ser um bom escritor ou uma herança na conta pra virar um péssimo. Tempos em que as coisas eram mais claras, definidas. Você sabia direitinho quem merecia um olho roxo. Não existia o ecstasy nem a música eletrônica pra espantar os demônios com o sol nascendo, mas costumava-se dar mais valor aonde se metia a pica. Quer dizer, se você não fosse um hippie deslumbrado. Questão de atitude, essas coisas.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Tolos diálogos curtos nº03
-E beijo, precisa de motivo pra mandar beijo?
-Não, claro que não. Mas também não pode ser um beijo jogado, tipo um emoticom largado.
-É. Faz sentido.
-Não, aí não. Sentido por exemplo, é o que menos precisa ter.
-Como assim? Um beijo sem sentido, representando nada, vira um simples código vazio.
-Nada disso. Um beijo é um beijo. Ele representa justamente o que a pessoa que recebeu, vai sentir.
-E como saber o que ela vai sentir?
-Cê tá querendo demais.
-Claro que não...não dá pra mandar um beijo e não pensar em saber o que a pessoa que recebeu está sentindo sobre o dito cujo.
-Cara, deixa de ser cri-cri...pára de querer respostas, coisas em troca.
-Não são simples coisas em troca. Pô...o olhar, o sorriso, o jeito que ela ficou depois de você dar o tal beijo.
-DAR o tal beijo? Pelo msn?
-Caralho. Desisto.
-Não, claro que não. Mas também não pode ser um beijo jogado, tipo um emoticom largado.
-É. Faz sentido.
-Não, aí não. Sentido por exemplo, é o que menos precisa ter.
-Como assim? Um beijo sem sentido, representando nada, vira um simples código vazio.
-Nada disso. Um beijo é um beijo. Ele representa justamente o que a pessoa que recebeu, vai sentir.
-E como saber o que ela vai sentir?
-Cê tá querendo demais.
-Claro que não...não dá pra mandar um beijo e não pensar em saber o que a pessoa que recebeu está sentindo sobre o dito cujo.
-Cara, deixa de ser cri-cri...pára de querer respostas, coisas em troca.
-Não são simples coisas em troca. Pô...o olhar, o sorriso, o jeito que ela ficou depois de você dar o tal beijo.
-DAR o tal beijo? Pelo msn?
-Caralho. Desisto.
terça-feira, 22 de maio de 2007
O letreiro da calçada da frente
Acordei com sua coxa em cima de mim. Retirei com pouco cuidado, dei a volta na cama de madeira, andei rápido e cambaleante até a privada. Tossi umas três ou quatro vezes antes de jogar pra fora uma deformidade azeda e viscosa. Um ligeiro bem estar invadiu meu corpo e oxigênio novo pareceu destampar meu septo, assim finalmente tive alguns segundos de paz, em semanas. Fui até a geladeira e abri uma long-neck. Voltei ao quarto e sentei-me na cadeira bamba da mesinha, depois de jogar alguns papéis amarelados e cheios de marcas de café no chão. Foi o tempo dela se levantar e praticamente pisar nas minhas pegadas do recente passeio de ida ao inferno. Dava pra escutar aquela boquinha linda botando pra fora um monte de podridão acumulado em seu estômago da última noite. Depois se sentou, passou as mãos ainda sujas no cabelo e cheia de pose, acendeu um cigarro. Eu bebia minha primeira cerveja do dia, ela fumava seu primeiro Hollywood da manhã. Ficamos assim um bocado de tempo, mas a cerveja e o cigarro não duraram tanto. Instantes depois estava fixado no letreiro do motel em frente, praticamente hipnotizado. Havia ficado o dia inteiro ali sentado de uma forma inútil e patética. Aquelas letras brilhavam de um jeito que acabava por irritar meus olhos. Eu lacrimejava e olhava aquele neon. Lacrimejava, me limpava e continuava olhando aquele neon. Foi a coisa mais importante do dia. Talvez do mês inteiro. Prometi escrever algo sobre aquele letreiro, num dos momentos em que curvei a cabeça e olhei minhas maltratadas unhas dos pés. Era um letreiro honesto, estava ali fazendo seu trabalho. Elétrico. Não tava de olho nos cheques de ninguém. Ficava ligado enquanto vagabundos e amantes entravam e saiam dali cheios de expectativa, frustrações e traumas. As pessoas insistiam nisso. Queriam se amar, queriam cheirar, queriam foder umas com as outras. Eram mulheres inseguras, junkies atrás de uma boa trepada, outros só precisando dormir. E eu ali, já suficientemente sóbrio pra entender que meu emprego tinha ido pro espaço, olhando aquele letreiro do outro lado do meu mundo.
terça-feira, 8 de maio de 2007
Sobre o pouco sentido que as coisas têm
Ela realmente seguia ouvindo minhas histórias e parecia querer mais. Sugava toda energia do bar, mas por incrível que pareça não fazia meu corpo sentir-se cansado ou deprimido com aquilo. Já havia motivos suficientes ao meu redor e durante meu dia a dia pra isso, afinal.
Seus seios eram lindos e tinham uma capacidade incrível de manter-me entusiasmado com nossa conversa. Mesmo sendo seu papo repleto de uma selvageria tensa e ao mesmo tempo macia, típico das mulheres mais centradas, era quase uma dádiva que dispensava qualquer espasmo de neurose ou purismo afetado em favor da diversão pura e simples.
Quando sentei ao seu lado já estava suficientemente bêbado para acreditar no amor, mas despejava com maestria todo meu estoque podre de histórias chocantes e escatológicas, como quem afugenta aquilo que mais se quer perto. Parecia querer testá-la com minha falta de apreço pela conjuntura social mínima que qualquer ocasião pede.
-A primeira vez que me jogaram lá foi numa instituição do governo. Eles tinham uma piscina que vivia cheia de merda dos malucos internados. Mas depois de tomar todos aqueles remédios servidos de tempo em tempo nos copinhos de café, quando você menos percebe tá procurando a liberdade justamente num mergulho naquele poço de esgoto.
-Te deram choques por lá?
-Não garota, os choques acabaram faz tempo.
Depois iniciamos uma conversa de horas sobre Tarantino’s Mind. Ela conseguia a proeza de apresentar mais teorias absurdas que Selton Mello e eu a proeza de ter a boca mais suja que ele. Numa dessas transições de assunto, não consegui terminar de falar. Me atacou com sua boca e língua macia. Era bom.
Tempos depois confessou que me achou meio babaca quando puxei aquele papo sobre Marcuse, mas tirando o asco misturado com curiosidade despertado pelo episódio da piscina em um sanatório público, viu que queria ser minha pela capacidade que eu tinha de não dar bola para os choques e incoerências do mundo. Eu não entendia muito bem aquilo e sabia que estaríamos eternamente flertando com o fracasso, mas com ela seguia suportando toda frustração de finalmente entender que a vontade de socar o planeta às vezes pode se tornar mansa, até com certa dignidade.
