sábado, 28 de março de 2026

Agora que voce existe

Eu te vejo andando enquanto carrega uma arma e, displicentemente, aponta pra janela. Fico imaginando se você teria coragem de atirar. Depois eu percebo que não existe arma nenhuma. Nunca existiu. Somos só nós dois lidando com nossas munições, atirando um no outro sem cuidado nenhum com o que a gente sente.

Você ainda sente tudo aquilo que um dia sentiu tanto? Um tanto assim, de transbordar?

Eu te beijo enquanto você prepara um pão com cottage e, por algum motivo, aquilo me parece o máximo. Você me parece o máximo. E eu penso em tudo que sempre quis te dizer, mas nunca tive chance. Só que agora você tá aqui, na minha frente, e eu só consigo olhar pra 2008. Ou 2004. Eu não sei mais te ver sem pensar que eu sempre te busquei.

E agora que você chegou, eu tenho medo. Ou talvez não seja medo. Talvez seja só cansaço. Eu não sei nem se eu quero você e isso me basta — ou se eu te procurei tanto que, agora que você existe, eu já não sei mais o que fazer com a gente.

Eu te vejo sendo esquisita. Seu beijo que é só seu. Seu jeito expressivo. Seu jeito de observar os detalhes. O jeito que eu segurava sua mão. E nada disso passa batido, tudo vira ímã. Alguma coisa me faz pensar em voltar pro Rio, como se a geografia finalmente fosse resolver o que eu nunca deixei de sonhar.

Você me diz que eu te organizo. E isso me dá uma paz danada. A Tijuca sempre vence.

Nos meus sonhos a gente dança no centro do Rio até de manhã. E a gente se abraça com os olhos. E a gente ri. E a gente não precisa de mais nada na vida. Nada.

Mas minha cabeça anda ocupada demais adiando tudo. Adiando decisões. Adiando respostas. Adiando até o meu próprio corpo. Adiar virou um jeito de viver. Fazer amor contigo agora virou meditação.

Onde você tava esse tempo todo? Por que não chegou antes? Por que me prendeu naquele quarto? E por que, justamente agora que eu acho que te encontrei, eu também encontro essa sua dificuldade de lidar com os teus pais?

E quem é que não tem dificuldade de lidar com os pais?

Talvez seja só o tempo que passou rápido demais. E, no meio disso, talvez eu tenha me afastado de tudo. Até da chance de conhecer você. Deixa eu entrar, gata. Fica com medo não. A gente tava aguardando muito por esse encontro. E eu já decidi que eu quero você pra sempre.

Quando eu capotei, fiquei alguns minutos deitado no teto do carro. Parado. Pensando. Torcendo pra ter dado perda total. Eu tava mais preocupado com o prejuízo do que com as minhas pernas.

Demorei muito tempo pra entender que conseguir ficar de pé ainda é o maior indicativo de que um acidente possa ter sido um sucesso.