Fazíamos amor, bebíamos gim e vez por outra assistíamos a missa de mãos dadas. Tínhamos planos e carreiras não muito convencionais, mas promissoras. Depois de um tempo morando juntos, começamos a ganhar algum dinheiro. Tudo parecia estranhamente perfeito como aquele começo no bar. Eu sabia que nada precisava fazer lá muito sentido. Até porque nunca havia conseguido achar sentido em quase nada na vida.
Seus seios eram lindos e tinham uma capacidade incrível de manter-me entusiasmado com nossa conversa. Mesmo sendo seu papo repleto de uma selvageria tensa e ao mesmo tempo macia, típico das mulheres mais centradas, era quase uma dádiva que dispensava qualquer espasmo de neurose ou purismo afetado em favor da diversão pura e simples.
Quando sentei ao seu lado já estava suficientemente bêbado para acreditar no amor, mas despejava com maestria todo meu estoque podre de histórias chocantes e escatológicas, como quem afugenta aquilo que mais se quer perto. Parecia querer testá-la com minha falta de apreço pela conjuntura social mínima que qualquer ocasião pede.
-A primeira vez que me jogaram lá foi numa instituição do governo. Eles tinham uma piscina que vivia cheia de merda dos malucos internados. Mas depois de tomar todos aqueles remédios servidos de tempo em tempo nos copinhos de café, quando você menos percebe tá procurando a liberdade justamente num mergulho naquele poço de esgoto.
-Te deram choques por lá?
-Não garota, os choques acabaram faz tempo.
Depois iniciamos uma conversa de horas sobre Tarantino’s Mind. Ela conseguia a proeza de apresentar mais teorias absurdas que Selton Mello e eu a proeza de ter a boca mais suja que ele. Numa dessas transições de assunto, não consegui terminar de falar. Me atacou com sua boca e língua macia. Era bom.
Tempos depois confessou que me achou meio babaca quando puxei aquele papo sobre Marcuse, mas tirando o asco misturado com curiosidade despertado pelo episódio da piscina em um sanatório público, viu que queria ser minha pela capacidade que eu tinha de não dar bola para os choques e incoerências do mundo. Eu não entendia muito bem aquilo e sabia que estaríamos eternamente flertando com o fracasso, mas com ela seguia suportando toda frustração de finalmente entender que a vontade de socar o planeta às vezes pode se tornar mansa, até com certa dignidade.
Fazíamos amor, bebíamos gim e vez por outra assistíamos a missa de mãos dadas. Tínhamos planos e carreiras não muito convencionais, mas promissoras. Depois de um tempo morando juntos, começamos a ganhar algum dinheiro. Tudo parecia estranhamente perfeito como aquele começo no bar. Eu sabia que nada precisava fazer lá muito sentido. Até porque nunca havia conseguido achar sentido em quase nada na vida.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Notas de um mesmo assunto nº89
Chego em casa suado do trabalho pensando em quantas gafes tenho a habilidade de cometer por hora. Será que um dia alguém já foi promovido por isso? Se foi, pelo menos já tenho meu lugar garantido no paraíso corporativo, mesmo odiando esses jogos de escritório. Brincadeira que sempre deixo para trás como um tabuleiro aberto, em cima de todas as mesas que passo, nos prédios comerciais que apodreço. Penso em ligar pra ela e escrevo pela terceira vez uma nova mensagem diferente no celular. Uma daquelas bem típicas: que nunca mando. Meus celulares vivem estragando de tanto que eu gasto seus botões escrevendo coisas que nunca mando. Fico imaginando o que ela deve estar fazendo de tão interessante já que tudo o que penso sobre ela quando penso nela parece ser interessante. Acho engraçado imaginar que pode estar cagando agora, mas me desconcentro em desconforto quando lembro que ela pode sim estar literalmente cagando. Pra mim. Mas essa minha forma tão arredia de lidar com jogos difíceis de ganhar tem nome: minha veia masculina. É o preço que pago por ser assim. É o preço que pago por acabar achando que é tudo sempre um jogo. Será que todo cara quer ganhar tanto do jeito que eu sempre quero ganhar? Resolvo arrumar meu apê. Pelo menos assim consigo suar fazendo alguma coisa que preste, já que odeio malhar. Apesar de estar tão bem ambientado com o estilo largado que vem estampado na etiqueta e no meu manual de instruções há tempos, acho engraçado como ainda gosto de livrar minha cabeça da deprê simplesmente limpando meu canto. Tem coisa que nunca muda mesmo. Enquanto olho mais uma vez seu nome no celular que briga com meu dedo para não te ligar mais uma vez sem o menor assunto, vem outro nome e aparece brilhando em seu lugar. Parece que as pessoas que você não dá à mínima desenvolvem uma capacidade assustadora de aparecer sempre exatamente quando você quer ficar sozinho.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Duas crianças e um banheiro
Eu tinha duas crianças e um banheiro. Cê precisava ver o tamanho dos meus peitos, ameaçavam tocar o chão. Uma boa dose por dia e um cheque no final de todo mês sustentavam aquele circo. Meus filhos eram dois bravos soldadinhos. Com certeza aprontariam muito quando os pêlos invadissem seus corpos. Por ora tomavam sua sopa de tomate magra, uma mistura de catchup e água quente, sem reclamar. Era o que dava pra pagar, pelo menos o que sobrava depois de uns bons tragos. Após o banho, quando eu começava a raspar minhas pernas na banheira, às vezes eles ficavam me observando pela porta encostada, com olhinhos arregalados. Será que sentiam nojo de mim? Acho que não. Minha cabeça era uma bagunça, aquela casa era uma bagunça, minhas varises eram uma bagunça. Era um sobrado pequeno, mas aconchegante. Pela manhã nunca deixei faltar cereal e um belo blues rolando no rádio. Alto. Eu tinha duas crianças e um banheiro.
terça-feira, 24 de abril de 2007
Porque a paz chega aos poucos
Era uma tarde de abril como outra qualquer, com vento e sol. Uma vida de trabalho duro com o boxe foi capaz de ensinar muitas coisas para aquele agora cansado senhor sentado em seu carro. Cento e nove lutas como boxeador, seguidas de quase quarenta anos como treinador profissional. Aprendera com a dança das pernas, com o raciocínio dentro de cada movimento premeditando um soco. Sua vida e o boxe estavam tão ligados, que seria impossível lembrar-se dele sem sentir aquele cheiro acre de um ginásio suado. Aprendera o sentido da derrota e o sacrifício para se conquistar um soco limpo, um ponto, uma luta ou um título. É verdade que nunca ganhara muito dinheiro com isso. Os velhos tempos não eram como hoje. Não se sabia muito bem o valor do marketing e sequer imaginavam fechar contratos tão milionários como os de agora. Mas o sangue que jorrava e jorra nas primeiras filas de um ringue sempre foram e sempre serão o mesmo. Aquele líquido pastoso, vermelho. De um vermelho brilhante quase como o laranja de seu Dodge novo. Um carro comprado à vista para sua tão aguardada viagem de aposentadoria. Estava tudo programado. Uma visita ao Jockey, quem sabe um páreo, uma passada no bar da academia, agora vendida, para após isso sim, partir para a estrada. Uma viagem sem volta. Um adeus a cada quilômetro rodado. Tudo de forma contida, como quem conversa com o sol ou com as estrelas. Um final digno para um rosto cansado e retalhado, sem bilhetes de despedida. Sem pressa, porque a paz, ele nunca cansara de repetir, chegava aos poucos.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Seu colo me olhou de relance e mal deu tempo de esquecer como era precioso descansar a cabeça ali
O cheiro das garrafas já se misturava ao bafafá das vozes e suas conversas loucas quando cheguei. Todos tão suados e tão felizes. Pareciam malditos bonecos em uma fila de precipício, doidos pra pular. Seu colo me olhou de relance e mal deu tempo de esquecer como era precioso descansar a cabeça ali. Aquelas pedras no chão formavam uma calçada fina, que garantia todas as respostas sobre a separação entre o céu do inferno. O calor amenizado por vidros caramelados cheios de cerveja gelada em abrigo, era signo. Logo o sol foi dormir e a tarde foi pra noite, que veio pro dia, que virou ao avesso falsas poesias. Autores trocados, intrigados em mesas de uma homenagem a tudo que é insano e barato. E eu ali, falando baixinho em seu ouvido tudo aquilo que combinei não dizer.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Eu odeio filosofia
Benny voltou da cozinha com uma garrafa de vodka nas mãos. Desde que chegou, Vick estava daquele jeito, e tirando as vezes em que ela se levantou para pegar um pouco mais de suco na geladeira, não parecia ter se movido. O problema é que a ficha de que estava pelada em cima de uma dessas esteiras de yoga falando aquele monte de bobagens, só havia caído agora que ele voltara da maldita cozinha. Com a garrafa numa das mãos, um balde de gelo em outra e um cigarro trôpego quase queimando seus lábios, ficou alguns minutos parado no hall da sala.
-Que houve Benny? Cê voltou a cheirar? – disse Vick, nua em pêlos.
-Cê tá pelada Vick? – respondeu.
-Desde que você chegou.
-Cê tá falando toda essa merda sobre mais-valia, proletariado, Grécia, vibradores, histeria feminina e o escambau, pelada?
-Qual o problema? Você acha que meu corpo esvazia meu discurso?
(pausa)
-Não.
Benny parecia não ter se acostumado com a atmosfera universitária. Todos aqueles livros de autores franceses espalhados, aquele monte de bebidas baratas e drogas malhadas, aquela falta de banho. Nada daquilo entrava muito bem em sua cabeça. E agora que tinha finalmente reparado, percebeu que não só Vick, mas várias pessoas estavam peladas. Como um bom carcamano moralista, saiu pra tomar ar no quintal. Beth estava lá fora sozinha fumando. Aproveitou pra filar um.
-Me arruma?
-mmm.- ela estendeu a mão levando o maço mais perto.
-Se importa de eu fumar aqui contigo?
-mmm. – Beth sacudiu a cabeça liberando sua presença. Ela também estava sem roupas.
-Porque eu tenho a sensação de que tá todo mundo nu?
-Sei lá Benny, cê devia relaxar mais cara. As provas estão te deixando tenso.
-É. Deve ser isso. Malditas provas. – disse sem muita convicção.
A lua estava imensa como há muito tempo não se via. Benny resolveu ir pra casa. Aquele ambiente parecia tê-lo deixado cansado. Precisava de um pouco de normalidade, de um noticiário sensacionalista, de um achocolatado, de uma ex enchendo o seu saco ou só de um pouco de raiva. Qualquer coisa que o trouxesse mais pra perto da realidade. Vick continuou pelada na sala até quase de manhã, mas não transou com ninguém. Repetia para qualquer ereção mais espertinha que aparecesse em sua frente, que seu namorado estava de férias no Marrocos. Provavelmente trepando até com camelos. Já Benny, em casa, só reparou a folha colada atrás de sua camisa no dia seguinte. Trazia "eu odeio filosofia" escrito em letras garrafais.
-Que houve Benny? Cê voltou a cheirar? – disse Vick, nua em pêlos.
-Cê tá pelada Vick? – respondeu.
-Desde que você chegou.
-Cê tá falando toda essa merda sobre mais-valia, proletariado, Grécia, vibradores, histeria feminina e o escambau, pelada?
-Qual o problema? Você acha que meu corpo esvazia meu discurso?
(pausa)
-Não.
Benny parecia não ter se acostumado com a atmosfera universitária. Todos aqueles livros de autores franceses espalhados, aquele monte de bebidas baratas e drogas malhadas, aquela falta de banho. Nada daquilo entrava muito bem em sua cabeça. E agora que tinha finalmente reparado, percebeu que não só Vick, mas várias pessoas estavam peladas. Como um bom carcamano moralista, saiu pra tomar ar no quintal. Beth estava lá fora sozinha fumando. Aproveitou pra filar um.
-Me arruma?
-mmm.- ela estendeu a mão levando o maço mais perto.
-Se importa de eu fumar aqui contigo?
-mmm. – Beth sacudiu a cabeça liberando sua presença. Ela também estava sem roupas.
-Porque eu tenho a sensação de que tá todo mundo nu?
-Sei lá Benny, cê devia relaxar mais cara. As provas estão te deixando tenso.
-É. Deve ser isso. Malditas provas. – disse sem muita convicção.
A lua estava imensa como há muito tempo não se via. Benny resolveu ir pra casa. Aquele ambiente parecia tê-lo deixado cansado. Precisava de um pouco de normalidade, de um noticiário sensacionalista, de um achocolatado, de uma ex enchendo o seu saco ou só de um pouco de raiva. Qualquer coisa que o trouxesse mais pra perto da realidade. Vick continuou pelada na sala até quase de manhã, mas não transou com ninguém. Repetia para qualquer ereção mais espertinha que aparecesse em sua frente, que seu namorado estava de férias no Marrocos. Provavelmente trepando até com camelos. Já Benny, em casa, só reparou a folha colada atrás de sua camisa no dia seguinte. Trazia "eu odeio filosofia" escrito em letras garrafais.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
play
Como cada música que me faz lembrar você.
Cada som que me permite sair um pouco
e ver luz onde só há uma noite de lua,
maravilhosamente cheia.
Novos downloads que avançam
em novos downloads
que avançam em novos downloads.
Só importa o volume onde tudo acontece.
Preciso de uma caixa de som
e um botão girando.
Um botão girado.
e ver luz onde só há uma noite de lua,
maravilhosamente cheia.
Novos downloads que avançam
em novos downloads
que avançam em novos downloads.
Só importa o volume onde tudo acontece.
Preciso de uma caixa de som
e um botão girando.
Um botão girado.
terça-feira, 27 de março de 2007
Rum nº2
A gente se conheceu meio por acaso. Numa feira que armam aos sábados perto do meu prédio. Dá pra ver da janela. Geralmente quando acordo com aquelas vontades de me tornar um cara mais saudável de novo, acabo passando por lá a procura de frutas. Pareço um ecologista tarado. Compro quilos de coisas coloridas que depois ficam pretas na fruteira. Uma vez até me deprimiu ver um cacho de bananas podre, cheio de moscas voando por cima, ao chegar em casa com o dia já claro de uma noitada. Enfim, perguntei o nome dela enquanto provava um pedaço de abacaxi numa das muitas tendas enfileiradas pela rua. Estava de óculos e tinha uma bunda que chamou minha atenção de cara. Esses tecidos finos que algumas mulheres usam conseguem me tirar do sério. Vestia uma camisa branca com a logomarca de uma academia ou tipo de luta israelense, sei lá. Esse lance até me intimidou um pouco, mas depois só lembrava disso com certa graça. Principalmente quando estava colocando nela de quatro. Apesar dos óculos darem uma aparência mais séria, algo intelectual ou coisa parecida, ela só lia coisas sobre mulheres. Para colar o velcro faltava pouco. Eram desde heroínas da revolução sexual até a história das mulheres no evangelho. Não me pergunte por que, nem como, mas depois da tal feira e de algumas tentativas completamente fracassadas de conseguir tirar um sorriso dela, estávamos tomando um suco numa lanchonete dessas que só de ficar no balcão você já se sente mais saudável, perto dali. Ela com sua sacola hippie cheia de coisas verdes saltando pra fora e eu com meus quilos coloridos de frutas. Deve ter sido a única vez que dividimos um copo de suco na vida. Não que ela não tivesse esse hábito, mas eu geralmente misturava rum a qualquer coisa. Fica muito melhor.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Cenouras
-Vou ter que viajar. Cê sabe, trabalho...
-Mas você trabalha aqui.
-Uma proposta. Uma proposta irrecusável.
-Então você não vai viajar, vai se mudar.
-Mais ou menos.
-Como mais ou menos, isso tá me parecendo um fato!
-Tem cerveja na geladeira?
-Não, estavam ocupando o espaço inteiro. Joguei fora pra colocar minhas cenouras.
-Elas estavam em promoção de novo?
-Sim.
-Depois que você comprou esse processador, tá um saco sabia?
-(pausa longa)...São Paulo?
-Não, nordeste.
-Lá tem cenoura?
-Acho que sim, no mundo todo devem existir cenouras.
-Mas será que lá são daquele tipo “importado”, que chegam congeladas?
-Tô cagando pra isso.
-Te amo.
-Tô com sede.
-Quer suco?
-Mas você trabalha aqui.
-Uma proposta. Uma proposta irrecusável.
-Então você não vai viajar, vai se mudar.
-Mais ou menos.
-Como mais ou menos, isso tá me parecendo um fato!
-Tem cerveja na geladeira?
-Não, estavam ocupando o espaço inteiro. Joguei fora pra colocar minhas cenouras.
-Elas estavam em promoção de novo?
-Sim.
-Depois que você comprou esse processador, tá um saco sabia?
-(pausa longa)...São Paulo?
-Não, nordeste.
-Lá tem cenoura?
-Acho que sim, no mundo todo devem existir cenouras.
-Mas será que lá são daquele tipo “importado”, que chegam congeladas?
-Tô cagando pra isso.
-Te amo.
-Tô com sede.
-Quer suco?
segunda-feira, 5 de março de 2007
Assim
Quero-te simples como esta janela.
Dela dá pra ver a praça, as folhas no chão.
O sol do céu parece sem graça.
Pra ele qualquer um pode estender a mão.
Celebro toda a paz das vontades fúteis. Toda a liberdade fajuta desses belos fins de tarde.Todos meus gostos e vícios massificados. Tudo o que não é glamourizado. Minhas vitórias fáceis e absurdas. Meus mais brilhantes fracassos. Aquelas vontades de beira de estrada. Uma música de rádio amarelada. Tudo o que corre o risco de ser burro e unânime. Hoje quero esse tipo de sensação. Talvez por estar realmente cansado de dar qualquer tipo de satisfação. Urro de felicidade a cada simples conversa em que podemos chegar além. A cada frase em forma de sussurro, aberta em um espaço coletivo que joga fora a dor. Ou troca ela por algo maior. Essa cumplicidade que o acaso incita. Quilos de incertezas do fundo de nossas entranhas, para as companhias que a lua escolhe como os melhores ouvintes. A legitimidade que a coragem dá. Celebro seu sexo lindo. Celebro nossos erros em forma de poesia suja e nosso amor em forma da mais linda busca. Dou-te o brilho de cada lágrima que permito deixar cair. São suas. São minhas. Minhas dores. Nossas dores. Dores do mundo. Buscas que de tão justas merecem o reconhecimento de continuar. Sabem que esse caminhar aviva. Que quanto mais troféus essas prateleiras suportam, mais acabo me distanciando dos lugares seguros. Mas não caia na tentação de ter medo. Minha excentricidade será uma simples rebeldia inexata, porque ela nem sempre existe. Ela pára. Ela se balança na rede ociosa dos sonhos pueris. De cada avião que vejo no céu e penso "pra onde será que vai esse desgraçado?". Achar que mereço ter você é um achado raro, que mistura a certeza de todo nosso amor e de todo o nosso fracasso. De todo o nosso passado e futuro raso. De todo ensaio que amasso e jogo fora. De toda saída com jeito de quem realmente vai embora. De todo aquele teu lindo sorriso de sofá. De toda essa baía de dúvidas. Mereço esse anzol preso em minha boca e este alvo pintado em minha cabeça. Sei que meu peito acha bonito ficar desprotegido, mas não me sinto aflito. Sinto-me forte. Tatuado. Rumo a tudo que desconheço. Rumo à minha sorte. Rumo ao barulho de cachorros latindo no quintal. Latidos de "oi". Porque latidos de medo eu deixo pra você. Porque folhas secas de outono eu deixo pra você. Porque as velhas intrigas inúteis eu deixo pra você. Fico com a chance de não te prometer nada, nem amor desatinado, nem abrigo. Nem o mais puro riso. Se te quero é assim.
Dela dá pra ver a praça, as folhas no chão.
O sol do céu parece sem graça.
Pra ele qualquer um pode estender a mão.
Celebro toda a paz das vontades fúteis. Toda a liberdade fajuta desses belos fins de tarde.Todos meus gostos e vícios massificados. Tudo o que não é glamourizado. Minhas vitórias fáceis e absurdas. Meus mais brilhantes fracassos. Aquelas vontades de beira de estrada. Uma música de rádio amarelada. Tudo o que corre o risco de ser burro e unânime. Hoje quero esse tipo de sensação. Talvez por estar realmente cansado de dar qualquer tipo de satisfação. Urro de felicidade a cada simples conversa em que podemos chegar além. A cada frase em forma de sussurro, aberta em um espaço coletivo que joga fora a dor. Ou troca ela por algo maior. Essa cumplicidade que o acaso incita. Quilos de incertezas do fundo de nossas entranhas, para as companhias que a lua escolhe como os melhores ouvintes. A legitimidade que a coragem dá. Celebro seu sexo lindo. Celebro nossos erros em forma de poesia suja e nosso amor em forma da mais linda busca. Dou-te o brilho de cada lágrima que permito deixar cair. São suas. São minhas. Minhas dores. Nossas dores. Dores do mundo. Buscas que de tão justas merecem o reconhecimento de continuar. Sabem que esse caminhar aviva. Que quanto mais troféus essas prateleiras suportam, mais acabo me distanciando dos lugares seguros. Mas não caia na tentação de ter medo. Minha excentricidade será uma simples rebeldia inexata, porque ela nem sempre existe. Ela pára. Ela se balança na rede ociosa dos sonhos pueris. De cada avião que vejo no céu e penso "pra onde será que vai esse desgraçado?". Achar que mereço ter você é um achado raro, que mistura a certeza de todo nosso amor e de todo o nosso fracasso. De todo o nosso passado e futuro raso. De todo ensaio que amasso e jogo fora. De toda saída com jeito de quem realmente vai embora. De todo aquele teu lindo sorriso de sofá. De toda essa baía de dúvidas. Mereço esse anzol preso em minha boca e este alvo pintado em minha cabeça. Sei que meu peito acha bonito ficar desprotegido, mas não me sinto aflito. Sinto-me forte. Tatuado. Rumo a tudo que desconheço. Rumo à minha sorte. Rumo ao barulho de cachorros latindo no quintal. Latidos de "oi". Porque latidos de medo eu deixo pra você. Porque folhas secas de outono eu deixo pra você. Porque as velhas intrigas inúteis eu deixo pra você. Fico com a chance de não te prometer nada, nem amor desatinado, nem abrigo. Nem o mais puro riso. Se te quero é assim.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Toda essa nossa falta de assunto
Pegou o telefone encardido e ligou.
-Camile?
-Oi. É você Buck?
-Quantos homens te procuram?
-Muitos.
-(silêncio) Queria te convidar para um almoço.
-Como assim? Cê tá bêbado?
-Queria almoçar com você.
-Hoje?
-Sim, mais tarde. Quero comemorar.
-O que? Terminou o livro?
-Não. Queria celebrar toda essa nossa falta de assunto.
Camile riu.
Ainda ensaiou um bolo, mas resolveu aparecer. Estava com um vestido lindo, mas era repetido. Apesar de suas incertezas em relação a Buck, não queria que ele a visse assim. Repetida. Menos pelo que sentia por ele, mais por sua vaidade rasgada.
Depois de receber um belo adiantamento pelo seu quinto romance, Buck estava passando por uma fase que ele conhecia bem e não era nada boa. Estava com mais da metade do livro pronto, sabia exatamente o que queria de cada personagem, mas, justamente por isso não acabava nunca de escrever o dito cujo.
No restaurante, mal puxou a cadeira e os belos olhos de Camile cerraram.
-Agora que você recebeu essa grana está um porre sabia?
-Por que?
-Bebe os melhores vinhos, vai as melhores festas, toma as melhores drogas, usa todo o seu tempo para fazer coisas interessantes e depois fica arrotando esse amorzinho enlatado pra cima de mim.
-Odeio enlatados.
-Eu odeio você.
Camile levantou-se e foi embora. Mais uma vez não esperou a comida chegar. Dessa vez sequer pediram. Como de costume, um chope logo socorreu Buck na mesa. Também não havia pedido. Logo chegaram outros que o ajudaram a aguardar pacientemente a tarde cair. Ele amava aquela mulher.
-Camile?
-Oi. É você Buck?
-Quantos homens te procuram?
-Muitos.
-(silêncio) Queria te convidar para um almoço.
-Como assim? Cê tá bêbado?
-Queria almoçar com você.
-Hoje?
-Sim, mais tarde. Quero comemorar.
-O que? Terminou o livro?
-Não. Queria celebrar toda essa nossa falta de assunto.
Camile riu.
Ainda ensaiou um bolo, mas resolveu aparecer. Estava com um vestido lindo, mas era repetido. Apesar de suas incertezas em relação a Buck, não queria que ele a visse assim. Repetida. Menos pelo que sentia por ele, mais por sua vaidade rasgada.
Depois de receber um belo adiantamento pelo seu quinto romance, Buck estava passando por uma fase que ele conhecia bem e não era nada boa. Estava com mais da metade do livro pronto, sabia exatamente o que queria de cada personagem, mas, justamente por isso não acabava nunca de escrever o dito cujo.
No restaurante, mal puxou a cadeira e os belos olhos de Camile cerraram.
-Agora que você recebeu essa grana está um porre sabia?
-Por que?
-Bebe os melhores vinhos, vai as melhores festas, toma as melhores drogas, usa todo o seu tempo para fazer coisas interessantes e depois fica arrotando esse amorzinho enlatado pra cima de mim.
-Odeio enlatados.
-Eu odeio você.
Camile levantou-se e foi embora. Mais uma vez não esperou a comida chegar. Dessa vez sequer pediram. Como de costume, um chope logo socorreu Buck na mesa. Também não havia pedido. Logo chegaram outros que o ajudaram a aguardar pacientemente a tarde cair. Ele amava aquela mulher.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Reza de porto
Barco vai, barco à toa.
Leva nesse azul de sal nossa dor.
Mar já vem, ave que voa.
Renega todo o perfume que tem.
Santa me ilumina de perto.
Lembre da fé que tenho no peito.
Sou feito de chão, feito de vento.
Respeito esse velho ancião.
Irmão até algum dia incerto.
Vê se teu sangue liga o motor.
Sai de perto das flores do medo.
Busque teu peixe sem mãe nem rancor.
Sou do pé de euforia.
Parto pro porto sem mandinga.
Cheiro de coco me contagia.
Rezo pra João e rezo pra Maria.
Barco vai, barco à toa.
Deixa esse nosso sol se pôr.
Mar já vem, vou na boa.
Levo presentes pro meu amor.
Leva nesse azul de sal nossa dor.
Mar já vem, ave que voa.
Renega todo o perfume que tem.
Santa me ilumina de perto.
Lembre da fé que tenho no peito.
Sou feito de chão, feito de vento.
Respeito esse velho ancião.
Irmão até algum dia incerto.
Vê se teu sangue liga o motor.
Sai de perto das flores do medo.
Busque teu peixe sem mãe nem rancor.
Sou do pé de euforia.
Parto pro porto sem mandinga.
Cheiro de coco me contagia.
Rezo pra João e rezo pra Maria.
Barco vai, barco à toa.
Deixa esse nosso sol se pôr.
Mar já vem, vou na boa.
Levo presentes pro meu amor.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Um dia perfeito
Era um dia perfeito. Dirigi meu velho carro azul até atrás da casa verde como de costume. Peguei drogas baratas. Combinariam perfeitamente com minhas férias baratas. Dava pra sentir a mistura de sol, cocaína e gim passeando pelo meu sangue e saindo por cada um de meus poros. Dava pra sentir o cheiro de todos os livros que queimei no dia anterior. Letras impressas em papéis povoados por gerações de ácaros preguiçosos. Letras cheias de rancor, interesse, oportunismo e vontade de conquistar um coração. Sempre isso. Mas seguia com meus planos de neon em beira de estrada. Nada me afetaria. Respirava gasolina. Meus pensamentos iam ficando mais sujos a cada quilometro que deixava para trás. Dava pra sentir a boca de Alice engolindo a cabeça do meu pau duro como quem morde um pêssego. Acariciar o lado de seu corpo trazia sempre uma felicidade dupla. Dava pra sentir sua pele incrivelmente macia para uma viciadinha, além do alívio de perceber que continuava viva. Mas isso era relativo. Eu estava morto, o cara da recepção do hotel estava morto, todas as mulheres do mundo estavam mortas e até o Jesus Cristo tatuado em meu peito berrava de tão morto. Tudo que o rastro laranja de sol daquele fim de tarde insistia em deixar mais bonito com seu filtro de vida colorida, estava morto. Um quarto gorduroso e poeirento com uma bela buceta, drogas baratas e um puta sol rosa-alaranjado invadindo o carpete e acordando as persianas imundas, conseguia seguir celebrando toda aquela falta de sentido. Era um dia perfeito. Somente um dia perfeito.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Todo esse nosso maldito erro que atrai
Me visto em situações nas quais insisto em absorver a paz que nunca vou poder ter. O barulho tão confortável da pressão de uma tampa saindo, é aberto envolvendo sensações que me deixam só com mais sede. Cada gole que tomo de seu olhar irrita minha garganta. Me sufoca. Me ofusca. Mas se é doente a ironia que preza uma paz insubstituível ao sinal do fim de um mal que atrai, as fragrâncias de seus vetos colocam meu reto de cara pra um medo sem freio. Fizeram a gente acreditar em tanta coisa que me sinto marginal a cada novo passo que dou, a cada novo dia que sou.Já que poder ver um novo pôr-do-sol contigo é tão difícil, enveredo em cada bendita pedra portuguesa que abriga essa minha correria. Marchas feitas de suor e vento, sempre digerindo novas certezas fáceis de engolir. Se são elas amaciadas pela dor ou requentadas pelo calor de um final de noite regado a vinho, não importa. Assim tudo sempre acabou bem.Saio de meu próprio centro quando você está onde estou. É. Nem sei como seria nós dois. Verdade. Periga uma coisa dessas nunca poder acontecer, pois arruinaria eternamente o raro filão das histórias tristes. Há tempos elas vem se garantindo em dois personagens como a gente. Já investiram muito talento pra isso não dar certo. Em todo esse capricho de tempo e lugar no espaço. Em todo esse nosso maldito erro que atrai.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
E pronto
Ontem acordei bebendo uma garrafa e escrevi uma bossa. Ontem fiz questão de esquecer todo esse mal que enche o saco daquelas minhas idéias mais divertidas. Entre amigos fico tranqüilo, mais fácil espantar essas nuvenzinhas pretas que molham a cabeça de quem insiste em enfrentar toda chuva que desaba por algum dos motivos que trazem você até aqui. Ontem deixei de lado alguns compromissos pra ficar literalmente de bobeira. Botei o pé na areia e escutei uns graves em plena praia. Observando pessoas reconheci que como todo mundo, julgo errado pra caramba. Entrei num ônibus desses que promovem noitadas e dancei com um tamborim na mão. Resolvi que não tenho a menor intenção de ter compromisso com o que os outros pensam sobre meu jeito de escrever. Não, não é hora de pensar num livro. Tenho romances demais pra trilhar a cada dia que boto o pé pra fora de casa. Ontem conheci pessoas num supermercado. Eu comprando cerveja e elas querendo prosecco. Percebi que essa neurose sobre a violência é muito mais fruto da paranóia coletiva. Óbvio. Dá pra fazer amigos ou amigas nos lugares mais inesperados. Mas talvez eu já tenha amigos demais. Resolvi que hoje pode ser melhor quando deixamos de lado o peso de carregar decisões que não nos cabem. Tem coisa que não foi feita pra a gente decidir e pronto. Ontem poderia ser mais um dia com você. Ao invés disso, fiquei mais um dia sem te ter.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Murphy
Ainda te olho e não consigo ficar indiferente a todo estilo que insiste em compilar e desfilar como ninguém. É estranho, mas já não sofro por você. O engraçado é que nunca sofri de verdade, foi mais um sentimento meio forte que ficou de birra com meu peito. Se eu nunca te tive, não é muito normal achar que te perdi. Inclusive já consigo ficar na boa sem muitos olhares de rabo de olho nestas festas ou noitadas que a gente insiste em se esbarrar. Até porque antes eram tantos olhares que geralmente a ressaca da manhã seguinte dava as mãos a uma puta dor de pescoço na minha cama. Sobre outras partes de meu corpo, só posso dizer que a barriga cresceu de forma humilhante. Acho que pra aturar esse monte de futilidade que anda rodeando minha órbita é preciso beber mais. Juro que ainda lembro daquele tempo em que alternava meus copos coloridos com doses de água. Cê sabe né, bebida incha. Eu até tento articular que homem que é homem não pode pensar em passar dos trinta sem barriga sob o risco de se descobrir boilola. Mas a verdade é que o papo dos boilolas nem tem me irritado tanto ultimamente e posso confessar que gostaria de ter o corpo que eles têm. Pelo menos comeria mais mulheres assim.
Ah...quer saber uma novidade? Outro dia cheguei à conclusão que você nem é tão bonita, apesar de te achar tão linda. Mas não é lá nenhuma tese que vá mudar o nosso mundo. Porra, se qualquer pessoa pensar um pouquinho verá que existe tanta, mas tanta coisa que pode deixar alguém fechadinho em nosso número, que beleza passa a não sustentar quase argumento nenhum. Tudo bem que o meu pau não entende isso muito bem e anda fazendo o trabalho dele de forma absurdamente bem disposta com as belas. Nova ironia: justo agora que meu desempenho sexual está numa fase digna de presentear uma pessoa que eu ame, não encontro ninguém com capacidade de me deixar mal ou fazer-me entrar numa leve deprê ao menor sinal de certa falta de interesse. Olha, até já o achei engraçado, mas a verdade é que pra mim hoje Murphy não passa de um filha da puta.
Ah...quer saber uma novidade? Outro dia cheguei à conclusão que você nem é tão bonita, apesar de te achar tão linda. Mas não é lá nenhuma tese que vá mudar o nosso mundo. Porra, se qualquer pessoa pensar um pouquinho verá que existe tanta, mas tanta coisa que pode deixar alguém fechadinho em nosso número, que beleza passa a não sustentar quase argumento nenhum. Tudo bem que o meu pau não entende isso muito bem e anda fazendo o trabalho dele de forma absurdamente bem disposta com as belas. Nova ironia: justo agora que meu desempenho sexual está numa fase digna de presentear uma pessoa que eu ame, não encontro ninguém com capacidade de me deixar mal ou fazer-me entrar numa leve deprê ao menor sinal de certa falta de interesse. Olha, até já o achei engraçado, mas a verdade é que pra mim hoje Murphy não passa de um filha da puta.
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Folia
Sinto raiva. Inclusive uma raiva bem definida. De toda essa gentinha que é boa demais pra demonstrar raiva.
Fique aí com toda sua pose, toda sua sensibilidade aflorada e imaturidade que faz essa insegurança, que já achei sexy, tornar-se irritante. Fique com os presentes que lhe dei ou cogitei dar e toda poesia que já pensei em te oferecer. Fique com um pedaço de meu coração também. Ou ele inteiro. Se vira. Até porque o problema é seu, já que entrou numa de maltratar o pobre coitado (mesmo talvez não sabendo). Segura a onda. Leve pra casa. Ou jogue fora como tudo que exala vida e por isso é denso demais pra você suportar. Fique nesse teu mundinho de mentira, de faz de conta. Cansei. Que você é interessante pra caralho eu já sei de cor, mas se faz tanta questão de esconder isso, de mutilar o seu melhor, que se foda. Não é nem papo de a fila andar não, é mais um lance de busca mesmo, de procurar me resolver. Um tête-à-tête que rola entre eu, o que sinto vontade e o que posso fazer. No seu caso, nada. Já deu. Seria no mínimo constrangedor insistir nisso agora. Obsoleto. Pode parar de surpresa, festinha, ceninha. Deu. E tô tão tranqüilo e infalível em relação a isso que nem me dou o trabalho de procurar um sinônimo estiloso ou que se encaixe liricamente no que sinto. Prefiro falar na lata que tô é com raiva. Puto. Mas com o coração em pedaços...sim. True. Parabéns pra você. Comemora aí toda tua indiferença, todo esse olhar blasé pra vida que pulsa e é tão urgente dentro de mim. Poderia realmente ter amado você. Tchau.
Nessa sua acidez polvilho açúcar. Tua ironia saiu de moda aqui no meu peito. Eu quero é folia.
Fique aí com toda sua pose, toda sua sensibilidade aflorada e imaturidade que faz essa insegurança, que já achei sexy, tornar-se irritante. Fique com os presentes que lhe dei ou cogitei dar e toda poesia que já pensei em te oferecer. Fique com um pedaço de meu coração também. Ou ele inteiro. Se vira. Até porque o problema é seu, já que entrou numa de maltratar o pobre coitado (mesmo talvez não sabendo). Segura a onda. Leve pra casa. Ou jogue fora como tudo que exala vida e por isso é denso demais pra você suportar. Fique nesse teu mundinho de mentira, de faz de conta. Cansei. Que você é interessante pra caralho eu já sei de cor, mas se faz tanta questão de esconder isso, de mutilar o seu melhor, que se foda. Não é nem papo de a fila andar não, é mais um lance de busca mesmo, de procurar me resolver. Um tête-à-tête que rola entre eu, o que sinto vontade e o que posso fazer. No seu caso, nada. Já deu. Seria no mínimo constrangedor insistir nisso agora. Obsoleto. Pode parar de surpresa, festinha, ceninha. Deu. E tô tão tranqüilo e infalível em relação a isso que nem me dou o trabalho de procurar um sinônimo estiloso ou que se encaixe liricamente no que sinto. Prefiro falar na lata que tô é com raiva. Puto. Mas com o coração em pedaços...sim. True. Parabéns pra você. Comemora aí toda tua indiferença, todo esse olhar blasé pra vida que pulsa e é tão urgente dentro de mim. Poderia realmente ter amado você. Tchau.
Nessa sua acidez polvilho açúcar. Tua ironia saiu de moda aqui no meu peito. Eu quero é folia.
terça-feira, 10 de outubro de 2006
Trainspotting
“É uma noite terrível, sombria. Nuvens carregadas pairam lentamente; aguardam o momento de vomitar sua carga obscura sobre os cidadãos confusos, pela enésima vez desde que raiou o dia.”
Fecho o livro ali. Olho mais uma vez a cara de Irvine Welsh na orelha. Cara de babaca. Parece a sina de britânico, ter cara de babaca. Cheiro uma quantidade abissal de cocaína batida mal e parcamente por cima da capa. Acho que ninguém viu, mas não ligo muito pra isso. Não é comum as pessoas se preocuparem umas com as outras naquela altura da madrugada. O vai e vem do trem somado ao verniz localizado nos tipos do título na capa do livro atrapalham um pouco as coisas. Alguns jovens empolgados entram no trem falando alto. Sempre coloridos. Sempre indo ou voltando de uma rave. Nunca dá pra saber. Sempre com alguma droga nova na cabeça e aroma de sexo exalando alto pelas axilas, nucas e pernas, que estão sempre abertas. Libido que faz minha cabeça ventilar, enterrando-me ainda mais em toda podridão que alguns pensamentos acabam por desaguar, com idéias que um trem sujo escocês insistentemente realça. Idéias prontas a maltratar qualquer um, só pelo fato de se estar vivo. A euforia do pó colombiano trazido do Brasil faz por instantes, pasmem, minha cabeça lembrar de coisas boas como a bela bochecha rosada de Elaine. Olho pro nada e percebo uma moça vindo em minha direção meio desfocadamente. Começamos a conversar. Ela ganha pontos. Acho-a no mínimo corajosa por tomar essa atitude. Está bronzeada e fala coisas bonitas. Diz-se atriz e escritora, está com uns papéis coloridos na mão com algumas baboseiras pueris escritas e uma garrafa de vinho dentro de um saco plástico. Quer me vender algo. Acabou de chegar da América do Sul, por isso a pele queimada. Divido uns goles com ela, mas me recuso a ler seus poemas. Não dá pra ler nada escrito num papel colorido. Papéis coloridos cortam minha onda. Nos despedimos e desço perto da praça do hotel. Deixo meu livro com ela de presente, tava a fim de me livrar daquele monte de merda mesmo. Ela corre e pergunta pra mim da janela, antes do trem voltar a andar, se eu acredito no amor. Enfio as mãos no bolso pra fugir do frio e balanço a cabeça para os lados demonstrando que minha resposta é um sonoro não. Comigo mesmo, sei que é só minha veia amarga manifestando-se. Vou descendo as escadas da estação e chuto uma ou duas latinhas de cerveja antes de pousar meu allstar surrado na calçada úmida. Enquanto escarro num poste, penso sobre a verdade: até acredito. Mas é foda. Acho chato pra caralho falar de amor.
Fecho o livro ali. Olho mais uma vez a cara de Irvine Welsh na orelha. Cara de babaca. Parece a sina de britânico, ter cara de babaca. Cheiro uma quantidade abissal de cocaína batida mal e parcamente por cima da capa. Acho que ninguém viu, mas não ligo muito pra isso. Não é comum as pessoas se preocuparem umas com as outras naquela altura da madrugada. O vai e vem do trem somado ao verniz localizado nos tipos do título na capa do livro atrapalham um pouco as coisas. Alguns jovens empolgados entram no trem falando alto. Sempre coloridos. Sempre indo ou voltando de uma rave. Nunca dá pra saber. Sempre com alguma droga nova na cabeça e aroma de sexo exalando alto pelas axilas, nucas e pernas, que estão sempre abertas. Libido que faz minha cabeça ventilar, enterrando-me ainda mais em toda podridão que alguns pensamentos acabam por desaguar, com idéias que um trem sujo escocês insistentemente realça. Idéias prontas a maltratar qualquer um, só pelo fato de se estar vivo. A euforia do pó colombiano trazido do Brasil faz por instantes, pasmem, minha cabeça lembrar de coisas boas como a bela bochecha rosada de Elaine. Olho pro nada e percebo uma moça vindo em minha direção meio desfocadamente. Começamos a conversar. Ela ganha pontos. Acho-a no mínimo corajosa por tomar essa atitude. Está bronzeada e fala coisas bonitas. Diz-se atriz e escritora, está com uns papéis coloridos na mão com algumas baboseiras pueris escritas e uma garrafa de vinho dentro de um saco plástico. Quer me vender algo. Acabou de chegar da América do Sul, por isso a pele queimada. Divido uns goles com ela, mas me recuso a ler seus poemas. Não dá pra ler nada escrito num papel colorido. Papéis coloridos cortam minha onda. Nos despedimos e desço perto da praça do hotel. Deixo meu livro com ela de presente, tava a fim de me livrar daquele monte de merda mesmo. Ela corre e pergunta pra mim da janela, antes do trem voltar a andar, se eu acredito no amor. Enfio as mãos no bolso pra fugir do frio e balanço a cabeça para os lados demonstrando que minha resposta é um sonoro não. Comigo mesmo, sei que é só minha veia amarga manifestando-se. Vou descendo as escadas da estação e chuto uma ou duas latinhas de cerveja antes de pousar meu allstar surrado na calçada úmida. Enquanto escarro num poste, penso sobre a verdade: até acredito. Mas é foda. Acho chato pra caralho falar de amor.
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
Sobre probabilidades
Como é foda poder ser ligeiramente ácido contigo e não sofrer as conseqüências sacais que uma suposta relação entre nós mais íntima traria. Esse sabor delicioso de poder ser franco com você (e não grosseiro, como infantilmente considera) me deixa nas nuvens. Não que eu me importe, pois já se foi o tempo em que isso ferrava meu dia. Aliás, nem sei bem se a expressão “nas nuvens” significa algo além do simples fato de flutuar de leveza quando ajo assim. Ser franco tem dessas coisas. É bom gritar sem expelir nenhum decibel sequer, um foda-se em caixa alta pra todo tipo de frescura sua. Juro que não faço isso por motivações pequenas ou algum tipo de recalque. A propósito: é até bom pra você, acredite. Ainda te acho linda e inteligente. Ok, menos do que quando estava contigo (atire a primeira pedra quem nunca flertou com o eufemismo). Acho sexy esse seu jeito contraditório também, mas percebo nem ser culpa sua isso tudo e sim do meu amadurecimento que trouxe de bandeja a calvície indecente que ando trajando, além da completa falta de saco pra ser diplomático. Chega uma hora na vida em que não há mais porquê um homem fazer sala . E aí você vira um fingido ou um insuportável (que fique claro que educação passa ao largo do assunto). Eu prefiro que ninguém me suporte. Já basta ter a idade que tenho e nem imaginar uma previsão pra começar a fazer os cinco filhos que minha família Claybon conservadora e preocupada com a violência vai ter. Pelo menos não me iludo achando que vou virar um guardião da moral. Tô mais pra virar um Hunter Thompson que abandonou a literatura, completamente careta e sem bagos pra cometer suicídio. Ou, reviravoltas da vida, acabar abrindo um boteco em Goa e morrer sem espaço no corpo disponível para mais tattoos, antes dos cinqüenta.
Lembra quando fui te levar no aeroporto naquela intempestiva ida à Itália? Aquele olhar que você fez ao entrar no check-in costumava diluir toda essa minha suposta capa ranzinza. Se foi verdadeiro valeu a pena. Tenho certeza que foi. Mas hoje não trocaria uma piada, uma constatação ou dizer o que penso, por nada neste mundo. Acho que você pode suportar bem isso. A gente nunca teria dado certo mesmo.
Lembra quando fui te levar no aeroporto naquela intempestiva ida à Itália? Aquele olhar que você fez ao entrar no check-in costumava diluir toda essa minha suposta capa ranzinza. Se foi verdadeiro valeu a pena. Tenho certeza que foi. Mas hoje não trocaria uma piada, uma constatação ou dizer o que penso, por nada neste mundo. Acho que você pode suportar bem isso. A gente nunca teria dado certo mesmo.
Assinar:
Postagens (Atom)